Imprensa

Quanto tudo começa
e termina em pizza

DANIEL LIMA - 05/08/2001

João Roberto não teve dúvidas em pegar a poupança dos tempos de metalúrgico para abrir um negócio. Não tinha experiência em comércio, mas com o dinheiro para montagem da pizzaria e com a mão-de-obra garantida pela mulher e três filhos adultos estaria protegido contra os custos fixos que, ouvia, costumam acabar com o sonho de quem se lança a empreender. 

Além de dinheiro para capital de giro e de familiares engajados no negócio, João Roberto contava com excelente ponto comercial, igualmente adquirido nos tempos em que montar veículos dava status e ótimos salários. Está certo que havia vários concorrentes no bairro onde João Roberto decidiu inaugurar a pizzaria. Nenhum, rigorosamente nenhum, poderia ameaçar seu empreendimento. A localização privilegiada e a redução de custo operacional representavam mais competitividade nos preços. Por isso, quando a vizinhança descobriu a pizzaria do João Roberto, foi aquele sucesso. 

O pizzaiolo contratado dava show de culinária. João Roberto o trouxera diretamente do Bexiga, na Capital, o centro nervoso da massa italiana no Brasil. Não foi fácil convencer Orestes a mudar-se para o Grande ABC que ouvira falar apenas por causa das greves dos metalúrgicos. O pizzaiolo era pernambucano e se chamava Orestes em homenagem dos pais ao político que governou São Paulo com as consequências que todos sabem, depois de ter prometido levar o sol para Brasília, quando chegou ao Senado derrotando Carvalho Pinto. Orestes, avesso à política, aprendera os segredos da massa com um pizzaiolo italiano de verdade, seu antigo chefe. Inteligente, tropicalizou o cardápio. 

Orestes só trocou a cozinha da cantina paulistana pela pizzaria do João Roberto diante da oferta de participação nos lucros. Orestes ouviu tanto sobre o assunto que resolveu arriscar, contendo a gulodice por salários de olho nos dividendos do faturamento. Foi com Orestes pilotando o forno e João Roberto assumindo o controle operacional que a pizzaria começou a decolar. Aí é que começou a perdição de João Roberto. Ele não conseguiu planejar o fluxo de crescimento. Subestimou a demanda. Não deu a estrutura material e de gente que a clientela passou a exigir.

A pizzaria de João Roberto e de Orestes exigia mais investimentos. Novos funcionários. Novos equipamentos. A novidade incendiou o apetite da vizinhança. João Roberto demorou para perceber que não havia alternativa senão investir, redimensionar o negócio. O atendimento em domicílio começou a congestionar. Dois motoqueiros já não davam conta do recado. As encomendas começaram a atrasar. Pizza fria é uma fria. 

João Roberto achava que poderia protelar as medidas. Estava cego pelo sucesso a ponto de atribuir-se a decisão de coordenar o fluxo do forno, que despejava pizza atrás de pizza. Os frequentadores da pizzaria também passaram a sentir os efeitos das limitações da infra-estutura. A espera era tormentosa. Fome é fome. Não gosta de ser protelada depois que vem. João Roberto achava que dava para ganhar mais enfiando bebidas e refrigerantes enquanto Orestes se virava em três para dar conta da clientela. 

A fama repentina de pizzaria de primeira começou a virar pó. João Roberto demorou para perceber que o atendimento de terceira classe não combinava com a maestria de Orestes, um piloto de Boeing à frente de um asa delta. Quando os três filhos e a mulher se viram pouco ativos, quando os telefones deixaram de tocar com a insistência de antes, quando os estrondosos temperos do Orestes começaram a sobrar, João Roberto caiu na real. 

Agora ele está às voltas com o refluxo. Orestes já ameaçou ir embora de volta para o Bexiga, mas João Roberto está conseguindo segurá-lo. Não sabe até quando, porque da mesma maneira que a clientela veio de supetão, com entusiasmo, foi-se embora sem ensaio. Como trazer os clientes de volta é a pergunta que João Roberto mais faz. Reconhece que está difícil. Uma placa de Sob Nova Direção talvez seja a saída, recomendaram a João Roberto. Ele não entendeu. Talvez ainda entenda. 


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