A maioria dos leitores de LivreMercado defende a livre iniciativa econômica. Aparentemente, nenhuma novidade, porque a publicação é fortemente dirigida a empreendedores industriais e do setor terciário, além de profissionais liberais como advogados, médicos, contabilistas e economistas. Mas LM também circula significativamente entre funcionários públicos de diversos escalões, professores e sindicalistas, categorias influenciadas pelo centralismo econômico da União, de Estados e municípios.
O resultado amplamente favorável à livre iniciativa vem de consulta da Editora Livre Mercado junto a numerosa parcela de leitores que representam diferentes públicos da revista. Foram enviados questionários através dos Correios e também pelo boletim eletrônico Capital Social, emitido de segunda a sexta-feira a mais de cinco mil emeios selecionados.
Não houve surpresa com o desfecho da apuração, que apontou 63,7% dos leitores favoráveis à mão invisível do mercado, contra 11% à mão forte do Estado. Mais impactante foi a tonalidade da escolha: a maioria de 38,5% defende a liberdade individual de mercado e o envolvimento apenas discreto do Estado em todas as demais frentes, enquanto outros 25,2% defendem a liberdade de mercado, mas querem que o governo mantenha forte controle sobre questões como família, drogas e aborto. Isto é: a economia de mercado prevalece nos dois pontos e o que se repassa ao Estado são aspectos de ordem social.
Apenas 4,8% dos leitores querem maior intervenção do Estado na vida econômica, são descrentes no mercado e esperam cautela do governo no tocante às questões morais. Já 6,3% definiram-se como adeptos de que o governo tenha mão forte em todas as áreas, incluindo tanto a econômica quanto a moral. A outra alternativa da consulta da Editora Livre Mercado empatou em preferência com a segunda mais votada: 25,2% dos leitores preferiram não optar por qualquer uma das alternativas, por considerar que não contemplam integralmente seus anseios.
A prospecção da Editora Livre Mercado e do boletim Capital Social foi apresentada como proposta para descobrir o perfil ideológico dos leitores longe da simplificação de direita versus esquerda, historicamente antagonizadora. O que são, então, do ponto de vista de nomenclatura, os quatro espectros definidos pela consulta? Simples: quem optou pela liberdade de mercado com controle sobre questões como família, drogas e aborto é considerado conservador. Já os que optaram por liberdade de mercado e envolvimento apenas discreto do Estado em todas as frentes ganharam a etiqueta de libertários. Aqueles que defendem maior intervenção do Estado na vida econômica, descrêem do mercado e querem cautela do governo no tocante às questões morais são chamados de socialistas. Quem marcou preferência por governo forte em todas as áreas, inclusive econômica e moral, é autoritário.
A Editora Livre Mercado lançou a consulta sem antecipar nominalmente o conceito que cada alternativa envolvia exatamente porque pretendia chegar ao perfil dos leitores sem que barreiras de preconceito ideológico pudessem levá-los a, inconscientemente ou não, acomodar-se numa das opções de acordo com eventual interesse de manterem-se politicamente corretos. Se fosse definido que as respostas implicariam na modelagem de conservadores, libertários, socialistas e autoritários, possivelmente o resultado final seria diferente.
É provável que das quatro identidades, apenas a segunda, dos libertários, não carregue peso sobressalente de discriminação. Conservadores, socialistas e autoritários são grifes ideológicas que muitos leitores não gostariam de carregar porque estão impregnadas de paradigmas desgastados pelo conceito simplificador de direita versus esquerda.
A base de operação da Editora Livre Mercado foi uma ação desenvolvida pelos ingleses John Blundell e Brian Gosschalk. Eles observaram as atitudes sociais e políticas no Reino Unido divididas em quatro aglomerados -- conservador, libertário, socialista e autoritário. A crença na liberdade econômica -- o livre mercado -- é medida num eixo e a liberdade pessoal em outro.
A comparação entre a consulta da Editora Livre Mercado e os dados do levantamento dos pesquisadores ingleses não pode ser considerada relevante porque metodologias diferentes foram aplicadas na elaboração do trabalho. Mas nada garante que seja por isso que os resultados foram diferentes. É mais aconselhável entender que entre Grã-Bretanha e Grande ABC há fundas diferenças culturais, econômicas e sociais. Entre os britânicos, um terço da população é conservadora, pouco mais de 20% são libertários, 18% são socialistas, 13% autoritários e 15% não se definiram por qualquer uma das quatro posições.
De qualquer forma, independentemente de confrontação, os 38,5% de libertários entre os leitores de LivreMercado são universo impressionante que se torna ainda mais expressivo quando se juntam os 25,2% dos conservadores, semelhantemente favoráveis à iniciativa privada. Talvez tão expressiva quanto a performance dos alinhados à economia de mercado entre leitores de LivreMercado seja a fragilidade numérica dos associados ao centralismo econômico: não passam de 11% os leitores que querem o Estado comandando a economia.
O temário proposto pela Editora Livre Mercado no vácuo dos pesquisadores ingleses é por demais complexo para incursões radicalmente afirmativas, mas há componente histórico e paradoxal no Grande ABC que provavelmente demandaria torrenciais teses acadêmicas para que seja integralmente decifrado. Trata-se do fato de que a região tem tradição empreendedora arraigada desde a chegada dos imigrantes italianos, espanhóis, armênios, entre outros, há mais de um século. O paradoxo está na tradição do movimento sindical como oponente do capital porque se transformou no braço ampliado do Estado do Bem-Estar Social que Getúlio Vargas procurou copiar do figurino da social-democracia européia como forma de evitar o que se convencionou chamar de selvageria nas relações entre capital e trabalho.
Novos negócios -- Os números da Editora Livre Mercado permitem interpretações consistentes mas nem por isso inquestionáveis também sobre o quadro de mudanças que reforçaram a vocação privatista do Grande ABC na última década. A preferência maciça pela economia de mercado detectada na consulta provavelmente esteja reforçada pela multiplicação do empreendedorismo na região, em consequência da avalanche de demissões de trabalhadores do setor industrial. Foram mais de 125 mil postos de trabalho com carteira assinada eliminados entre 1989 e 1997. Não há dados mais atualizados, mas o processo de enxugamento dos quadros industriais ainda não terminou.
Os números avantajados de novos negócios nos setores comercial e de serviços no Grande ABC acompanham simetricamente o mapeamento de demissões industriais. Ex-trabalhadores e ex-executivos transformaram-se em pequenos empreendedores na maioria dos casos. Nada mais pedagógico para sentirem o peso das improdutividades do Estado brasileiro. Nada mais emblemático para novas adesões à teoria da liberdade econômica.
Jamais em toda a história econômica do Grande ABC os pequenos negócios foram tão duramente atingidos como nos últimos 10 anos. Primeiro, porque a competição tornou-se escarniçada por causa da multiplicidade de novos empreendimentos. Segundo, porque os grandes conglomerados nacionais e internacionais encontraram terrenos férteis e absolutamente desprotegidos. Supermercados, hipermercados, redes de material de construção, entre outras atividades, ocuparam os melhores endereços na região e passaram a dominar grande parcela da massa de consumo local que, por sua vez, continua em contração.
Quantos metalúrgicos que produziram veículos sem agregado tecnológico em tempos de Brasil autárquico, de costas para o mundo mais desenvolvido, perderam o emprego e viraram donos de botequins, mercearias, açougues, pequenas indústrias de fundo de quintal? Quantos deles são capazes de sugerir algo diferente senão liberdade de empreender como alternativa de desenvolvimento econômico e social? Um terço dos empreendimentos de comércio e serviços da região vive na informalidade, segundo pesquisa da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. São cidadãos de um capitalismo de terceira classe que procuram fugir do sufoco tributário do Estado.
Como se observa, por mais que possa haver ponderações técnicas e científicas que dêem ao trabalho da Editora Livre Mercado característica nada além de suculenta pauta jornalística sujeita a reparos de especialistas, porque é assim que tradicionalmente a academia costuma lidar com algo que não saia de suas entranhas, os resultados e as avaliações não são exatamente um grande tropeço.
Há certos aspectos da vida econômica e social de determinada localidade que recomendam metodologias e aplicação de pesquisas que confiram às especificidades os rigores científicos testados e aprovados nas academias. Entretanto, também há questões da vida econômica e social que podem eventualmente ser vasculhadas de forma empírica sem que se cometam erros crassos, porque o conhecimento prático de realidades específicas é um ponto a ser valorizado.
Se as pesquisas têm o condão de estabelecer números definitivos, embora sejam constantemente contaminadas com interpretações feitas sob medidas, rastreamento como o realizado pela Editora Livre Mercado não pode ser desclassificado simplesmente porque não passou pela engenharia de um instituto de pesquisa.
Há tantas questões tão evidentemente elucidadas pela percepção de quem conhece minimamente uma sociedade que pesquisas metodologicamente irrepreensíveis se tornam ou dispensáveis ou não necessariamente urgentes. Um exemplo é a constatação de uma empresa especializada em sondagem eleitoral que recentemente constatou -- e deu ares de novidade ao fato -- que as duas maiores preocupações da população do Grande ABC são desemprego e falta de segurança. Até o mais atuante dos otimistas que moram na região, espécime cada vez mais rara diante do cotidiano de exclusão social, sabe por experiência própria ou do vizinho mais próximo que o emprego rareia tanto quanto a violência avança.
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