LivreMercado está completando 12 anos de circulação com diretrizes editoriais sempre ajustadas às circunstâncias institucionais do Grande ABC. O assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André, principal interlocutor desta publicação na valorização do debate voltado ao fortalecimento da regionalidade, estabelece novo divisor de águas na história da revista, segundo define o jornalista e diretor-executivo Daniel Lima. Após apresentar durante os 12 anos de circulação três facetas editoriais proeminentes, LivreMercado incorporará uma quarta característica -- definida como cuidadosamente construtivista.
No ano passado, no aniversário de 11 anos, a direção fez análise retrospectiva do conteúdo editorial da publicação e chegou à conclusão de que a consolidação das linhas mestras reunia três componentes apenas supostamente contraditórios, expostos nos temários que compuseram as Reportagens de Capa. No período estudado, a revista manteve linhas abusadamente prospectiva, generosamente otimista e duramente realista. Agora vem a fase do cuidadosamente construtivista.
A direção editorial de LivreMercado antecipa-se a eventuais mal-entendidos quanto ao conteúdo histórico da publicação. A fase cuidadosamente construtivista não negará as etapas anteriores nem torna a revista imune aos efeitos do legado que transformou LM na melhor publicação regional do País. "Temos de ajustar as táticas editoriais às circunstâncias temporais. Mas jamais sacrificaremos as doutrinas que sustentam a publicação no longo prazo, nas estratégias" -- explica a editora-chefe Malu Marcoccia.
A constatação de que a morte do prefeito Celso Daniel abalou profundamente a já esgarçada regionalidade do Grande ABC inocula em LivreMercado doses de paciência com o andar da carruagem institucional que envolve sete municípios historicamente fracionados. "O Grande ABC é, neste momento, uma cristaleira invadida por um macaco de circo que precisa ser capturado antes que provoque grande estrago" -- compara o jornalista Daniel Lima.
A nova etapa cuidadosamente construtivista não significa que LivreMercado se converterá em fantoche ufanístico que sempre criticou: "Vamos apenas modular determinadas abordagens porque entendemos que não podemos, de forma alguma, assustar o mico na cristaleira sob pena de provocar muitos transtornos. Por mais que acreditemos nos pressupostos de fortalecimento regional ditados pelo norte-americano Michael Porter, especialista em desenvolvimento econômico integrado, sabemos distinguir o ambiente de tensão salutar do caos institucional" -- completa Daniel Lima.
Para Malu Marcoccia, o mais significativo do que se está operacionalizando na publicação, sempre tendo em vista a preservação das cláusulas pétreas estabelecidas a partir de março de 1990, quando a primeira edição do então tablóide foi para as ruas, é que a estrutura conceitual jamais será agredida: "Defendemos a livre iniciativa ao mesmo tempo em que alertamos empreendedores para a importância da participação em várias instâncias da comunidade, incentivamos a sociedade a massificar instrumentos de cidadania e cobramos das esferas públicas qualidade e eficiência na prestação de serviços aos contribuintes. Também defendemos a abertura permanente ao diálogo e à cooperação dos representantes do mercado e da comunidade" -- resume a jornalista sobre os pressupostos da linha editorial de LM.
Interesse público -- Para reforçar o que também chama de mandamentos sagrados da publicação, Malu Marcoccia lembra que a dinâmica dos acontecimentos sociais, econômicos, políticos e culturais dita a eventual correção de rumos táticos. "Não podemos conceber uma publicação, produto de interesse público, que despreze aspectos circunstanciais cujos desdobramentos tenham influência em pontos históricos. Entendemos que a sociedade é dinâmica, os costumes ganham novos formatos, as transformações batem na porta a cada instante e tudo isso precisa ser responsavelmente avaliado. Não podemos cometer o pecado da omissão nem o desvio do encantamento circunstancial" -- afirma a editora-chefe.
Daniel Lima lembra que a fase duramente realista de LivreMercado foi mais acentuada nos últimos tempos, quando o Grande ABC passou a viver refluxo nos movimentos de integração regional. "Nos sentimos traídos pela negligência regional de tratar as questões sem bairrismos e personalismos, sobretudo porque esse período substituiu o que chamamos de etapa generosamente otimista -- quando acreditamos francamente na consolidação de programas que transformassem o Grande ABC num megamunicípio".
Tanto o diretor-executivo quanto a editora-chefe de LM entendem que o momento do Grande ABC é particularmente difícil, mas que isso não torna compulsória a linha editorial definida como cautelosamente construtivista. "Talvez entendam equivocadamente o que pretendemos, mas podemos explicar da seguinte forma: vamos continuar a apontar os problemas da região porque consideramos que é uma forma de contribuir. Mas a diferença da fase duramente realista é que tentaremos acrescentar aspartame onde alguns pretendiam colheradas de açúcar, enquanto a maioria compreendia mesmo que as circunstâncias recomendavam eliminação de qualquer tipo de adoçante, natural ou não" -- compara Daniel Lima.
Malu Marcoccia traduz a metáfora com a afirmação de que entre a adocicação natural e compulsória dos triunfalistas e o sabor natural da realidade, LivreMercado adota agora um meio-termo nas questões mais explosivas. "Para dar um exemplo prático do que será a fase cautelosamente construtivista, podemos dizer que jamais abdicaremos de matérias que tratarão do esvaziamento econômico do Grande ABC, uma linha que deu grande respeitabilidade à revista. Mas o tratamento editorial será menos explícito e provavelmente, durante essa fase de macaco em cristaleira, deixará de ocupar Reportagens de Capa".
Para Daniel Lima, o detalhamento das nuances que marcam a história de LivreMercado é algo incomum no mercado editorial brasileiro e contribui, sem mistificações, para a compreensão dos leitores. "A mudança de marcha que imprimiremos a partir de agora, porque sabemos que sem Celso Daniel a institucionalidade do Grande ABC está balançando, é uma tática pensada, repensada e aprovada por nosso grupo de colaboradores editoriais. Estamos conscientes de que durante algum tempo faltará uma liderança adaptada aos choques de cobrança de nossa publicação. Quando sentirmos mais segurança de governança regional, voltaremos a engatar a Quinta marcha" -- afirma Daniel Lima.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)