Economia

Pamplona volta a
complicar Agência

DANIEL LIMA - 05/06/2002

Depois de período de reclusão involuntária, o economista João Batista Pamplona voltou a protagonizar desastres estatísticos e interpretativos à frente da coordenação de pesquisas da Agência de Desenvolvimento do Grande ABC. Um dos raros propagadores da falácia de que a região não sofreu esvaziamento industrial nos anos 90, justamente o período em que o conjunto de sete municípios mais sofreu erosões econômicas, João Batista Pamplona apareceu em cena no final de maio com duas novas travessuras. Primeiro, disse que o emprego industrial ganhou 45 mil postos entre 1999 e 2001 no Grande ABC. Em seguida, para tentar aplacar o impacto de novas pesquisas que dão conta da supressão de 20 mil trabalhadores em fábricas, afirmou que a explicação está no fato de que aonde o PIB nacional vai, o emprego do Grande ABC vai atrás. 

Tanto num caso como noutro Pamplona exercitou a infinita capacidade de tornar os números objetos de prestidigitação e, se isso não for suficiente, a sessões de sadomasoquismo analítico. Os 45 mil empregos industriais que o estatístico diz terem brotado entre 1999 e 2001, com base em dados da Fundação Seade em parceria com o Dieese, incorporam todo tipo de relação, inclusive a informalidade, e não o vínculo com carteira assinada. Mas uma nova pesquisa do Seade/Dieese, no dia seguinte às fantasias do professor, derrubou 20 mil postos de trabalho só na indústria entre abril de 2001 e abril deste ano. 

Na tentativa de explicar o inexplicável na entrevista que deu à Gazeta Mercantil, João Batista Pamplona disse ao Diário do Grande ABC coisas estapafúrdias, como a generalização de que o emprego industrial da região está atrelado às oscilações do PIB (Produto Interno Bruto). Nada mais impreciso, porque enquanto o PIB dos anos 90 cresceu em média por ano modestos 2,5%, o emprego industrial formal (com carteira assinada) no Grande ABC desabou em mais de 100 mil postos, ou uma guilhotina de 34% do efetivo. 

Pamplona esqueceu do elementar: o Grande ABC, contrariamente às principais regiões econômicas do País, sofreu o mais brutal espancamento em forma de abertura comercial e sua economia, movida a indústria automotiva, entrou em parafuso. Por isso vive anos e anos de reestruturação competitiva de consequências terríveis para o conjunto da sociedade. Permanentes quedas do Valor Adicionado, do PIB, do ICMS e do Potencial de Consumo, fartamente detalhados por LivreMercado, consolidam essa realidade. Pamplona, que parece viver no mundo da lua, ignora tudo isso em suas fantasias numéricas.  

Precarização -- A pesquisa do Seade/Dieese que denuncia a perda de 20 mil empregos industriais entre abril de 2001 e abril deste ano constata que a taxa de desemprego no Grande ABC alcança 20% da PEA (População Economicamente Ativa). O contingente de desempregados chegou a 252 mil pessoas em abril. Entretanto, mais importante até que os números de desemprego é a qualidade do emprego, algo sobre o qual o professor-doutor Pamplona detesta falar. O trabalho autônomo aumentou 16,1% entre abril de 2001 e abril de 2002 e o nível de assalariamento geral decresceu 4% no período. 

O nível de ocupação apresentou variação positiva de 0,8% entre abril do ano passado e abril deste ano, mas o peso inclinou para atividades que não agregam riqueza nem salários como a indústria: o saldo de oito mil novas ocupações é resultado do aumento da ocupação em serviços (19 mil postos), no comércio (4 mil) e no agregado Outros Serviços (5 mil postos). 

Propagador da bobagem de que o maior desastre do Grande ABC nos anos 90 foi apenas o desemprego, quando a erosão de postos de trabalho se deve ao fato de a indústria ter sofrido duras perdas principalmente com a evasão iniciada ao final dos anos 70, João Batista Pamplona está a serviço da Agência de Desenvolvimento Econômico por força de contrato assinado quando o diretor-geral era o prefeito Celso Daniel, assassinado em janeiro.  Fontes de João Avamileno, sucessor de Celso Daniel tanto na Prefeitura de Santo André quanto na Agência, garantem que a cota de paciência já se esgotou. 


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