Economia

Ford é regra,
não exceção

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/11/2002

Recente declaração de um dos principais capitães da Ford mundial dimensiona o manancial de problemas enfrentados pelo conjunto das montadoras no Brasil. Nas palavras do chairman e executivo-chefe Bill Ford, veiculadas originalmente pelo jornal britânico Financial Times, a Ford está diante de seu quinto plano final na América do Sul, referindo-se ao projeto de transformar a planta baiana em promissora plataforma de exportação para o Primeiro Mundo. 

Em bom português, significa que só Deus sabe o futuro da montadora no subcontinente se a intenção de consolidar boas vendas para o mercado externo não se concretizar. Estaria a subsidiária da segunda maior montadora do mundo na iminência de repetir o triste fim da Chrysler no Paraná, de modo a justificar a profecia do ex-presidente da Volks brasileira Herbert Demel, segundo quem a hipercompetição diante da escassez de consumidores elevaria o obituário do setor no País? A possibilidade emerge nas entrelinhas de Bill Ford, que analisa a questão sob a luz fria e objetiva de acionistas ávidos pelo retorno dos investimentos. 

A reportagem publicada pelo Financial Times foi reproduzida em tom de alerta nos principais jornais brasileiros dada a presença marcante da montadora especialmente no Brasil. Dos 12,5 mil empregados da Ford na América do Sul, 10 mil são brasileiros que trabalham nas fábricas de São Bernardo e Taubaté, no Interior Paulista, além da novíssima planta baiana de Camaçari, depositária das esperanças de recuperação da marca com a linha de montagem mundial do novo Fiesta e do utilitário esportivo Ecosport. 

Basta dar um zoom sobre as operações em território nacional para perceber que a situação da fábrica do Grande ABC é a mais suscetível a potenciais abalos reestruturativos porque corresponde ao lado mais fraco da corda que pode estourar. Pelo simples fato de que a fábrica de São Bernardo tem custos operacionais muito mais elevados que a de Camaçari -- não fosse assim, a montadora teria construído a nova fábrica aqui, não lá. A declaração de Bill Ford cai como banho de água fria sobre o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que reivindica a montagem de novo modelo que garanta longevidade produtiva e de empregos à planta do Taboão. 

A matéria do Financial Times dá conta de que os prejuízos trimestrais das operações sul-americanas da Ford subiram para US$ 138 milhões, ante US$ 58 milhões no mesmo período do ano passado. A montadora está mergulhada no vermelho desde que desfez a aliança com a Volks sob a holding Autolatina. Infelizmente para a economia brasileira e particularmente para o Grande ABC sobre rodas, a situação da Ford é regra, e não exceção. Praticamente todas as montadoras brasileiras trabalham no vermelho porque a ociosidade produtiva em torno de 40% é incompatível com equilíbrio entre despesas e receitas. As montadoras vivem o mesmo drama porque os obstáculos econômicos são de fundo estrutural e comuns: mercado interno restrito pela baixa renda nacional e alta taxa de juro, exportações em patamar muito inferior ao necessário para contrabalançar a impossibilidade de vender no Brasil e, acima de tudo, concorrência vertiginosa dentro e fora do País. Conclusão: com capacidade instalada de 3,2 milhões de veículos, as montadoras brasileiras patinam na produção de metade desse patamar.

Além disso, o dólar nas alturas gera ciclo vicioso que deixa as automotivas encalacradas: pressionadas por aumento de custos de produção, uma vez que muitos insumos são importados ou têm preços cotados internacionalmente, empresas reajustam preços que se tornam ainda mais inacessíveis aos brasileiros. Por outro lado, é preciso vender muito mais para cobrir investimentos selados em dólar ou euro. A volúpia de exportar está intimamente relacionada à necessidade de estabelecer espécie de ponte cambial para irrigar o balanço com moeda forte investida em tecnologia importada.


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