Economia

O que vai ser
do Rodoanel?

WALTER VENTURINI - 05/12/2002

Relegado a segundo plano no início do Rodoanel, cujas obras começaram em 1998 pelo trecho Oeste, o Grande ABC pode ficar mais alguns anos na fila por causa de polêmica envolvendo o traçado do trecho Sul, que ligará a Avenida Papa João XXIII, em Mauá, à Rodovia Régis Bittencourt, em Embu, passando por Santo André, São Bernardo e zona sul da Capital. O próprio governo refaz seus prazos e avisa que a obra deverá começar efetivamente no primeiro semestre de 2004 e não mais em meados de 2003, como vinha sendo anunciado. 

O fato de a rodovia passar pela área de proteção dos mananciais da Represa Billings já provocou o adiamento das audiências deste final de ano para discutir o impacto ambiental do projeto. Defensores ecológicos como a promotora de Justiça de Proteção ao Meio Ambiente de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, Thelma Tahis Cavarzere, simplesmente são contra e encaram o Rodoanel como desnecessário ao viário caótico da Região Metropolitana. 

Entre os que não vêem qualquer contradição entre a preservação da natureza e o anel de 180 quilômetros que pode representar a retomada do crescimento da região, como o especialista em transportes Renato Maués, a paralisia provocada pela discussão pode comprometer uma rara possibilidade de religar o motor econômico do Grande ABC. Maués defende inclusive que o trecho Sul, de 53,7 quilômetros, seja desmembrado da discussão dos traçados complementares, Leste e Norte.

"Sou visceralmente contra o Rodoanel. Contra cortar até mesmo uma folhinha" -- dispara a promotora Thelma Cavarzere, que ao lado de outros 13 promotores da área ambiental das cidades cortadas pela obra estudam uma ação civil pública para interromper o licenciamento dos trechos Leste, Norte e Sul. "O adiamento é um retrocesso. Já tivemos tantas prorrogações no cronograma e temos que aguentar mais essa" -- reclama Renato Maués, assessor executivo do Consórcio de Prefeitos do Grande ABC. 

No meio do tiroteio, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente achou por bem adiar as seis audiências públicas que deveriam ocorrer até o final de 2002.


Favelização -- A promotora é categórica e acredita que o Rodoanel trará perdas ambientais e econômicas ao Grande ABC. "Já está comprovado que o movimento não é grande no trecho Oeste do Rodoanel, diante do prejuízo da natureza. Só daqui a 10 anos é que vai melhorar um pouco, porque um traçado paralelo já existe. Até para a economia é prejudicial porque vai atrair a favelização. O dinheiro da obra pode ser muito melhor aplicado para aprimorar a rede ferroviária, que é muito utilizada" -- argumenta Thelma Cavarzere, que reside em São Paulo e trafega diariamente pela Via Anchieta e Rodovia Índio Tibiriçá, longe, portanto, do caos urbano interno do Grande ABC. 

Inconsolável pelo atraso do cronograma do projeto, Renato Maués não aceita as considerações da promotora. "É absurdo falar sem conhecimento de causa. Não estamos pedindo nenhum relaxamento das questões ambientais, mas a agilização da discussão para viabilizar o trecho Sul mais rapidamente" -- rebate o assessor executivo. A ocupação ordenada do entorno, aliás, é assunto que a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC levará à debate neste dia 17 por meio da mesa de integração do corredor Atlântico-Mercosul, que estuda a multimodalidade dos transportes. A sugestão do encontro foi feita pela newsletter Capital Social Online. 

Em meio à polêmica, o coordenador de Gestão Ambiental do Rodoanel, Rubens Mazon, garante que não está preocupado com a possibilidade de embargo da obra. "Não fizemos nada de errado e desconheço qualquer movimentação contra a obra. Se houver, não terá nenhum significado porque quem avalia o impacto ambiental é a Secretaria de Meio Ambiente do Estado" -- afirma. O coordenador de Gestão Ambiental esclarece que o adiamento serviu apenas para possibilitar maior diálogo com a sociedade, mas ressalta que a obra deve começar efetivamente entre fevereiro e março de 2004. "O projeto executivo fica pronto em setembro de 2003 e depois começa a licitação, que para uma obra como essa, de R$ 1 bilhão, deve durar entre quatro a seis meses. De qualquer forma, está mantido o prazo para conclusão do trecho Sul, que será em 2006" -- reforça Rubens Mazon. O executivo do Estado garante que o Rodoanel não causará impacto negativo aos mananciais. "Existem outras estradas na área e o Rodoanel terá a seu favor uma engenharia moderna, que realizará a obra com muito mais cuidado" -- declara.


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