Economia

Mauá seduz
grupo setorial

WALTER VENTURINI - 05/03/2003

De uma só tacada, Mauá pode ganhar seis novas empresas. A Prefeitura foi mais rápida no gatilho e negocia terreno de 100 mil metros quadrados para instalar um pólo de ferramentaria, ação associativista de empresários que começou há dois anos em São Bernardo, mas que pode transferir as atividades atraída também por incentivos fiscais. A procura por um terreno começou em 2000, quando cinco empresas das áreas de usinagem e ferramentaria criaram em pool a Usion Metalúrgica para potencializar o know-how e a produção dos associados e mesmo partir para o mercado externo. Durante esse tempo, a Prefeitura de São Bernardo não conseguiu reunir condições para manter o inédito empreendimento no Município, por enquanto instalado no Bairro Cooperativa, e agora corre o risco de colecionar mais uma perda na disputa que as cidades da região promovem em busca de investimentos privados.

Em situação inversa, a Prefeitura de Mauá faz o possível para conquistar mais inquilinos ao Pólo Industrial de Sertãozinho. “A idéia é aplicar a Lei de Incentivos Seletivos, que permite isenção de IPTU e todos os outros tributos municipais por até 10 anos” — anima-se o ex-secretário de Desenvolvimento Econômico de Mauá, Paulo Eugênio Pereira Júnior, responsável pela negociação do empreendimento. Os empresários do pólo de ferramentaria querem comprar o terreno que pertence à Prefeitura e aguardam somente o resultado de estudo topográfico. “Só queremos boas condições de pagamento para podermos iniciar a construção dos prédios com recursos próprios” — explica Antonio Carlos Diegues, proprietário da Kayak do Brasil, uma das cinco empresas fundadoras da Usion. 


Falta área — São Bernardo ainda alimenta a esperança de manter as empresas em seu território. “A Prefeitura tem o desejo de apoiar a iniciativa, mas o problema é realmente encontrar uma área viável” — explica o diretor do Departamento de Fomento à Indústria, Hitoshi Hyodo, ao justificar com as restrições da Lei de Proteção aos Mananciais e com o tamanho da área pública necessária ao empreendimento, inexistente em São Bernardo. Enquanto isso, o Conselho de Desenvolvimento de Mauá já aprovou as isenções fiscais para o terreno oferecido aos empresários. “Também vamos apresentar o projeto do pólo de ferramentaria para a Agência de Desenvolvimento do Grande ABC, para podermos negociar com o governo do Estado incentivos na área de formação profissional” — cacifa Paulo Eugênio, atraído pela experiência incomum de associativismo na região.

A desvalorização do real frente ao dólar fez o grupo empresarial explorar a demanda por peças, ferramentas e equipamentos nacionais, diante do aumento dos custos de produtos importados. Mas aumentaram as dificuldades para a produção das empresas associadas, instaladas em terrenos separados e em áreas densamente urbanizadas em São Bernardo. Antonio Carlos Diegues, da Kayak, sente na pele a necessidade de trabalhar em outra área apropriada. No terreno onde está instalado, no Bairro Assunção, a vizinhança reclama quando são trabalhadas peças de peso elevado durante a noite.

Carlos Diegues estima que em 2002 o faturamento aproximado da Usion e das cinco empresas associadas — que continuam tocando seus negócios à parte — ficou em torno de R$ 4 milhões. “Nesses dois anos os sócios se conheceram e as cinco empresas fizeram investimentos conjuntos. Foi muito enriquecedor” — conta o empresário, que faz segredo dos investimentos e dos nomes dos associados. As seis empresas empregam aproximadamente mil pessoas, quadro profissional suficiente para formar o maior empreendimento da área de ferramentaria da América Latina. 

Apesar de ainda não se constituírem num único conglomerado, as empresas que formam a Usion já colhem os frutos do pool. Quando da associação, o grupo importou máquina de usinagem para peças acima de 10 toneladas. Agora está prestes a receber o segundo equipamento pesado — uma fresadora de banco fixo — que trabalha com até 30 toneladas e abre mercado para encomendas de médio e grande porte. “Sem a máquina, não temos diferencial nenhum. Em qualidade, não ficamos devendo nada para concorrentes do Exterior. Mas uma encomenda externa não pode esperar dois meses para ter uma peça finalizada” — conta Antonio Carlos Diegues. A Usion já faz contatos para montar uma rede de representantes no Exterior. As prioridades são Estados Unidos, México e Espanha.         



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