Economia

Ainda há sonhos a
embalar Vera Cruz

MALU MARCOCCIA - 05/05/2003

Longe de se diluir, como tudo indica após a desistência do governo do Estado de prosseguir com os financiamentos, o projeto Nova Vera Cruz não vai descer do palco. Pelo menos se depender do novo prefeito de São Bernardo, William Dib, que acredita haver encontrado a fórmula para ressuscitar os estúdios cinematográficos e tudo o que existe no quadrilátero que envolve a obsoleta Cidade das Crianças com sua Minitransamazônica, o Fórum da Justiça em ruínas e a recém-reformada Faculdade de Direito: “Ninguém melhor do que o mercado para tocar a revitalização de toda essa área” — confidenciou o prefeito a empresários que lhe cobraram um centro de exposições e eventos à altura de São Bernardo, como o Anhembi.

Mais um delírio, como chegou a ser considerada a Nova Vera Cruz? William Dib afirma que não, desde que o Poder Público saiba apelar corretamente para o espírito empreendedor explícito, isto é, conceder áreas públicas para investidores capitalistas. Depois de caminhar pelo atalho do incentivo cultural — cuja dedução de 100% no IR só seduziu a Volkswagen —, a Vera Cruz e agregados da vizinhança prometeriam lucros a quem se dispuser explorar comercialmente esses equipamentos públicos. 

William Dib evita dar números e prazos, pois só agora, com a devolução dos estúdios para a Prefeitura, novos planos começam a ser pensados. Por esses planos, entretanto, brotaria ali um megacomplexo de negócios e entretenimento a partir da cessão de áreas para construção de hotéis, exploração dos pavilhões para congressos e feiras, a revitalização de brinquedos e dos espaços de entretenimento da Cidade da Criança e a transformação da Faculdade de Direito, uma autarquia municipal, em um centro permanente de convenções. “A Faculdade de Direito de São Bernardo ganhou projeto arquitetônico de Oscar Niemayer e iria para terreno que doaremos na Via Anchieta, atrás do Ginásio Poliesportivo” — planeja o prefeito, referindo-se à área reservada ao futuro Centro Cívico da cidade, onde também há planos de se erguer a nova Prefeitura, Câmara de Vereadores e Teatro Municipal.

Acostumado a atitudes práticas por força da profissão, o cardiologista William Dib admite que cultura não dá retorno comercial. Mas acha que São Bernardo tem em mãos um nome carismático como o da Vera Cruz e um insumo já existente a partir da infra-estrutura ao redor para transformar tudo num produto atraente a investidores, de rentabilidade mais garantida do que um complexo meramente cultural. A grande mudança é possível na cabeça de Dib, que já pensa inclusive em desapropriar algumas residências que cortam ao meio a Cidade da Criança e ladeiam o antigo Fórum da Justiça, cujo prédio também retornou à Prefeitura após a desistência de um pouco convincente convênio entre governo do Estado e Faculdade Afro-Brasileira. Em área contígua, são 61 mil metros quadrados se somadas Vera Cruz, Faculdade de Direito, Fórum e Cidade da Criança, algo como seis do Maracanãs.


Melancólico — Sonhos à parte, a devolução dos pavilhões dá um fim melancólico a um projeto que, desde o início, foi golpeado por infortúnios. Lançada em 1997, a Nova Vera Cruz previa ressuscitar a Hollywood brasileira que funcionou de 1949 a 1954 a partir de parceria entre Secretaria de Estado da Cultura, Fundação Padre Anchieta e Prefeitura de São Bernardo. Previa-se erguer ali um supercentro produtor de cinema e TV, além de um complexo cultural com teatro, museu, cinema com 200 lugares e escola para formar mão-de-obra especializada. Seis anos e R$ 5 milhões depois, os dois estúdios maiores continuam à espera de intervenções e o centro cultural está pichado e com obras paradas.

Uma dança de números e o total desinteresse da iniciativa privada assombraram o empreendimento, que recebeu críticas da própria Associação Paulista de Cineastas por ser grande demais para tão pouco cinema produzido no Brasil. Calculadas inicialmente em R$ 17 milhões, as obras físicas já estariam exigindo R$ 30 milhões, sem falar em outro tanto de recursos para equipar os estúdios. Só a Volkswagen entrou com R$ 500 mil, o que levou o governo do Estado a finalmente desistir da empreitada no mês passado, após liberar a conta-gotas os R$ 5 milhões que lhe cabiam. 

Para finalizar o centro cultural sob sua administração, a Prefeitura exigiu R$ 3,5 milhões do Santander/Banespa como contrapartida à licitação que venceu para gerir as contas públicas. Por ora, os estúdios voltam a sediar feiras.


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