Caro Ronan Maria Pinto. Tenho muitas observações a fazer sobre o jornal mais tradicional da região. O que vou escrever é preciso ser escrito, porque está nas estrelas da realidade escancarada.
E tudo parte de uma premissa técnica e social. O produto entregue ao consumo diário merece nota um numa escala de zero a dez.
Se cada edição saísse com outra marca, sem 65 anos de longevidade, seria pior ainda, mas essa constatação comporta paradoxo. O que protege, também obscurece.
Dezenove anos depois de comprar o jornal, então nota dois, a piora tem várias explicações. Mas há muitas oportunidades a explorar.
Antes de prosseguir com as razões só aparentemente subjetivas que me levam a lhe escrever, exponho lista de motivos que me obrigam a tomar essa decisão. É uma lista feita de supetão, sem anotação prévia. Uma lista de desperdícios, erros, disparates e tudo o mais da linha editorial do Diário do Grande ABC. Veja o que tenho. Depois, volto às razões de ter me decidido por esta Carta Aberta:
1. Divinização de prefeito amigo e satanização de prefeito rebelde.
2. Orquestração de pauta conforme receituário de retaliadores eleitorais.
3. Privilegiamento de candidaturas afinadas com o cardápio da casa.
4. Suporte ao esquartejamento institucional da regionalidade.
5. Omissão ante a derrocada econômica da região.
6. Sustentação de qualidade informativa improdutiva na matriz político-partidária que centraliza a publicação.
7. Inexistência de uma única editoria sequer que dê conta do recado de exigência dos leitores.
8. Inexistência de agentes sociais independentes como parceiros da jornada editorial.
9. Ausência de identidade editorial em dissonância com posicionamentos dos consumidores de informação.
10. Desprezo aos fatores que historicamente tornaram o empreendedorismo privado regional de pequeno porte vítima preferencial de descalabros públicos, sindicais e concorrenciais.
11. Tratamento desigual em situações iguais ou semelhantes.
12. Excesso de uso em estado bruto ou temperado de material redacional originário de assessorias de Imprensa do Poder Executivo.
13. Mudança de rota editorial de acordo com fatores estranhos ao conceito de jornalismo independente.
14. Triunfalismo e negacionismo de ocasião como falsas pontes de empoderamento regional.
15. Insistência em manter a região distante de ambiente econômico e sociais da Região Metropolitana de São Paulo e de outras geografias.
16. Insistência em agir no campo editorial político como ferramenta de liderança, apoio ou relutância a instâncias oficiais de poder.
17. Promessa não cumprida de constituir um Conselho Editorial que representaria segmentos da sociedade desorganizada.
18. Insistência em propagar a falsa existência de sociedade civil organizada na região.
19. Completo distanciamento crítico de instâncias privadas e públicas desobedientes a pressupostos estatutários.
20. Alheamento quase total à movimentação de peças manipuladoras mais que conhecidas do mercado imobiliário.
LENTES ESCURAS
Não é preciso exercício coreográfico para explicar a contradição embutida na dualidade no ventre do Diário do Grande ABC que, ao mesmo tempo em que transforma a existência de 65 anos de circulação em salvo conduto à degringolada que começou há muito tempo, também exerce poder deletério de impedir que se observe atentamente essa mesma degringolada.
Ou seja: a tradição do Diário do Grande ABC é espécie de lentes escuras que, na praia de sol abundante, protege os olhos, mas, quando transposta ao uso em ambiente fechado, cerceia a visão e com isso agrava o que poderia ser detectado.
O Diário do Grande ABC parece dominado pelo olhar de lentes escuras na praia enquanto um terremoto o impacta e o enfraquece continuamente.
Esse seria o ponto crucial a qualquer reação pretensamente transformadora. O Diário do Grande ABC piorou desde 2004. Estou à vontade nessa abordagem. Aquele Diário do Grande ABC de 2004 me foi muito íntimo, pedagógico e desafiador como diretor de Redação.
DE CAMAROTE
O que parecia impossível, porque o Diário do Grande ABC daquela temporada era uma coleção de fragilidades, superou todas as piores expectativas.
Não há dúvida, portanto, de que se há alguém que pode, de camarote, fazer essa comparação sem meias palavras é este jornalista. Como se sabe, fui chamado a dirigir a Redação naquela oportunidade, fiz o que tinha de ser feito visando ao futuro (escreveremos sobre isso no momento adequado) e 11 meses depois, como se sabe, deu-se um cavalo de pau naquele ensaio de mudanças. O resto da história é o que está agora exposto.
É certo que as duas décadas passadas que desembocam neste 2023 são os piores anos do ABC Paulista, outrora Grande ABC, mas não há como descolar estes tempos das duas últimas décadas do século anterior, a partir, portanto, dos anos 1980.
O Diário do Grande ABC que você adquiriu já não andava bem das pernas editoriais (não pretendo escrever sobre outros aspectos) entre outras razões devido à derrocada econômica regional e também ao processo histórico que atinge empresas de maneira geral, de sucesso e fracasso no decorrer do tempo.
TEMPO IMPLACÁVEL
O empobrecimento da sociedade regional, constatado em vários estudos que destrincho constantemente, não foi assimilado pela direção do Diário do Grande ABC no passado que passou antes de você adquirir a publicação e tampouco depois, no período em que você exerceu e exerce o poder presidencial.
O Diário do Grande ABC – e aí voltamos ao dualismo – imaginou-se indestrutível por força da tradição e não se deu conta de que a finitude é da natureza humana e também da natureza empreendedora.
Não faltam marcas famosas que se foram ou estão aí, moribundas, à espera de esquife.
Entretanto, por mais que o ambiente regional e a macroeconomia, quando não a macrocultura, a macrotecnologia e tudo o mais sejam hostis ao jornalismo diário de papel, o Diário do Grande ABC tem potencial imenso a explorar. Não o faz, todavia, nem no papel nem no digital.
MERCADO INSTÁVEL
São três milhões de habitantes e pelo menos 20% como público-alvo, ou seja, a classe rica e a classe média tradicional cada vez mais entregues a mídias antagônicas à regionalidade.
A nota um que atribuo ao jornal numa escala de zero a dez não lembra aqueles malvados jurados de programas de calouro que fizeram fama na base da rabugice.
Quem não se lembra de José Fernandes? Também seria uma estupidez partir para o oposto, de jurados e juradas que esbanjavam notas altas. Quem não se lembra de Márcia de Windsor?
O Diário do Grande ABC de nota um numa escala de zero a dez é o que está nas ruas todos os dias e o Diário do Grande ABC de nota cinco de zero a dez deveria estar nas ruas todos os dias.
Apenas como base de comparação, atribuo à Folha de S. Paulo e ao Estadão (Consórcio de Imprensa à parte) a nota média de sete, também numa escala de zero a dez. Nota média não significa que todas as editorias tenham notas positivas. Em termos de Editoria de Política, Folha e Estadão honram a condenação explícita de Velha Imprensa.
JORNAL E PADARIA
O cronograma que organizei em 2004 para o Diário do Grande ABC, e que serviu de base para assumir a direção do jornal então recém-adquirido por você, estabelecia prazo mínimo de cinco anos para dar um salto razoável em qualidade.
Se a memória não fracassar, parece que estabeleci nesse prazo a possibilidade de chegar à nota cinco.
Costumava dizer no dia a dia da Redação do Diário do Grande ABC durante os 16 anos em que ocupei todos os cargos possíveis que fazer jornal não é a mesma coisa que fazer pão.
Ou seja: uma empresa de comunicação não é uma padaria. A frase humanizava a profissão. Um padeiro, por mais nobre que seja a profissão, supera todas as dificuldades para entregar a próxima fornada no horário estipulado.
Um jornalista febril, depressivo, agitado demais, com problemas familiares, essas coisas de seres humanos, é um desfalque na linha de produção. O que um ofício contém majoritariamente de mecanicidade o outro cobra de cognitismo desperto, sincronizado, lúcido.
MAIS RESPONSABILIDADE
É claro que estou simplificando para não complicar. Um jornalista que não tenha a conscientização do papel que exerce na sociedade, que não sente o pulso das ruas, que não filtra os interesses nem sempre detectáveis, que não identifique uma maledicência plantada, esse jornalista perderá o prumo da legitimidade funcional.
O dono de um jornal do porte do Diário do Grande ABC também. Ou muito mais, porque, supostamente, teria a palavra final. Um erro, claro, porque quem entende de jornalismo não deve se submeter a quem entende de transporte privado.
O Diário do Grande ABC destes quase 20 anos pós apresentação e início da execução do Planejamento Estratégico Editorial que entreguei ao assumir o cargo em julho de 2004 é um Diário piorado.
A nota dois saiu de campo e deu lugar à nota um, mas a diferença aparentemente ínfima é muito grave.
TUDO ABANDONADO
Tudo aquilo, ou praticamente tudo aquilo que condensei em 100 mil caracteres, depois de passar um fim de semana de intenso trabalho no Interior para entregar uma peça-compromisso com o futuro, simplesmente foi ignorado ou rechaçado.
Considerando-se aquele contexto jornalístico, econômico, social e tecnológico, as duas décadas desperdiçadas custam muito caro porque nova demanda restauradora elevaria o grau de eficiência temporal.
O que se pretendia fazer uma escala inicial de cinco anos talvez exija o dobro agora.
Esta primeira parte da Carta Aberta ao Dono do Diário do Grande ABC é apenas uma breve e abrangente exposição crítica sem qualquer preocupação com detalhismos.
As injunções implícitas nessa iniciativa vão ser apresentadas com vagar. E vão avançar na medida do necessário para sedimentar a avaliação de que o Diário do Grande ABC é um produto de péssima qualidade editorial servido à população do ABC Paulista.
Isso mesmo: um jornal diário de péssima qualidade diária. Tanto que chegou ao ponto inacreditável de que, mesmo retroalimentado pela tradição que impermeabiliza o estágio devastador diante do senso crítico dos leitores, não escapa de comparação cruel: em termos de jornalismo diário, fastfoodiano como sempre, perde feio para o jornal digital Repórter Diário, detentor de infinitas desvantagens comparativas.
Não descerei a minúcias do estágio em que se encontra o Diário do Grande ABC, mas farei um mergulho de profundidade suficiente para retirar qualquer tentativa de que o que constará desta breve série tenha outra finalidade senão constituir uma linha de interseção entre o jornal e a sociedade desorganizada da região.
Ronan Maria Pinto é dono do Diário do Grande ABC e de outros negócios. Os outros negócios não me interessam. O negócio do jornalismo é outra coisa. Tem imbricamento compulsório com responsabilidade social. Compulsório, explicito e obrigatório. É por conta dessas três dimensões que o Diário do Grande ABC deve ser escrutinado.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)