O Diário do Grande ABC fez estardalhaço com a contratação de um repórter especializado em varejismo político e com um especialista em digitalização que vai tentar fazer a mágica de converter em insumos de Internet o que existe em raras porções diárias de materialidade editorial extraordinária.
É lógico que a equação não vai funcionar para quem exige mais e mais qualidade do jornalismo impresso diário mesmo quando esse jornalismo impresso diário ganha a forma digital que, mais que o presente, é um contrato de longa vida com o futuro.
Não se deve exigir do dono do Diário do Grande ABC mais do que um aprendiz de jornalismo poderia oferecer.
Ronan Maria Pinto não tem obrigação alguma de entender de jornalismo, como meu pai também não tinha. A diferença é que meu pai, sábio em tantas coisas, jamais se meteu a ser dono de jornal.
ACERTO PROVISÓRIO
O que se esperava de Ronan Maria Pinto quando comprou as ações do Diário do Grande ABC era que entregasse a quem entendesse do riscado a função de potencializar um produto já então abaixo da capacidade de absorção do mercado regional mesmo em decadência.
Sem falsa modéstia, Ronan Maria Pinto acertou em cheio ao contratar quem contratou, mas a jornada não durou mais de 11 meses, ao fim da qual além de quem ele contratou também perdeu num curto prazo quem o profissional contratado de então depurou como massa de capital humano capaz de reorganizar a linha editorial do jornal.
Nem que o contratado às operações digitais seja um Messi da área, nem que o repórter de política faça milagres de cantar as bolas que poderiam ser cantadas, nada disso oferece a mínima garantia de que o Diário do Grande ABC vai melhorar de desempenho.
MUITO DISTANTE
O que Ronan Maria Pinto ainda não sacou ou se sacou não tem condições de aplicar e se não tem condições de aplicar precisaria parar de dourar a pílula com essas e eventuais algumas novas contratações é que o Diário do Grande ABC está a léguas de distância não só do potencial mercadológico da região como a uma distância estratosférica da embocadura como produto editorial que a classe média exige.
A frase aí em cima pode ter ficado extensa demais, mas uma das maneiras de procurar escrever de forma suficientemente capacitada à compreensão geral é que em determinadas situações explicativas não se vive apenas de frases curtas ou de média extensão. Se optasse por dar fôlego com pontuação no trecho acima certamente a entonação perderia o empuxo pretendido.
Escrevi deliberadamente sobre o estilo que adotei no trecho aí em cima para dizer que jamais Ronan Maria Pinto e tantos outros donos de jornal saberiam distinguir estilisticamente um texto – e tampouco teriam outras habilidades do jornalismo profissional. Não é a praia deles.
Da mesma forma, passaria vexame se tentasse, sem treinamento adequado, entender de transporte coletivo.
Uma coisa, aliás, garanto, porque já disse pessoalmente no passado, quando fui informado, à frente da redação do Diário do Grande ABC, de que se pretendia comparar jornalismo com transporte coletivo.
FORMAÇÃO DEMORADA
Sem desonra alguma aos motoristas e cobradores de ônibus, que trabalham feito loucos para ganhar uma merreca e ainda correm riscos extremos, um bom profissional na área se faz em pouco tempo, com treinamento adequado, enquanto no jornalismo, se o profissional for dedicado, atento, minucioso, estará mais ou menos preparado após 10 anos. Com 20 anos de experiência já poderá se considerar acima da média geral. E depois disso é um abraço. Desde, claro, qu encare cada dia de trabalho como o primeiro da vida.
Não me importo com julgamentos apressados ou ignorantes no sentido lato do termo sobre a possibilidade de me entenderem mal no que acabei de escrever, mas é isso mesmo que penso e que qualquer profissional experiente sabe do que se trata.
A arte de escrever não importa o estilo que se adote supera tecnicalidades específicas. Invade outras áreas, entre as quais a personalidade pessoal, o irrefreável desejo de aprender mais a cada dia, o estado emocional, as relações humanas no entorno.
PASSADO E PRESENTE
Enfim, escrever é uma atividade que vai muito além do formalismo e da receptividade de algumas outras profissões. Não há inteligência digital que consiga substituir o jornalismo que tenha resistido à comoditização. Máquinas não têm sentimentos, cognições e outros apetrechos.
Cheguei a esse ponto para tentar passar aos leitores a diferença que marca as páginas de um jornal que se pretende redefinidor da liderança perdida junto à sociedade e a política de contratações do Diário do Grande ABC.
Não existe saída fácil para o Diário do Grande ABC voltar a ser o que foi um dia, mesmo que esse um dia não tenha sito uma Brastemp em matéria de qualificação editorial.
O Diário viveu períodos de forte interação com os leitores mas também temporadas opacas. Os melhores momentos foram durante os anos em que contou com a liderança de redação de Alexandre Polesi, em meados dos anos 1990, quando o Fórum da Cidadania saltou para a ribalta da sociedade.
BONS PROFISSIONAIS
Não que o Diário do Grande ABC tenha lidado naquele período com ações memoráveis no atendimento às demandas de uma sociedade então mais suscetível a reformismos. Houve falhas e uma linguagem ainda provinciana de tentar esconder a desindustrialização, mas os pontos positivos foram enormemente maiores.
Também nos anos 1970 e nos anos 1980 o Diário do Grande ABC trilhou caminhos interessantes.
No conjunto da história, a Redação do Diário do Grande ABC, salvo exceções de invasores que pouco conheciam as entranhas da região, notabilizou-se por contar sempre e sempre com profissionais ávidos por aprendizado, férteis em experiência e intensamente dedicados ao ofício.
Aliás, talvez a classe médica tenha algo semelhante à classe jornalística com quem convivi durante muitos anos de redação: amamos o que fazemos, não medimos esforços e jamais fomos mercantilistas.
Diria mais: ganhamos regularmente muito menos do que qualquer outro profissional de áreas menos importantes do ponto de vista social.
PASSADO PEDAGÓGICO
Dito tudo isso o que tenho a acrescentar nesta terceira parte de Carta Aberta a Ronan Maria Pinto é que ele deveria deixar de se enganar. Contratar profissionais sem plano de voo para saber exatamente onde o Diário do Grande ABC pretende chegar, saindo do brejo editorial em que se encontra, não é a medida mais apropriada e inteligente.
Em última instância, até mesmo o Planejamento Estratégico Editorial que preparei e apliquei entre 2004 e 2005 serviria de balizamento a incursões que poderiam restaurar as forças do Diário do Grande ABC.
Uma solução que nem poderia ser classificada como quebra-galho. Os principais conceitos às medidas que clamam por intervenção estão lá. E muitas das quais aplico desde sempre nesta revista digital, como o fiz, aliás, na versão impressa que durou 18 anos no formato da revista de papel LivreMercado.
VAREJISMO DEMAIS
Contratar um profissional de digitalização pressupõe a quem tem garrafa para vender que a tarefa é apenas tecnológica, de adequação do conteúdo impresso à versão digital. Não é bem assim.
A versão de papel que está aquém das demandas por conhecimento real apenas ganhará maior visibilidade e reprovação.
O jornal é uma produção varejista, sem aprofundamento algum nas abordagens mais relevantes de temáticas da região. E segue preso a interventores disfarçados de entrevistados. Mas sobre isso escreverei no momento adequado desta série.
Seria o pior dos jornalistas e um ombudsman que mereceria um trocadilho infame se ao analisar o Diário do Grande ABC praticamente 20 anos depois de ser colocado para fora da publicação (e em seguida foram quase todos daquela equipe maravilhosamente produtiva e decidida a vestir a camisa da publicação) caso omitisse o conhecimento agregado que os anos de labuta me permitem expor.
MINHAS CACHORRAS
Se há duas coisas que não me enganam no dia a dia destes dias de reflexão intensa a que me submeto por causa do tempo que passa na catinga da fumaça é decifrar os desejos de minhas cachorras e as páginas do Diário do Grande ABC.
Garanto que é muito mais fácil a segunda tarefa, embora a primeira também seja constante diplomação de sensibilidade.
Minhas cachorras são tão previsíveis quanto as páginas do Diário do Grande ABC.
A comparação é nobre porque tenho paixão intensa pelas cachorras e uma preocupação gigantesca por conta das influências que o jornal ainda provoca, sobretudo porque está no piloto automático da tradição, mecanismo que impede muitos leitores de enxergarem a realidade das linhas e principalmente das entrelinhas.
PÉSSIMO EXEMPLO
Portanto, o dono do Diário do Grande ABC não engana ao anunciar a este assinante, jornalista e ombudsman da região, que duas ou mais andorinhas vão fazer o verão da reestruturação tão aguardada. Bobagem.
O buraco editorial do Diário do Grande ABC é muito mais embaixo e preocupante. Uma prova provada disso é a reportagem publicada ontem com um deputado estadual (Luiz Fernando Teixeira, do PT), pré-candidato à Prefeitura de São Bernardo.
Jornalismo moderno e responsável permite que o entrevistado diga o que quiser, se quiser, mas não pode deixar pontas soltas em forma de mentiras, enganação e falsidades.
Não é a primeira nem a última vez que o jornal apadrinha declarações estapafúrdias do homem que quer ser prefeito da maior cidade do ABC Paulista utilizando-se de mentiras ou desconhecimentos desabonadores. Deputados têm imunidade para tudo, menos às críticas. Até que a democradura prevaleça, claro.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)