Imprensa

CARTA ABERTA AO DONO DO
DIÁRIO DO GRANDE ABC (15)

DANIEL LIMA - 11/10/2023

Vou fazer uma sugestão que não pode ser interpretada como invasão de domicílio empresarial nesta que é uma nova edição dessa série que ainda tem muito fôlego. O que alimenta esse fôlego informativo e analítico é uma publicação tradicional que não pode ser considerada particular e tampouco um negócio exclusivamente mercantil.  

Que sugestão é essa, também em forma de proposta, de desabafo, de interesse regional e de tantas outras coisas?  

Que o empresário Ronan Maria Pinto abra mão do Diário do Grande ABC. Que faça um gesto de responsabilidade social e coloque o Diário do Grande ABC à venda.  

Sei que pode parecer deselegante e quem sabe mesmo atrevimento formular essa alternativa no interior estratégico que coloque o futuro da região num ponto menos preocupante do que o ritmo que vem de longe, mas é o mínimo que posso fazer quando se retira o jornal mais tradicional da região do ancoradouro de uma empresa privada e o transfere aos sacolejos públicos de um empreendimento de fundo sociológico em todas as ramificações possíveis. 

MOTIVOS NÃO FALTAM  

Sendo menos cavalheiro e também menos maneiroso, qualidades típicas de Ronan Maria Pinto como encantador de adversários e inebriador de amigos, diria sem firulas o seguinte: o Diário do Grande ABC a que tenho me dedicado com esta série é uma organização que tem como digitais de realidade um empreendimento voltado para o próprio umbigo de seu dono. Entenda-se umbigo como uma jurisdição metafórica que parece resumir perfeitamente a situação.  

Com a experiência de jornalismo que carrego e com a paixão por um regionalismo desrespeitado, quando não tripudiado, muitas vezes usurpado, não tenho dúvidas de que a venda do Diário do Grande ABC poderia revolucionar o cotidiano de adensamento crítico e cooperativo de uma região órfã de uma organização jornalística transformadora.  

Se os motivos que tenho elencado e destrinchado nesta série e, mais ainda, o que ainda tenho a expor, não são suficientes para o empresário Ronan Maria Pinto dar-se conta de que o problema que o miniaturiza como empreendedor é a irreversível incapacidade de decodificar jornalismo de verdade, se esses motivos não são suficientes, então que Ronan Maria Pinto entenda que, ao afirmar a todos que perde dinheiro com a manutenção do jornal, então que se livre do prejuízo. 

DE PROPÓSITO 

Sei que infringi receituários de como escrever de modo o mais simplificado possível na forma para que o conteúdo seja inteligível. No trecho anterior encompridei o parágrafo de propósito. Num só fôlego, desabafei o que tinha de desabafar.  

Sorte dos leitores que ainda mesclei uma frase e outra frase com pontuação. Se seguisse o estilo do novo ganhador do Nobel de Literatura, toda essa análise não teria um ponto final sequer.  

Não li o ganhador do Nobel nem pretendo ler diante dos ensaios que se fizeram para homenageá-lo. Prefiro frases mais curtas desde que enveredei pelo mundo digital e sinto na pele como leitor o quanto é melhor tem uma parada para descanso num piscar de olhos e retomar a leitura depois de um ponto que nem sempre é o final, porque o final, no caso dos meus textos, vai muito além da formalidade de cada análise. De fato, cada análise é um capítulo de regionalidade atemporal. É assim que penso e ajo.  

Fiz essa abordagem que de alguma forma interrompeu o foco desta análise como espécie de provocação. Tenho certeza de que Ronan Maria Pinto, ao ler aquele trecho tão encompridado, deve ter-se sentido cansado e poderia até mesmo ter pensado em abandonar a leitura.  

Não é o que lhe recomendaria. Nem Aos que restaram como dirigentes e colaboradores do Diário do Grande ABC, endereço em que atuei durante 16 anos e no qual cheguei ao topo da hierarquia de Redação em dois períodos de influência mobilizadora do jornal.  

OUTRO UNIVERSO  

No fundo, com esse exemplo de rompimento estilístico, o que quero dizer de fato e de verdade é que dono de jornal que não aprecia leitura, mas muita leitura, mas muita leitura mesmo, não pode ser dono de jornal.  

No caso de Ronan Maria Pinto, o empreendimento que sempre o seduziu tem múltiplas rodas, pneus, um volante e muita gente acomodada e pronta para chegar ao destino, depois de passar pela catraca.  

Sei que não é politicamente correto escrever estas linhas. Parecerá desrespeito não só na finalidade da proposta que também é sugestão, mas também ao proprietário do Diário do Grande ABC. 

Está enganadíssimo quem pensa assim, porque pensa se olhando no espelho. Ronan Maria Pinto não é um empresário que alguma vez na vida acertará os ponteiros de competência como proprietário de jornal.  

PERFIL DOMINADOR  

O perfil de liderança a todo custo coloca Ronan Maria Pinto como condutor editorial do Diário do Grande ABC, embora negue. Conversa mole para boi dormir.  

Ronan Maria Pinto não é daqueles donos de alguma coisa que faz questão de se expor quando quer alguma coisa ou todas as coisas. Ronan Maria Pinto utiliza-se sempre de artifícios de quem tem paciência e determinação para chegar aonde pretende sem que pareça que está a manipular os cordéis.  

Ronan Maria Pinto faz tudo isso e muito mais com maestria de quem promove desgastes até que se sinta dono do pedaço. No caso do Diário do Grande ABC, do pedaço editorial, escrevo com conhecimento prático de causa de inviolabilidade operacional incômoda. 

Tive um pai empreendedor por natureza, algo como Ronan Maria Pinto é no sentido de sempre estar pronto a alguma nova empreitada. Por mais que sinta saudade de meu pai que já se foi e por mais que o idolatre como o personagem mais importante de minha vida, diria que meu pai teve muita sorte em não ser proprietário de um veículo de comunicação relativamente importante como o Diário do Grande ABC. Meu pai não escaparia das críticas como Ronan Maria Pinto não escapa. 

Jornalismo para quem está jornalista desde a juventude é algo sagrado, incalculavelmente abrangente em responsabilidade social, fruto de conhecimento teórico e prático.  

PERIODO COMPLEXO  

Ronan Maria Pinto não é comandante adequado ao Diário do Grande ABC num período tão prolongado de crises múltiplas na região. Mais que isso: Ronan Maria Pinto é um desastre à frente do Diário do Grande ABC como o foi na condução do Saged, o clube-empresa que emperrou a vida do Esporte Clube Santo André.  

Por melhor que seja um empreendedor, meter-se seara adentro em atividades que desconhece é o caminho mais curto ao fracasso. A diferença entre uma empresa privada convencional e um veículo de comunicação é que os estragos são muito mais severos e extensivos no tempo e na coletividade extra-corporação. Jornal não é padaria.  

A diferença entre o Ronan Maria Pinto do Santo André e do Ronan Maria Pinto do Diário do Grande ABC é que no clube ele chegou ao ápice de investimentos e entusiasmo a ponto de levar a equipe à Série A do Campeonato Brasileiro numa temporada. Mas largou o clube na lona da hierarquia do futebol brasileiro como integrante da Quinta Divisão.  

ENSAIO FRUSTRANTE  

O Diário do Grande ABC de Ronan Maria Pinto jamais passou de ensaio frustrante como empreendedor naquele período de 11 meses em que estive à frente da Redação e encontrei uma equipe de jornalistas motivadíssima para empreender vigorosa reviravolta. Mas logo Ronan Maria Pinto trocou as mãos do voluntarismo pelos pés do arbitrarismo e tudo desmilinguiu. 

O Diário do Grande ABC precisa sair do controle acionário de Ronan Maria Pinto ou Ronan Maria Pinto precisa dar uma reviravolta na sede de fazer o que não sabe e entregar para valer e sem qualquer interferência o controle editorial a quem entende do assunto. 

O formato do que seria o novo Diário do Grande ABC precisaria ser estudado detalhadamente. Do ponto de vista exclusivamente editorial, é uma barbada desenhar um produto que acorde a população mais crítica e também os nichos com potencial de criticidade. Do ponto de vista negocial, o esquadrinhamento deveria ser preparado por especialistas em transformar potencial de crescimento em crescimento para valer.  

CASE DE FRACASSO  

O Diário do Grande ABC é detentor do maior case de fracasso negocial (editorial sem dúvida alguma) numa região em que, apesar dos pesares, e, principalmente por força da tradição emuladora de convencimentos amplos, não consegue sair do atoleiro econômico-financeiro em que se meteu. 

Por mais que persista um caudal de adversidades ao empreendimento chamado jornalismo, com intensa quebra de publicações mundo afora, mas, ao mesmo tempo, com a metabolização de negócios da área que já registram resultados extraordinários, o Diário do Grande ABC é uma marca a despertar interesse como empreendimento.  

São várias as fórmulas alternativas e mesmo complementares que poderiam ser introduzidas numa proposta de venda do Diário do Grande ABC. E não vou mencioná-las ou aprofundá-las porque tenho fartos motivos para isso.  

O que sei e digo que sei porque sei e tenho obrigação de dizer que sei é que, ao Diário do Grande ABC sem Ronan Maria Pinto e com uma fórmula que associe para valer e sem semânticas desgastadas o interesse social como ponta de lança de transformações, não faltariam investidores.  

PASSIVOS ESTIMULANTES  

Insisto em não expor um plano de ação porque não seria o momento adequado, mas o resumo da ópera da oportunidade de um grande negócio de comunicação poderia ser contemplado da seguinte maneira: não se joga no lixo do descaso ou da incompetência, quando não de outras coisas menos nobres, um universo de três milhões de consumidores.  

Os passivos sociais, econômicos e culturais da região são exuberantes àqueles que fixarem olhares e propósitos na vacuidade de ocupação de terrenos a serem fertilizados a colheitas não muito demoradas.  

Há na região um produto com história consolidada, mas fracasso atual inconcebível prontíssimo para despertar a atenção de investidores sólidos e atualizados quanto à combinação mais que enriquecedora de qualidade editorial e recompensa financeira.  

O leitor não tem ideia do quanto me seguro nos ralos cabelos para não avançar o sinal tático e estratégico que poderia entregar de bandeja as medidas básicas para o Diário do Grande ABC, sob nova direção, engrenar uma nova etapa de comunicação social.  

São abundantes as oportunidades que se descortinam e que certamente atenderiam aos apelos de investidores num desenho lógico de seriedade e integridade.  

SÓ DERROTAS  

O resumo da ópera é que o Diário do Grande ABC adquirido há duas décadas por Ronan Maria Pinto não avançou um milímetro sob qualquer aspecto tendo-se como comparativo o período anterior, qualquer período decenal anterior, dos criadores do Diário do Grande ABC.  

O produto Diário do Grande ABC não caiu pelas tabelas econômicas e editoriais necessariamente porque foi levado de roldão pela tempestade da desindustrialização e das iniquidades sociais da região. É claro que esses fatores mais que esmiuçados por este jornalista afetaram a estabilidade da publicação, assim como novas tecnologias.  

Entretanto, porém e todavia, o Diário do Grande ABC desabou numa velocidade ainda mais impressionante do que a Economia da região. Um descalabro porque carregava a glória de soberano nos meios de comunicação da região, algo que se esvai a cada dia como fonte confiável de informação e, mais que isso, inexistente como formuladora de análises perscrutadoras.  

FUNDO DO POÇO  

Ronan Maria Pinto precisa vender as ações do Diário do Grande ABC porque o histórico de fracasso como empresário do setor já se esgotou. Mais que se esgotou: entrou num processo de desfalecimento generalizado a ponto de enveredar cada vez mais por caminhos tortuosos.  

Vivemos na região o pior período de cidadania minimamente orientada a procurar soluções em que a meritocracia supere as barreiras impostas. A crise é incontrolável a ponto de constante, naturalizar-se.  

A importância do Diário do Grande ABC como símbolo de uma regionalidade escassa, mas ainda alcançável, perdeu o viço. Os 20 anos de Ronan Maria Pinto à frente do jornal são duas décadas de musculatura cada vez mais flácida.  Necessitamos de outra coisa muito mais incisiva, transparente e motivadora.  

O Diário do Grande ABC flutua editorialmente entre a divinização de alguns e a demonização de outros porque não tem referenciais do que realmente importa para a sociedade.  

Arvorar-se o maior jornal regional do País é uma aberração propagandística, porque foge da verdade dos fatos.  

O Diário do Grande ABC não precisa nem deve ter como mote escravizador a insistência em bater o martelo incessante de maior jornal do País que há muito deixou de ser. Bastaria ser de fato um dos melhores jornais do País. E não o será com Ronan Maria Pinto. Nem com ele nem com o meu inesquecível pai, se vivo estivesse. É preciso ser do ramo.   



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