Imprensa

CARTA ABERTA AO DONO DO
DIARIO DO GRANDE ABC (18)

DANIEL LIMA - 06/11/2023

Peça importante no tabuleiro de regionalidade do Planejamento Estratégico Editorial que começara a alterar a rota de decadência do Diário do Grande ABC naquele começo de 2005, o Conselho Editorial que formulei e nominei para servir de suporte à longa jornada reformista foi para o beleleu com minha saída dois meses depois. O Conselho Editorial – com 101 integrantes -- tomou posse num Teatro Municipal de Santo André lotado. 

A administração do empresário de transporte urbano Ronan Maria Pinto, que se prolonga até agora sem que ele se dê conta de que vai de mal a pior, não teve a capacidade de sequer aproveitar o que deixei de herança. Nada surpreendente.  

O que deixei de herança significava compromisso com qualidade, com eficiência e sobretudo com transparência. Durante duas décadas essa foi a marca da revista de papel LivreMercado, portfólio profissional que me fez aceitar o convite de Ronan Maria Pinto a retornar ao Diário.  

Por essas e outras quando recentemente o Diário do Grande ABC, num dos delírios costumeiros de jactar importância e comprometimento social muito além da conta, decidiu se autointitular “porta-voz da região”, não me contive. E agora conto a implementação do Conselho Editorial para explicar a razão desse inconformismo. 

PELA AUXILIAR  

O fato é que o Diário do Grande não tem o direito de produzir uma fake news conceitual de que seja porta-voz da sociedade. Ser porta-voz da sociedade, mesmo se aquele Conselho Editorial fosse mantido e aperfeiçoado, não seria adequado à engrenagem editorial da publicação.  

O Conselho Editorial deveria ser sempre uma peça auxiliar, que jamais substituiria o controle filosófico, doutrinário, do Diário do Grande ABC, expresso naquele Planejamento. 

O Conselho Editorial que tomou posse em fevereiro de 2005, sete meses depois de chegar ao cargo de Diretor de Redação do Diário do Grande ABC, foi concebido com todo o cuidado a partir da inclusão no Planejamento Estratégico Editorial. A maioria dos indicados partiu deste jornalista, mas não o fiz isoladamente. Em várias situações busquei informações de terceiros.  

O que decidi em caráter arbitrário, porque indispensável, foi o desenho estrutural do Conselho Editorial. Sabia relativamente bem do que precisava para que o organismo funcionasse adequadamente numa estrutura de recomposição editorial coletiva do Diário do Grande ABC.  

O jornal, menos que hoje, mas já em situação debilitadíssima, precisava de intervenções editoriais vigorosas, todas já mencionadas e mesmo transpostas a esta série.  

BONDE ANDANDO  

Essa divisão do tempo entre o antes do Planejamento Estratégico Editorial e o depois do Planejamento Estratégico Editorial é importante para não centralizar exclusivamente em Ronan Maria Pinto a derrocada do jornal. Já vinha do passado e de forma continuada, com respiros de reoxigenação insustentável.  

Não havia a mínima possibilidade de procrastinar o futuro, até porque o futuro do Planejamento Estratégico Editorial foi definido como período de 60 meses, ou cinco anos.  

Não assumi o comando do Diário do Grande ABC para apagar o fogo do circo de horrores que encontrei, mas para refazer o desenho do circo, agora ano bom sentido, de modo que todos, ao fim do primeiro estágio reformista, de cinco anos, pudessem observar o futuro com mais entusiasmo. 

Antes de dar sequência ao aqui e agora dessa temática contemplada nesta série, sinto-me na obrigação de reproduzir integralmente o capítulo relativo à programada constituição do Conselho Editorial do Diário do Grande ABC naquele projeto de reformulação do produto que durou apenas nove meses. Acompanhem: 

VOLTA AO PASSADO 

Iremos substituir o Conselho do Leitor pelo Conselho Editorial. Não se trata de simples troca de nomenclatura. A mudança é muito mais substantiva, porque invade o terreno do conceito, da especificidade.   

O Conselho do Leitor é instância estranha no departamento-vitrine da empresa — o editorial — porque atinge diretamente quem está envolvido com o público e, consequentemente, com o produto final.   

A composição e as funções atribuídas aos conselheiros-leitores são uma anomalia porque agridem e impactam a corporação no que provavelmente deve oferecer como principal predicado: a autoestima acompanhada de senso de respeito.  

O Conselho do Leitor golpeia a autoestima porque os profissionais acabam avaliados publicamente por leigos no assunto. Por mais que eventualmente haja colaboradores do Conselho de Leitores que possam contribuir para a melhoria do jornal, a exposição de enunciados críticos da forma que se caracterizou — em espaço fixo nas edições de domingo — torna tão ansioso quanto receoso o quadro de colaboradores.  

As repercussões de intranquilidade e insegurança se refletem no produto final. Chuta-se ladeira abaixo uma bola-de-neve de impropriedades que abalam a unidade da equipe.  

Nada mais comprometedor para uma equipe do que se sentir permanentemente ameaçada por avaliações públicas formuladas por não-especialistas.   

A formalização do Conselho do Leitor nos termos atuais é, portanto, equívoco que será eliminado em sintonia com o encerramento do mandato dos atuais conselheiros.   

Entretanto, isto não quer dizer que a redação estará imune a avaliações internas e externas. Pelo contrário: estabeleceremos medidas cautelares que permitirão medições permanentes do conjunto da redação e também por editoria sem que a medida tenha qualquer conotação de desconfiança e de desautorização, quando não de subversão dos preceitos profissionais.  

Não podemos desconsiderar nessa decisão — aliás, é o ponto nevrálgico da questão — que o conteúdo editorial do Diário do Grande ABC, face as atribulações conhecidas de todos, encontra-se em momento decididamente complicado e, portanto, extremamente delicado.   

Não é de bom alvitre a adoção de qualquer instância avaliativa — principalmente por leigos — que exponha publicamente ou mesmo internamente os pecados da publicação. Estimula-se a insegurança individual e coletiva, caminho mais curto para a instabilidade emocional e técnica de profissionais que exigem dose diária de estímulo, combinada com senso crítico emanado de quem conhece o ritual da atividade.   

Ou seja: o Conselho do Leitor seria uma peça de carpintaria editorial aproveitável com adaptações que não convém ressaltar agora, mas num contexto diferenciado do atual.   

Não existe estrutura técnico-emocional para suportar o strip-tease a que são submetidos os jornalistas por leitores que, por mais boa-vontade e interesse que tenham, nem sempre conseguem retirar as peças com um mínimo de competência. O produto que vai às ruas precisa ser entendido de forma muito mais integrada do que simplesmente numa censura pública ao deslize ortográfico.  

Já a introdução do Conselho Editorial significará grande salto de qualidade do jornal rumo à comunidade.   

Diferentemente do Conselho do Leitor, que vive à caça de descuidos léxicos e analisa superficialmente os assuntos sobre os quais o jornal se dedica a levantar, o Conselho Editorial será integrado por profissionais residentes e atuantes na região. Serão especialistas em diversas áreas. Caberá a esses membros, juntamente com alguns jornalistas da equipe de redação, a tarefa de construir coletivamente um novo perfil de produção do jornal, absolutamente sintonizado com o macroplanejamento editorial.  

Caberá ao Conselho Editorial não a procura de escorregões da língua pátria, obrigação técnica de quem está na redação, mas a introdução de conhecimentos específicos na linha editorial do jornal.   

Os membros do Conselho Editorial que fazem parte da comunidade trarão experiências vividas para o interior do jornal, sempre em encontro coordenado pelo diretor editorial e pelos editores-chefes do Diário do Grande ABC e de LivreMercado.   

Especialistas em educação, marketing, urbanismo, transporte, segurança, meio ambiente, legislação, economia, entre tantas outras áreas, vão integrar-se à redação como cérebros complementares.   

Serão espécies de consultores a quem poderemos reservar, também, espaços editoriais como colunistas fixos ou eventuais.  

Formularemos um código específico de atuação dos membros do Conselho Editorial. Estabeleceremos algumas condições que darão ao organismo caráter de compromisso exclusivo, evidentemente sem remuneração, mas nem por isso excluído de eventuais programas de compartilhamento de marketing que trataremos de definir na sequência de nossos trabalhos.  

Haveremos de tornar o Conselho Editorial tão respeitado que suas repercussões em muito colaborarão para o fortalecimento editorial do jornal e o aperfeiçoamento da linha editorial da revista.   

Os integrantes do Conselho Editorial serão convidados pelo diretor de redação porque cada peça requisitada fará parte de uma engrenagem de complementaridade temática que não se esgotará nos conhecimentos individuais específicos. Avançará inexoravelmente em direção aos macropressupostos de reorganização da companhia na área editorial. 

VOLTA AO PRESENTE  

Também lanço mão nessa sequência de reportagem publicada no Diário do Grande ABC de 21 de novembro de 2004 e que trata do Conselho Editorial que estava em composição. Vamos, portanto, voltar um pouco mais ao passado porque ajuda a construir o raciocínio lógico dessa missão restauradora da realidade história do Diário do Grande ABC neste século. Vamos, portanto, a novembro de 2004: 

VOLTA AO PASSADO   

O Diário do Grande ABC começa a selecionar a partir desta semana os membros do Conselho Editorial. A instância integra o Planejamento Estratégico Editorial aplicado desde julho último e cuja primeira fase se estenderá até o cinquentenário do jornal, em 2008. Para o diretor de redação, Daniel Lima, a formação de um grupo de colaboradores, especialistas em diferentes áreas de atividades no Grande ABC, permitirá ao jornal elevar o grau de qualificação de informações e consolidará ainda mais o conceito de regionalidade no bojo da metropolização da qual fazem parte os sete municípios da região.  

O Conselho Editorial do Diário vai diferir de modelos conhecidos porque não será análogo à reserva exclusiva de postos aos próprios executivos e acionistas da empresa nem tampouco a representantes da comunidade definidos por critérios que reproduzam o perfil socioeconômico dos leitores.   

A novidade do Diário é que o Conselho Editorial será a multiplicação de conhecimentos de especialistas em diferentes atividades. Uma das condições para integrar o organismo é que os membros tenham efetivo enraizamento regional.  

A previsão é de cada conselheiro ter mandato de 12 meses a partir da posse, com possibilidade de renovação por período subsequente de tantos 12 meses quantos forem necessários.   

Um dos pontos que determinarão a renovação do mandato dos conselheiros é o grau de efetividade, entendido como a associação de assiduidade participativa e adensamento de conteúdo.   

A projeção é de que o Conselho Editorial vai se reunir a cada 30 dias. Um núcleo de pelo menos 10 temários que envolvam a regionalidade do Grande ABC em diferentes dimensões será priorizado numa primeira etapa de encontros com os conselheiros. “Nossa expectativa é de que poderemos transpor regularmente para as páginas do jornal, em última instância para abastecer a fome de informação dos leitores, uma variedade de artigos e informações de membros do Conselho Editorial. Além disso, os encontros mensais permitirão a socialização de questões essenciais para o desenvolvimento econômico e social do Grande ABC”, afirma Daniel Lima.   

Os membros do Conselho Editorial do Diário constarão oficialmente do expediente do jornal. Haverá espaço também para convidados cuja participação permitirá maior produtividade nos encontros mensais.   

Um exemplo é a possibilidade de um temário como o trecho sul do Rodoanel, potencialmente favorável à reestruturação industrial do Grande ABC, contar com especialista para debater com os membros do Conselho Editorial.   

A perspectiva traçada pelo Planejamento Estratégico Editorial do Diário incentivará a realização dos encontros mensais do Conselho Editorial como ampla janela para a inserção dos problemas metropolitanos que atingem diretamente os municípios da região. “A diversidade dos integrantes do Conselho Editorial será peça chave de um mosaico de integração regional e contribuirá grandemente para fazer emergir o senso de regionalidade que nos falta”, afirma o diretor de redação do Diário, autor de dois livros sobre o assunto, ‘Complexo de Gata Borralheira’ e ‘República Republiqueta’.   

A direção de redação do Diário acredita que o formato do Conselho Editorial revolucionará as relações do jornal com a comunidade, na medida em que tornará mais constante e profícuo o relacionamento do próprio quadro de jornalistas da publicação com os especialistas convidados e estes, por sua vez, finalmente encontrarão com regularidade um canal de expressão de conhecimentos.   

Preparado em março deste ano, e aplicado desde julho, o Planejamento Estratégico Editorial é um projeto inicialmente voltado para o cinquentenário, que o Diário comemorará em 2008. O processo está centralmente relacionado à prioridade de a publicação envolver-se fortemente com a comunidade tecnicamente mais expressiva em suas respectivas especialidades para disseminar conceitos de cooperativismo, regionalismo e metropolização.  

Pelo menos três dezenas de especialidades contarão com pelo menos um profissional nos quadros do Conselho Editorial. Atividades como ambientalismo, urbanismo, química, petroquímica, plástico, cosmético, judiciário, saúde, educação, esporte, legislativo, administração pública, carga tributária, entre outras, contarão com representantes.   

O Diário vai convidar para o Conselho Editorial vários membros do Conselho do Leitor, experiência de extroversão editorial que se encerrou em outubro último.   

VOLTA AO PRESENTE  

Volto ao aqui e agora para uma explicação que parece fazer-se necessária. A revista LivreMercado, antecessora deste CapitalSocial, integrara-se ao Diário do Grande ABC como fonte de cooperação por duas razões específicas: a publicação contava com 60% de ações de propriedade do Diário do Grande ABC desde abril de 1997, e a experiência de um Conselho Editorial se deu inicialmente naquela revista. 

Aliás, a inspiração de criar o Conselho Editorial do Diário do Grande ABC naquele projeto de quase 100 mil caracteres que balizou minha chegado no jornal teve LivreMercado como fonte inspiradora.  

A diferença que aplicaria à frente do Diário do Grande ABC é que iria mais fundo na colaboração dos conselheiros. Eles seriam introduzidos de forma mais ativa no cotidiano da publicação.  

Na revista LivreMercado, até porque circulava a cada 30 dias, em quase todo o processo os conselheiros atuaram fortemente como observadores e analistas dos cases do Prêmio Desempenho, a maior premiação já vista na região. Eles eram os guardiões da transparência e legitimidade das disputas em várias categorias – depois de a premiação ter sido concebida inicialmente apenas à área Econômica.  

A expansão temática foi tão intensa que culminou na criação do Prêmio Desempenho Madres Terezas e posteriormente Freis Galvão.   

Dono do Diário do Grande ABC e, mais que isso, árbitro exclusivo das definições editoriais mais importantes, porque os equívocos constantes jamais seriam cometidos por jornalistas de verdade, em setembro de 2020 (portanto há mais de três anos), Ronan Maria Pinto anunciou a ressurreição de algo genericamente chamado de Conselho Consultivo. Até agora ficou na promessa.  

Para que não haja dúvida alguma do que se anunciou e do que não se levou adiante, reproduzo os trechos mais importantes da análise que publiquei nessa revista digital em 16 de setembro de 2020 ao tratar do assunto. Vamos, de novo, voltar ao passado, agora mais recente:  

VOLTA AO PASSADO   

A direção do Diário do Grande ABC anunciou hoje com destaque de primeira página e também na página interna um futuro que já completou 16 anos de passado. Tomara que a nova etapa tenha desfecho que corrija a cronologia, embora as circunstâncias e os contextos sejam irrecuperáveis. Quase duas décadas de atraso não é atraso, é desperdício.   

O novo Diário do Grande ABC do futuro que virou passado foi iniciativa deste jornalista, então Diretor de Redação do jornal. Quem vai operar transformação editorial e de produto corporativo na medida do possível da empresa Diário do Grande ABC é o ex-reitor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marcos Bassi.   

Talvez o acadêmico tenha mais sorte, embora de jornalismo entenda quase nada. É um administrador de empresas e figurinha carimbada no ambiente político-partidário. Tanto que até outro dia estava cotado para formar a chapa de reeleição do prefeito José Auricchio Júnior, em São Caetano. E segue sendo cotado, agora como eventual candidato à sucessão caso Auricchio fique inelegível.   

Esses condimentos profissionais são mais apropriados aos negócios do jornalismo, que não podem ser dissociados de insumos jornalísticos. Espera-se que uma coisa tenha limites próprios em relação à outra.   

Um mestre em Administração de Empresas, como Bassi, tem tudo para chegar a um ponto de equilíbrio. Até porque ponto de equilíbrio é uma medida flexível. Depende de cada um estabelecer flexibilidades conceituais. Nesse ponto sou um estúpido. Não acho que informação e análises devam ganhar a companhia de condicionantes.   

Não há quem mais que este jornalista queira jornalismo mais contemporâneo e responsável a multiplicar o palco de responsabilidade social que a atividade representa. Se houvesse na imprensa da região preocupação cavalar a práticas de informação e análise que desconsiderem sobretudo os mandachuvas e mandachuvinhas, tudo seria diferente.  

 O Grande ABC não seria essa maria-mole econômica que se desconfigura a cada nova temporada e sempre retoma o formato original malemolente.   

(...) Marcos Bassi, em linhas gerais e resumidamente, está copiando parte do Plano Estratégico Editorial que preparei e apliquei parcialmente no Diário do Grande ABC há 15 anos. Não dei sequência porque a direção do jornal, então dividida acionariamente, preferiu mergulhar nas águas do imediatismo.  

Sabia que, se resistisse às intempéries do mundo da informação, o Diário do Grande ABC algum dia se socorreria daqueles pressupostos. Não deu outra. A diferença é que quem abraça pelo menos parte do projeto de 90 mil caracteres é um profissional não-jornalista. E muito tempo depois, de novos tempos, portanto. Do futuro que chegou. O fato de não ser jornalista não interdita a ação de Marcos Bassi. Pode até facilitar determinadas incursões. A alma de jornalista é intransferível a qualquer outra atividade. Adaptações soarão sempre como improvisações.   

Ainda recentemente (e o professor Bassi parece que consumiu o material com avidez, porque copiou parte) reproduzi mais de meia centena de textos publicados internamente, em forma de newsletter, durante aquele período de nove meses em que estive Diretor de Redação. Contei a cada semana, durante nove meses, o que se passava na redação do Diário do Grande ABC. Uma preciosidade que ajuda a entender o passado e o presente do jornal.   

(...) O novo superintendente do Diário do Grande ABC anunciou hoje que pretende criar Conselho Consultivo da publicação. Na verdade, Marcos Bassi não vai criar um novo Conselho Consultivo. Quinze anos atrás criei o Conselho Editorial do Diário do Grande ABC, que é quase a mesma coisa. Embora tenha apenas divulgado a iniciativa, creio que o que Marcos Bassi pretende mesmo tem forte relação com o que expus no Plano Estratégico Editorial. Qualquer derivação substantiva seria imensa frustração. Prefiro ser copiado como jornalista do que ser enganado como assinante do jornal.   Leiam alguns trechos da reportagem do Diário do Grande ABC:  

(...) Uma das primeiras medidas de Marcos Bassi como diretor superintendente do Diário é instituir um conselho consultivo, com integrantes do jornal e da sociedade civil do Grande ABC, com objetivo de discutir o papel da empresa na região. “Esse modelo foi adotado na USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e avalio que será bem aplicado no Diário. É trazer a sociedade para dentro do jornal, com sugestões, com seu olhar sobre o caminho que o Diário precisa tomar. É agregar mais gente para que o Grande ABC, hoje sub-representado, possa ter cada vez mais força”, considerou Bassi. 

A falta de representatividade do Grande ABC nas mais variadas esferas de poder é assunto recorrente nas páginas do Diário, defensor da união de esforços para ampliação de espaços de figuras locais em cargos destacados no Estado e no Brasil. Apesar de ser o quarto maior PIB (Produto Interno Bruto) do País, com geração de riqueza na ordem de R$ 118,6 bilhões em 2019, e 2,8 milhões de habitantes, a região conta com apenas seis de 94 deputados estaduais e dois dos 70 parlamentares federais paulistas. Não possui nenhum integrante no primeiro escalão na gestão do governador João Doria (PSDB) nem ministro no governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 

A criação do conselho consultivo permeou algumas reuniões de Bassi com o empresário Ronan Maria Pinto, que de pronto concordou com a sugestão, avaliando ser necessário amplificar a voz, dentro do Diário, de figuras que conheçam e queiram o bem do Grande ABC. “Às vezes as mudanças trazem incertezas. Mas eu não tenho dúvida que essa mudança, para o Diário, é uma certeza. O Diário só vai crescer.” 

Bassi argumentou que adotará trabalho descentralizado, com cogestão, em que todos os pensamentos sejam convertidos para a expansão do Diário. “Queremos adotar aqui um modelo de governança colaborativa, algo que falta nos organismos regionais que temos atualmente. É preciso trabalhar no sentido de unir esforços, de buscar os investimentos de forma conjunta, não disputá-los no tapa, porque, desse modo, todos perdemos.” 

Antes de aceitar o convite para ser diretor superintendente do Diário, Bassi estava à frente da equipe que confecciona o plano de governo do prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior (PSDB), candidato à reeleição. O trabalho junto ao tucano está praticamente finalizado, faltando detalhes, como revisão e apontamentos do prefeito, sobre o documento. Passada essa etapa, Bassi se desvincula da campanha para atuar exclusivamente no jornal.   

VOLTA AO PRESENTE 

Estou de volta ao aqui e agora de novo. É importante que o leitor não perca essa ordem cronológica. Estou alternando passado e presente, presente e passado, para manter a autenticidade dos fatos. 

Uma nova leitura da reportagem do Diário do Grande ABC com seu executivo Bassi, não deixa dúvida sobre as intenções do jornal. Que viraram pó.  

Dois dias depois de analisar a reportagem do Diário do Grande ABC sobre a criação do Conselho Consultivo que jamais se efetivou, voltei a comentar o assunto. Voltemos ao passado, na edição de 23 de setembro: 

VOLTA AO PASSADO   

Tenho sérias dúvidas sobre o modelo que será apresentado, mas não custa ter expectativa razoavelmente positiva. Como será o Conselho Consultivo do Diário do Grande ABC que o diretor-superintendente Marco Bassi pretende anunciar e botar para funcionar? Entre as muitas dúvidas que tenho é saber se o Conselho Consultivo será do Diário ou da Sociedade. Se for do Diário, é melhor não ter. Pelo menos em se tratando de envolvimento no produto editorial.   

(...). Se ficar a cargo de Marco Bassi, apenas a cargo de Marco Bassi, como ficou sob minha decisão o Conselho Editorial que deixei pronto e já atuante no Diário do Grande ABC em 2005, o resultado será ruim.   

Marco Bassi não é um profissional de comunicação. Não tem a menor ideia do que seja jornalismo diário. Precisa, portanto, ter a humildade de ouvir quem está no front da Redação do Diário do Grande ABC. E eventualmente outros agentes da área. Não é o meu caso, porque não preciso ser ouvido. Basta, se quiser, ler o que escrevo. E o que já escrevi.   

A diferença entre um Conselho Consultivo do Diário e um Conselho Consultivo da Sociedade é que o primeiro enxergaria um quarto escuro pelo buraco da fechadura de exclusivismos e corporativismos, quando não outros ismos. O Conselho Consultivo da Sociedade escancararia um portal de informações e vivências que contribuiriam imensamente a mudanças na linha editorial e no ambiente regional.   

Resta saber, nesse primeiro ponto, se a definição por um Conselho Consultivo da Sociedade será peça de carpintaria da cidadania para valer ou um jogo de cartas marcadas, para dar aparência de democracia controlada a algo que não passaria de embuste de marketing.   

Traço a diferença entre uma coisa e outra. O que chamo de “democracia controlada” não é outra coisa senão o Conselho Consultivo formado por especialistas em diversas áreas e setores (como o Conselho Editorial que deixei para o Diário e os conselhos consultivos e editoriais que criei na revista LivreMercado a partir de 1994).   

Mas não é somente isso. A “controlada” designativo de “democracia” significa que o comandante da tropa precisa ter um olhar para o conjunto da obra editorial do jornal que, por sua vez, estaria amarrado a um planejamento estratégico. Foi o que ancorou todos os conselhos consultivos e editoriais que criei. Sem isso, teremos um Exército de Brancaleone institucional.   

O que chamo de “embuste de marketing” é o fingimento programado de um jogo de faz-de-contas em que conselheiros consultivos seriam frutos de um plano que desconsideraria vetores essenciais e se fixaria em articulações institucionais que, como se sabe, tratarão tudo com o sentido implícito de parecer reformista, mas de fato se cristalizaria como mais um curral de decisões viciadas.  

O novo executivo do Diário do Grande ABC precisa me convencer como jornalista (mesmo que essa missão não lhe diga absolutamente nada, porque sou um regionalista idiota) de que está no mercado de informações para valer, com compromisso social -- ou seria mais uma peça de uma engrenagem depauperadora que já dura décadas de um ambiente de falsificações institucionais.    

Traduzindo tudo isso, o que quero dizer, e agora de forma transparente, pouco refinada, mas com o mesmo sentido de compromisso social que o jornalismo impõe, é o seguinte: Marcos Bassi será apenas um vértice de um jogo de cena de mudanças que não mudariam nada ou vai entrar para valer na tempestade de empobrecimento do Grande ABC (em todos os sentidos do termo) ao longo de décadas?  

Fosse o Diário do Grande ABC uma fábrica de panetone, de linguiça, de laticínios ou de macarrão, não dedicaria uma linha sequer ao anúncio de que pretenderia compor um conselho de consumidores. Como o Diário do Grande ABC e todos os veículos de comunicação têm o quinhão de imbricamento social inerente à atividade, a formação de um grupamento de consumidores de informação é assunto que transcende as entranhas internas da empresa.   

Espero que esse preceito que vem do passado e se fortalece numa sociedade cada vez mais participativa em retórica, embora desorganizada e polarizada, seja levado a campo de jogo. Sofreria um grande baque se houvesse um rebaixamento nas expectativas que já precifiquei. E olhem que as expectativas que já precifiquei são de um valor mais que comedido, porque gato escaldado de conteúdos glorificados tem medo de água fria de anúncios reformistas.  

Não acho, sinceramente, que Marcos Bassi tenha sintonia fina com os preceitos do jornalismo. Seria um fenômeno profissional se, acadêmico voltado à academia (com perdão da redundância) e também para a político-partidária, contabilizasse entre requisitos reverenciados uma porção expressiva de intimidade com a prática da comunicação social.  

Da mesma forma (até para não dizerem que estou cometendo crime de presunção), certamente estaria inabilitado, este jornalista, a assumir uma reitoria universitária. São mundos diferentes. Mais diferentes do que imaginam os pobres mortais.   

Os leitores não têm ideia do quanto já escrevi ao longo da vida profissional sobre conselhos editoriais e conselhos consultivos que, no fundo, são a mesma coisa. Quando determinado noticiário parece ser uma novidade aos leitores, abasteço o tambor de minha pistola editorial para lembrar que, por força do ofício que abracei a longa data, não há como não ter metido a colher de chá no temário aparentemente inédito. Só de Conselho Editorial, de forma substantiva ou acessória, há nesta revista digital nada menos que 177 textos. Já “Conselho Consultivo” conta com 159 registros.  

Agora, respondendo mais diretamente ao enunciado da manchetíssima acima, sobre a possibilidade de o Conselho Consultivo do Diário do Grande ABC tornar-se ponto de inflexão (de regionalismo), o que posso antecipar é que se fizer tudo certinho, obedecendo aos rigores de uma democracia controlada, sem maiores equívocos na composição do quadro, Marco Bassi terá dado um passo em direção não à confirmação de que o jornal é a alma do Grande ABC, como anunciou na semana passada.   

O professor poderia, sim, contribuir imensamente para começar a colocar as peças de uma regionalidade nos devidos lugares. Mais que isso: ajudaria também no descarte de elementos estranhos aos conceitos de integração regional. Gente de quinta categoria que ocupa cargos supostamente importantes no Poder Público, na livre-iniciativa e em entidades sociais.   

Essa gente, professor, precisa ser retirada do tabuleiro de estorvos que bloqueiam todas as tentativas de dinamitar o provincianismo que nos estiola.  

A missão do professor é formar um Conselho Consultivo que além de seletivo nas escolhas, seja dinamitador nas não-escolhas.   



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