Exceto quando contava com estreito interesse comercial, ou seja, quando a matéria jornalística estava vinculada ao Departamento de Publicidade, o Diário do Grande ABC raramente adotou política editorial de atenção institucional ao empreendedorismo privado.
Os nove meses que passei como diretor de Redação do jornal, entre 2004 e 2005, são um período de excepcionalidade nesse campo. A diretriz, principalmente vinculada aos pequenos negócios, constava do Planejamento Editorial Estratégica e foi aplicada.
Fora isso e alguns lapsos de tempo aleatórios, o Diário do Grande ABC não pautou ou pauta atenção a algo que pudesse ter alguma relação intestina com suposto direcionamento filosófico, por assim dizer, de valorizar o empreendedorismo regional.
Trocando em miúdos: o Diário do Grande ABC, ao longo da história da região e do jornalismo da região poucas vezes voltou atenção sistemática aos empreendedores privados.
PAUTA SINDICALISTA
O Diário do Grande ABC foi dominado de cabo a rabo por pautas sindicalistas no campo econômico. Não que os sindicalistas devessem ser discriminados. O lobby sindical sempre foi agressivo e competente.
A prova mais provada e insofismável de que não cometo heresia, ou, mais que isso, de que faço uma revelação que nem revelação pode ser dita, porque sempre foi muito expresso o controle da agenda econômica do Diário do Grande ABC pelo sindicalismo e pela política, a prova mais provada e insofismável, repito, foi a decisão de criar em 1990 uma publicação voltada à livre-iniciativa, a revista de papel LivreMercado, antecessora deste CapitalSocial.
Foi um sucesso tão retumbante que o Diário do Grande ABC comprou 60% das ações da Editora Livre Mercado em 1997. Aí começou uma história específica que não é pauta desta série. A aquisição significou tudo, menos a alienação da linha editorial ao Diário do Grande ABC. Só faltaria isso para expandir a estupidez.
MAIS QUE ECONOMIA
Só tive a iniciativa de criar a revista LivreMercado direcionada principalmente nos primeiros anos à livre-iniciativa, espraiando-se em seguida a todos os setores da sociedade, porque o Diário do Grande ABC desprezava voluntariamente ou não, mas desprezava, os empreendedores privados.
Um desprezo seletivo, porque sempre e sempre, e continua a ser, permissivo demais com entidades que supostamente representariam os empreendedores. São organizações, em larga escala, que atuam como linhas auxiliares dos prefeitos de plantão. E que não produzem massa crítica de informações e estudos que poderiam adensar o pensamento regional.
Havia um campo todo aberto e convidativo ao empreendimento editorial pelo qual optei. E vejam que quem escreve isso é um jornalista que jamais se meteu publicidade adentro, mantendo-se todo o tempo longe de negociações que implicassem em vínculo redacional em forma de contrapartidas ou não.
As contrapartidas do bom jornalismo passam pela coerência editorial que dispensa perseguições mas não temem ações de perdigueiros com causas a defender.
Não vejo problema algum em qualquer veículo de comunicação acertar os ponteiros com políticos interessados em ter visibilidade. O limite essencial é que os conceitos defendidos pelo veículo de comunicação, sobretudo no caso da regionalidade, não sejam usurpados e transformados em commodities. Mais que isso: que estejam vinculados diretamente à atuação da classe política, numa pauta pública que leve em conta o estágio econômico e social da comunidade.
CENTRALISMO POLÍTICO
Antes dessa experiência à frente de CapitalSocial/LivreMercado que já dura 34 anos, vivi situações que me fizeram enxergar o que o Diário do Grande ABC jamais enxergou e continua a não enxergar.
A obtusidade de ignorar a economia da região no sentido mais abrangente da expressão se deveu sempre ao centralismo no noticiário político-partidário e também no marketing sindical, no caso, sempre ostensivo e apoiado por profissionais de comunicação dentro das redações. Todos eles ou a maioria egressos de universidades manjedouras ideológicas.
O Diário do Grande ABC tem se comportado de forma até mesmo atentatória aos limites do bom jornalismo com escoamento permanente e confuso de disputas político-eleitorais com ampla ramificação especialmente nos paços municipais. No passado bem passado havia muito mais profissionalismo. Mesmo com eventuais vieses.
COTIDIANO SOFRÍVEL
Pautas contraproducentes, conflitivas, distorcidas e tudo o mais marcam o cotidiano do noticiário do Diário do Grande ABC. O que vale para um Paço Municipal é demonizado em outro. O Diário do Grande ABC destes tempos não é nem sombra do que fora no passado. As relações com o mundo politico perderam o viço. A engenhosidade do noticiário se esgarçou.
O que no passado aparentava independência, até por que o era em grau significativo, nestes tempos não passa de ópera-bufa. Intenções e práticas retaliatórias são flagrantes. Somente os idiotas não as observam.
O princípio à detecção do que é noticiário comprometido e o que é informação sólida e informação viciada é fácil de encontrar: uma leitura que não despreze a memória sempre será elucidativa. Não descartar a memória é manter sob guarda uma sequência do noticiário relativo a qualquer temática recorrente em cada edição do jornal.
LEITORES DESCUIDADOS
Os leitores em geral deveriam se preocupar mais com o que consomem no jornalismo de papel, entre tantos jornalismos e imitações disponíveis no mercado.
A maioria pensa que sabe ler ou ouvir, mas a maioria pouco sabe ler ou ouvir porque o consumo de informação não conta com o princípio básico do ceticismo. O Diário do Grande ABC e a Velha Impresa sempre contaram com essa espécie de imprudência memorial e perceptiva.
Traduzindo de forma direta e reta: mesmo no período mais extraordinário de crescimento econômico da região, quando nadava de braçadas em publicidade de empregos e de classificados, o Diário do Grande ABC sempre centralizou atenção no noticiário político-partidário como fonte principal de fortalecimento empresarial.
O manancial dos tempos de riqueza industrial da região era compulsório. Os anunciantes corriam atrás do jornal.
O ambiente era tão dominantemente político-administrativo na Redação do Diário do Grande ABC que havia inclusive, tendo diretor do jornal como membro atuante, uma chamada Frente Andreense. Era a ponta de lança político-partidária.
FRENTE DO ATRASO
Chamei aquele movimento de Frente Andreense do Atraso não porque fosse de direita, até porque sou conservador, mas sobremodo porque era espécie de clubinho fechado com finalidade de arrebatar o Poder Executivo e suas ramificações frondosas.
Quando decidi criar a revista LivreMercado, e esse ponto é fundamental à compreensão dessa análise, já somara experiência tanto no Diário do Grande ABC quanto na Agência Estado, canal de produção e distribuição de informações do jornal O Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde a centenas de publicações espalhadas pelo País.
Ao deixar o comando de operações da Redação do Diário do Grande ABC em dezembro de 1985 e antes de me mudar de mala e cuia para a Agência Estado em Santo André (antes, atuei durante uma década como freelancer daquela marca, especialmente na área esportiva) ainda somei uma temporada como editor de Economia do jornal.
EDITORIA DE ECONOMIA?
Atuar como editor de Economia num período curto foi suficiente para começar a compreender a dimensão do buraco negro do Diário do Grande ABC na atividade produtiva e contrastar o desinteresse frente aos privilégios sindicais.
De fato, Editoria de Economia, ou seja, o departamento de redação que deveria cuidar do setor produtivo da região, não passava de exagero. Havia, quando estava coordenador de Redação, apenas uma profissional naquele departamento. Quando assumi diretamente a editoria, por conta de minhas intervenções anteriores, a equipe de Economia somava seis profissionais.
Não custa nada um pouco de explicação: quando assumi a coordenação de Redação do Diário do Grande ABC no começo dos anos 1980, chamado que fui às pressas ao cargo depois de mais de uma década como Editor de Esportes, a Editoria de Economia se limitava a uma profissional, Malu Marcoccia. Ela trabalhava de sol a sol enquanto os sindicalistas em geral já reivindicavam não mais que 40 horas de jornada semanal. Esse lado escravo do jornalismo diário, em qualquer diário, ou nos diários mais sacrificados, poucos conhecem.
Uma das primeiras medidas que tomei ao assumir o controle operacional da Redação do Diário do Grande ABC no começo dos anos 1980 foi retirar a burrice locacional do repórter vinculado ao sindicalismo (veja só, sindicalismo, não Economia) da Editoria de SeteCidades, então conhecida como Geral, e deslocá-lo ao interior do organograma da solitária jornalista Malu Marcoccia.
AMBIENTE DESFAVORÁVEL
É importante o leitor não perder o fio da compreensão para que não seja eletrocutado pedagogicamente. E repito: ao assumir um posto-chave no Diário do Grande ABC não existia de fato uma Editoria de Economia. Quando deixei o Diário, em 1985, uma equipe de seis profissionais estava em atuação, mas não havia prioridade ao território regional, menos ainda aos pequenos negócios. Até porque, o ambiente não permitia tamanha evolução.
O tempo passou e o Diário do Grande ABC voltou a fragilizar a Editoria de Economia. A bem da verdade, não custa repetir que não havia no ambiente de redação nada que inspirasse a manutenção de gente preocupada com a Economia da região.
Primeiro porque a Economia da região nadava de braçadas. Segundo porque o sindicalismo lulista, que já vicejava, era a coqueluche geral. Numa região tão combativa entre capital e trabalho, seria demais esperar que uma redação formada por profissionais doutrinados pelo socialismo universitário daria atenção maior ao empreendedorismo privado.
QUEDA ANTECIPADA
Qualquer pauta relativa ao empreendedorismo na região era mal vista e de fato sempre foi mal vista no Diário do Grande ABC. Uma publicação com a cara do empreendedorismo privado na composição acionária e nos objetivos financeiros expressos nos balanços estava subordinada a políticas sindicalistas.
Esse é um ponto crucial que ajuda a explicar a derrocada do Diário do Grande ABC antes mesmo da chegada de novas tecnologias que alteraram completamente o rumo dos jornais de papel. Afinal, a degringolada econômica da região, vítima da desindustrialização, iniciou-se antes da chegada da Internet. A queda do Diário do Grande ABC, portanto, começou antes do desembarque do empresário de transportes Ronan Maria Pinto. O novo controlador do jornal só acelerou a depauperação geral.
O Diário do Grande ABC sempre foi reticente, para não dizer displicente, com qualquer coisa que cheirasse empreendedorismo privado. Ronan Maria Pinto pensa que tem um jornal à disposição de suas veleidades e de veleidades de terceiros, mas no campo econômico privado lhe sobrou um mico. O Diário não tem passado nem presente de defesa do empreendedorismo de pequenos negócios. Um ou outro período, repito, não rompe o roteiro de continuado de desdém.
SUCESSO TOTAL
Tanto é verdade que ao lançar LivreMercado não me surpreendi com o sucesso e com o crescimento contínuo a ponto de, em 1997, a publicação ser adquirida pelo Diário do Grande ABC. Um negócio que não impactou o tesouro Editorial, do qual não abri mão jamais. As análises eram a peça-chave do sucesso.
Até porque, se abrisse, como pretenderam, a publicação teria a história vilipendiada. Para ser breve: havia na cúpula do jornal uma ojeriza aos textos de LivreMercado que comprovavam a desindustrialização da região, entre outras deficiências regionais. A idiotice de sufocar a verdade do empobrecimento regional seria uma suposta prova de compromisso com o futuro, premissa que se comprovou um tiro no pé. O triunfalismo do Diário do Grande ABC sempre morria na praia da verdade inescapável de manchetes que vira e mexe apareciam em forma de desgraças sociais e econômicas a afrontar o delírio de paraíso vendido pelo jornal. A esquizofrenia editorial do Diário do Grande ABC, contaminada pelo proselitismo comercial, sempre deu com a cara do bom-senso na porta.
Portanto, e retomando a origem de LivreMercado naquele 1990 havia um buraco enorme na mídia regional em forma de valorização, sem abrir mão de críticas, de empreendedorismo.
PARTIDO DOS EMPREENDEDORES
Cheguei ao ponto de promover uma campanha em defesa da criação de um partido político que representasse os pequenos empreendedores da região, e que se espalharia pelo País.
Uma iniciativa que poderia parecer contraproducente a quem não cansa de criticar a politização da mídia. O objetivo era outro: ou seja, incentivar empreendedores privados a se reunirem em torno de ideais que enunciassem as discriminações ao segmento.
O Partido dos Empreendedores, um contraofensiva ao monopólio do Partido dos Trabalhadores, não passou de sonho. Mas foi um sonho provocativo. Sabia que dificilmente sairia de conjecturas.
Portanto, qualquer tentativa de mudar o rumo dos acontecimentos na região, ou seja, de reescrever a história, colocando-se o empreendedorismo privado ao nível, próximo ou mesmo superior ao sindicalismo, não passaria de patetice.
CONTRADITÓRIO FALHO
Não há termos de comparação quando se pega pelo chifre da realidade histórica o que foi e continua sendo o Diário do Grande ABC sob o controle do sindicalismo e o que sempre fracassou como suposto endereço jornalístico, principalmente dos pequenos e médios empreendedores.
Não estou fazendo acusação alguma ao movimento sindical e seus desdobramentos. Diferentemente disso. Entendo que as lideranças sindicais a partir do final dos anos 1978 com a revolução do metalúrgico Lula da Silva cumpriu papel corporativo além da conta, entre outras razões porque não faltava dinheiro a mobilizações.
O outro lado da moeda da democracia representativa do capitalismo, ou seja, os capitalistas e suas ramificações, é que falhou durante todo o período e contribuiu ao esfacelamento do ambiente produtivo da região em forma de desindustrialização cada vez mais pronunciada.
Ainda nestes dias o Diário do Grande ABC segue a toada de privilegiar o sindicalismo cada vez mais fragmentado não só porque a desindustrialização fez estragos monumentais mas também porque não há mais como exercer uma medição de forças que dispense conciliação como principal inquietação.
GM ESCLARECEDORA
As recentes demissões na General Motors em São Caetano tornaram o presidente Aparecido Cidão Inácio da Silva quase um herói regional.
Primeiro, o Diário do Grande ABC o glorificou como porta-voz de um grupo de trabalhadores mal tratados pela companhia internacional. Segundo, porque a Justiça do Trabalho decidiu revogar a perda de 300 empregos. Cidão tem uma trajetória controversa à frente dos metalúrgicos de São Caetano. Nada disso consta do noticiário do Diário do Grande ABC. Aliás, um tratamento nada surpreendente. Outros sindicalistas contam com semelhante tolerância.
Do outro lado, do lado dos empreendedores ou representantes dos empreendedores, o que temos é uma dupla ação condenatória: ou são protegidos pelo jornal, mesmo ao não produzirem nada em favor da classe, ou são ignorados, porque a pauta sindical é mais importante.
Ao longo de décadas, não custa ressaltar, o Diário do Grande ABC raramente perfilou ao lado dos interesses legítimos dos empreendedores locais. Não se pode confundir exceção de tratamento editorial com regra de tratamento editorial.
EMPRESA CAPITALISTA?
Os sindicalistas bem estruturados sempre ocuparam mais e mais as páginas do jornal. E sempre da mesma forma: com entrevistas encomendadas ao sabor de interesses mútuos e sempre distantes dos leitores.
Basta ver a recente entrevista de página inteira com Cidão dos Metalúrgicos de São Caetano. Em termos jornalísticos do que entendo como instrumento de transformação social, trata-se de assessoria de imprensa azeitadíssima. Não mais que isso.
Nesse ponto é preciso retirar o ônus editorial do Diário do Grande ABC das costas de Ronan Maria Pinto. É preciso que se divida o fardo entre o antes e o depois de Ronan Maria Pinto assumir o controle das ações do Diário do Grande ABC.
Não esqueço o dia -- e isso faz décadas -- em que um executivo da General Motors de São Caetano me perguntou sobre os controladores do jornal.
O executivo da GM pretendia saber a qual sindicato o Diário do Grande ABC devia responsabilidade acionária e operacional. E duvidou da resposta. Que resposta? Que o Diário do Grande ABC era uma empresa privada, dirigida por empresários que sabiam o quanto o balanço financeiro era vital ao cumprimento das obrigações e à rentabilidade dos negócios. O interlocutor sorriu como a debochar deste jornalista.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)