Sociedade

Conselho em massa responde que
regionalidade é o mapa da mina

DANIEL LIMA - 06/05/2011

A classe média tradicional representada no Conselho Editorial da revista CapitalSocial posiciona-se majoritariamente favorável à regionalidade como ferramenta ideal para reduzir os ônus que infligem derrotas seguidas ao Grande ABC. O ajuntamento estratégico dos municípios em torno de posições em comum que beneficiem a todos está no topo de preocupações dos conselheiros editoriais. Muito acima, por exemplo, dos estragos provocados pelo caos viário e também, muito, mas muito acima de eventuais complicações nas relações entre capital e trabalho.


A conclusão de que regionalidade é muito mais importante do que imaginam dirigentes públicos que passaram e que estão em instâncias do Grande ABC não surpreende quem acompanha tendências locais. Provavelmente só causa espanto nas próprias lideranças políticas, econômicas, sociais e sindicais que vivem em mundos muito particulares, de corporativismo arraigado.


Vejam o enunciado de uma das questões que remetemos ao Conselho Editorial de CapitalSocial, as respectivas alternativas de respostas e os percentuais alcançados:


Qual é o maior gargalo para o desenvolvimento sustentado do Grande ABC?



  •  O sistema viário precisa ser completamente modificado para sair do século passado e, com isso, garantir ganhos de qualidade de vida e logística: 24%.
  •  A relação capital versus trabalho ainda tem muito a ser acertada: 8%.
     
  • A institucionalidade, entendida como a participação efetiva de entidades sociais, econômicas e oficiais, é o mapa da mina para que as resoluções se tornem decisivas: 63%.
     
  • Não responderam: 5%.

Creio que não resta dúvida quanto a intensidade do favoritismo do temário de regionalidade na pauta do Grande ABC. Há mais de duas décadas bato nessa tecla. Muito antes da criação do Clube dos Prefeitos já estava batucando essa inquietação. E, acreditem, ainda hoje, a maioria da mídia regional trata a integração do Grande ABC como insumo de segunda classe. Segue essa mesma mídia com rigor absoluto uma política errática de coberturas jornalísticas. Vai conforme a onda de demandas de individualidades que só olham para o próprio bolso.


Quem não tem pauta inteligentemente sincronizada com os desejos e as ambições da sociedade acaba submetido às particularidades de forças de pressão. Não é por outra razão que editei “Na Cova dos Leões” quando deixei o Diário do Grande ABC em abril de 2005. O livro é uma coletânea de boa parte dos textos que escrevi na coluna “Contexto”. Não me submeti jamais às conveniências do cargo. O princípio do jornalismo é o compromisso com os leitores.


Por isso, desafio os leitores a buscarem nos arquivos do Diário do Grande ABC, durante os nove meses em que ali atuei como Diretor de Redação, cargo do qual fui apeado por conta de negociações que culminaram com uma sentença judicial que me teve como moeda de troca, desafio os leitores, como dizia, a contabilizar alguma manchete principal de primeira página que resvalasse na quinquilharia editorial de ocorrências policiais.


Fico horrorizado quando tenho o Diário do Grande ABC à mão e dou de cara com manchetes policiais mundanas ou com matérias chinfrins. Outras publicações menos tradicionais mas nem por isso fora do circuito de interesse a que todos devemos dedicar são menos espetaculosas.


Manchete de primeira página, principalmente manchete de primeira página, é o retrato fiel da organização editorial de uma publicação. Quando se apelam de forma pontual às misérias da sociedade, aos crimes banalizados, está mais que sinalizada a ausência de eixo numa engrenagem provavelmente corroída por imprevidências.


Quero dizer com isso que falta ao comando do Diário do Grande ABC algo que implantei e que teve plena adesão de meus companheiros de trabalho naqueles meses de muita dedicação à cidadania regional: um planejamento estratégico que contemple para valer demandas do Grande ABC como porção sagrada do noticiário. E que, devidamente instrumentalizadas, sejam alçadas à manchete principal.


Na realidade, esse não é um desejo deste jornalista, como alguns poderiam sugerir a título de desclassificação ou de suposta perseguição editorial. Trata-se de instinto de sobrevivência, porque os leitores de classe média, como provam os membros do Conselho Editorial de CapitalSocial, assim o exigem.


Quando o guarda-chuva imenso de regionalidade está solidamente acima de pontualidades temáticas como o sistema viário do Grande ABC, a decodificação é clara e abrangente: a sociedade consumidora de informação espera dos veículos de comunicação muito mais competência do que imaginam seus mantenedores e executores.


Ignorantes são todos aqueles que não conseguem decifrar o significado social, econômico, político e cultural de regionalidade. Mais que isso: a maioria se prende demais a provincianismos políticos sem se dar conta de que a movimentação de pedras partidárias e eleitorais não é necessariamente uma prova de democracia. Somos uma região subjugada à ditadura de interesses específicos que mantêm a população à distância das decisões.


Na próxima edição que abordará novos resultados do questionário respondido pelos conselheiros editoriais, mostraremos que a classe média alvo de nossos trabalhos tem sede de integrar-se às decisões. Mas ninguém lhe dá bola. Políticos e mídia, principalmente.


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