Imprensa

DEBATE VIRTUAL COM
PAULINHO SERRA (3)

DANIEL LIMA - 07/07/2025

O melhor desta série que o Diário do Grande ABC possibilita a este jornalista o exercício de  debate virtual tem o seguinte significado: o ex-prefeito de Santo André está confessando publicamente (e vou insistir nessa observação porque a cada capítulo o conceito é reiterado pelo autor) tudo ou quase tudo que poderia ter sido e não foi durante oito anos de dois mandatos.

O principal ativo-passivo do colunista temporal Paulinho Serra está nessa contradição. O que Paulinho Serra escreveu na edição de domingo é a negação de práticas no relacionamento domesticado que os vereadores dedicaram durante todo o tempo ao Executivo comandado por ele. É praxe no País a relação promíscua entre Legislativo e Executivo.

Talvez seja isso exatamente o que Paulinho Serra pretenda ver reproduzido pelos congressistas em Brasília para alcançar o estágio de dominação completa dos legisladores nacionais. Seria o contraponto ao estágio de polarização envolvendo direitistas-direitistas e direitistas-centristas ante esquerdistas do governo Lula da Silva.

Seguem os comentários de Paulinho Serra e os contrapontos deste jornalista. O leitor que tire as conclusões que bem entender. Com polarização interpretativa ou não.

A liberdade de expressão é um santo remédio que escrutina virtudes e deficiências. É uma questão de tempo para se chegar ao desarmamento ideológico em forma de racionalidade – ou ao aprofundamento de patetices.  

Nesse ponto, mesmo à revelia retrospectiva,  Paulinho Serra encontrou uma maneira de autopenitenciar-se no papel. Na cadeira do Paço Municipal ele e seu grupo instauraram o absolutismo populista e improdutivo como elemento de fracasso. A reestruturação do  modelo gerencial se esgotou há muito temo e segue à espera de reações de uma sociedade ainda e profundamente servil e desorganizada.   

 

O contraste entre a Alesp

e a Câmara dos Deputados

Num momento em que o Brasil enfrenta desafios sociais, econômicos e institucionais profundos, a forma como o poder público atua faz toda a diferença. A gestão eficiente, o foco em resultados e a capacidade de diálogo tornam-se atributos ainda mais valiosos. E é nesse cenário que vale observar o contraste entre duas casas legislativas fundamentais para o País: a Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) e a Câmara dos Deputados, em Brasília. 

 

As profundas diferenças entre

Alesp e Câmara dos Deputados 

O Brasil vive frequentemente, sem intervalo para os comerciais, exceto de demagogos, desafios sociais, econômicos e institucionais que já ultrapassaram a profundidade máxima e se instalam numa espécie de Síndrome da China. Nada que esteja na gênese dessa crise continuada ao longo de décadas obedece a compartimentações contrastantes na esfera Legislativa. Com nuances próprias de cada esfera de governo, o que existe em comum entre legisladores municipais, estaduais e federais eleitos pelo voto é a mesma sintonia fina de despreparo, populismo e completo alheamento aos limites entre gasto públicos e resiliência dos contribuinte. 

PAULINHO SERRA 

Enquanto a Câmara dos Deputados tem se tornado palco recorrente de embates ideológicos e disputas partidárias que muitas vezes paralisam ou distorcem o debate público, a Alesp tem adotado um caminho diferente — pautado pela busca de soluções concretas e pela responsabilidade na condução de políticas públicas. Sob a presidência do deputado André do Prado (PL), a Alesp tem demonstrado que é possível priorizar a boa gestão e o interesse coletivo, mesmo em um ambiente politicamente diverso. 

CAPITALSOCIAL

O elogio calculado de Paulinho Serra ao presidente da Assembleia Legislativa do Estado tem finalidade específica: encontrar uma maneira de, perdido nos destroços dos tucanos, participar das disputas eleitorais por uma agremiação partidária ou federação partidária que possibilite um salto na carreira -- legítimo, claro. O Legislativo Paulista não difere dos demais legislativos estaduais e municipais: está a serviço do governo de plantão. Como, aliás, era até recentemente tradição no Legislativo Federal, agora submetido às vontades de uma massa de oposicionistas que nadam em emendas parlamentares e impõem derrotas sobre derrotas a um governo à deriva. 

PAULINHO SERRA 

Nos últimos anos, a Assembleia de São Paulo aprovou uma série de medidas estruturantes. Reformas importantes, como privatizações estratégicas e modernizações administrativas, foram discutidas e encaminhadas com responsabilidade. Programas sociais abrangentes, com foco na população mais vulnerável, também avançaram com apoio multipartidário. Esses resultados não são fruto do acaso: eles revelam uma cultura política que, ao invés de se perder em trincheiras ideológicas, opta por construir consensos possíveis e avançar em temas que impactam diretamente a vida das pessoas. 

CAPITALSOCIAL 

O figurino descrito por Paulinho Serra de trincheiras ideológicas também marca a relação dos legisladores paulistas. A diferença é que o ambiente político, econômico e social no Estado de São Paulo é bem diferente do estágio nacional reproduzido em Brasília. O governador Tarcísio de Freitas conta com ampla maioria no enfrentamento com a esquerda. O Estado de São Paulo, entre outros fatores, é muito diferente do somatório nacional representado no Congresso Nacional. Os debates entre liberais e socialistas, como poderiam ser resumidas as duas alas ideológicas que prevalecem, são semelhantes ao quadro nacional, mas contam com intensidade divergente. A massa crítica de políticos, economistas, imprensa e o eleitorado paulista está longe de acompanhar a efervescência nacional. Os grandes temas estão em Brasília. Brasília é o centro do universo nacional. 

PAULINHO SERRA 

Essa postura não significa ausência de debate ou de divergência. Ao contrário: o ambiente plural da Alesp tem sido respeitado e valorizado. Mas o que se destaca é que o confronto de ideias não tem impedido o progresso das pautas. A diferença está justamente na condução política, que privilegia o diálogo, o pragmatismo e a busca de resultados. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito da Câmara dos Deputados. O cenário em Brasília tem sido marcado por uma polarização intensa, que, em muitos momentos, transforma o plenário em um campo de batalha. Propostas relevantes acabam sendo instrumentalizadas para ganhos partidários ou bloqueadas por questões ideológicas. O foco, muitas vezes, não está na solução dos problemas reais da população, mas na afirmação de narrativas políticas que apenas aprofundam divisões e alimentam o conflito. 

CAPITALSOCIAL 

Tentar transportar para o ambiente nacional, representado no Congresso Nacional, o suposto mar de rosas da Assembleia Legislativa Paulista tem o mesmo sentido que pretender de patrocinadores da Copa do Mundo de Clubes os mesmos valores às competições nacionais. Tudo é uma questão de dimensão, de importância, de repercussão, de transformações. Os deputados paulistas são de uma hierarquia de valoração muito abaixo dos deputados federais por razões mais que óbvias. E as pautas nacionais, também por razões óbvias, determinam o ritmo das redes sociais beligerantes, do Judiciário contestado, das pesquisas eleitorais malandramente manipuladas.  Colocar no mesmo ringue boxeadores de pesos contrastantes não passa  pelos critérios de sensatez. 

PAULINHO SERRA 

Essa diferença de postura entre as duas casas legislativas revela muito sobre os caminhos que o país pode escolher. De um lado, temos um modelo de Parlamento estadual que tem conseguido dialogar, votar e avançar. Do outro, uma Câmara Federal que, em diversas ocasiões, parece prisioneira das suas disputas internas e de uma lógica de confrontação que paralisa o país. É por isso que a defesa de “mais gestão e menos polarização” não é apenas um slogan — é uma proposta concreta para a melhoria da política brasileira. Gestão significa responsabilidade com os recursos públicos, foco em resultados, compromisso com as entregas. Menos polarização não significa apagar as diferenças, mas sim colocá-las a serviço de um debate mais produtivo, que respeite as divergências sem abrir mão da construção de soluções. O exemplo da Alesp mostra que é possível fazer política de forma eficiente, humana e responsável. Mostra que, mesmo com diferentes partidos e visões, é viável construir um Parlamento voltado para a população, que assume sua responsabilidade diante dos desafios do Estado. Enquanto isso, o ambiente da Câmara dos Deputados serve como alerta sobre os riscos da radicalização permanente, que fragiliza a democracia e compromete o futuro do País. 

CAPITALSOCIAL 

Partindo de um tucano a pregação de tolerância e um diapasão à polarização bem calibrada já seria objeto natural de desconfiança. Afinal, é de conhecimento público e de sensibilidade nos bolsos o que significou esse modelo de gestão no Estado de São Paulo neste século, depois de os anos 1990 parecerem encaminhar para um futuro restaurador com o Plano Real. Quem não se lembra do quanto PT e PSDB se esmeraram num teatro encenado de situação e oposição? Resultado? No campo econômico, basta apanhar o desempenho dos paulistas no ranking nacional, a partir de 1990, também de 1994, com a chegada do Plano Real. A participação relativa paulista caiu de quase 40% para menos de 32%. Sem contar os acertos mútuos para abafar escândalos federais e estaduais, num toma-lá-dá-cá de cumplicidades. E o crime organizado que floresceu a partir da ocupação do Palácio dos Bandeirantes no primeiro mandato de Mario Covas e a Política de Direitos Humanos? Há uma coleção de desastres em todas as áreas que ajudam a explicar por que o Brasil cada vez mais patina em Desenvolvimento Econômico e em Infraestrutura Física e Social. Os tucanos e os petistas viveram em harmonia controlada e em detrimento da sociedade nacional. Temos um século resumidamente de pouca gestão e muito compadrio. Tanto que deu vazão ao extremismo de direita com o suporte do centro fisiologista. O extremismo de direita e o extremismo de esquerda são o rescaldo da harmonia de ocasião entre tucanos e petistas que, no fundo, é a intenção subjacente da pregação tucana de Paulinho Serra. Uma pregação de cova rasa de representatividade política. O PSDB já morreu. O mundo inteiro está em transformação. O Estado Todo-Poderoso está se desfazendo aos poucos por excesso de incompetências. A carga tributária socialista de serviços públicos indigentes, com níveis recordes de crescimento durante os 30 anos em que tucanos e petistas se refestelaram nos poderes, não combina com civilidade sustentável. As manchetes de jornais mostram a cada novo dia a situação da região e do Brasil como um todo. Já não existe mais elasticidade a novos assaltos nos bolsos dos contribuintes. A sociedade intolerante que Paulinho Serra condena só chegou a esse estágio porque gestores públicos foram e continuam sendo, em larga escala,  perdulários e rasos.  Mais gestão e menos polarização é uma fantasia em dose dupla. Ou mesmo uma confissão de fracasso administrativo combinado com desencanto social. A tentativa de Paulinho Serra amenizar o radicalismo implícito de Mais gestão, menos polarização não cola: em entrevista antecedente à criação da coluna no Diário do Grande ABC, Paulinho Serra execrou a direita bolsonarista e a esquerda lulista. O que Paulinho Serra pretende, como ventríloquo de Aécio Neves, é o ressuscitamento do tucanismo esgotado por excesso de intrigas internas e reticências administrativas externas. Esqueceu que o povo cansou. 

PAULINHO SERRA 

A comparação entre as duas casas legislativas não é apenas institucional — é simbólica. Ela representa dois caminhos: um que aposta na boa política, e outro que se perde na lógica da divisão. Cabe a todos nós, sociedade civil, lideranças políticas e cidadãos, escolher qual desses caminhos queremos seguir. 

CAPITALSOCIAL 

É uma grande anedota de salão acreditar que o modelo empurrado goela abaixo em Santo André pelo grupo de Paulinho Serra sirva para o Brasil, ou mesmo que tenha alguma relação com o ambiente na Assembleia Legislativa de São Paulo. A maioria que controla a pauta paulista é uma coisa muito diferente do que Paulinho Serra aplicou durante oito anos em Santo André e que continua com o sucessor. Trata-se da destruição do contrário, do contraditório de araque sequer disfarçado. É o absolutismo territorial que os tucanos só não exerceram ao longo de 30 anos no Estado de São Paulo porque o PT, mesmo com o Teatro de Tesouras, conseguiu opor alguma resistência entre outras razões para que as máscaras fossem preservadas numa orquestração de falsa democracia. Uma democracia de Estado campeão de gastanças e de privilégios.



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