Se o leitor conseguir jogar xadrez sem algumas peças essenciais do xadrez, ou se pretender ver uma partida séria de futebol sem que a bola de futebol seja utilizada, ou ainda imaginar que é possível ouvir um sermão do papa de plantão sem a fluidez da Bíblia Sagrada, então o leitor não precisa tentar compreender o que separa o artigo de ontem do ex-prefeito Paulinho Serra no Diário do Grande ABC da lógica envolvendo o tarifaço de Donald Trump.
Paulinho Serra discorreu sobre o tema com o conjunto de palavras e sentidos típico dos tucanos que ele representa como presidente estadual de uma massa falida. Faltaram palavras e expressões que deveriam constar obrigatoriamente de qualquer análise sobre o entrevero.
E faltou, sobretudo, regionalizar a situação, especulando no bom sentido, como especulou no próprio artigo, sobre as consequências para a Economia do Grande ABC. É claro que seria pedir demais. Paulinho Serra ignora a economia da região. Mal sabe que, Santo André, por exemplo, sofre da Doença Holandesa Petroquímica.
BUROCRACIA TOTAL
O modelo tucano de ser por si só, que está no âmago burocrático exposto por Paulinho Serra, já se esgota como fonte de inspiração. Tornou-se quinquilharia nas relações políticas e sociais. O modelo tucano de ser é tentar dar ares de intelectualidade sem avançar na contextualização costurada.
Qualquer observação sobre a conjuntura geoeconômica e geopolítica que se apresente sem incluir o Congresso Nacional, o comportamento do PIB, as relações diplomáticas mais amplas e abrangentes possíveis, a macroeconomia, a balança comercial entre os dois países (indo além de superavit e déficit como se têm noticiado), o estágio de rebeldia do BRICs, além do Grande ABC (ou a região) e de Santo André na parada de prospecções, não passará de um drible da vaca na lógica explicativa.
Sem contar, claro, as intervenções do Supremo Tribunal Federal, linha auxiliar do presidente de plantão, e as grandes plataformas tecnológicas de comunicação, claro.
MAUS EXEMPLOS
Nem se fale da experiência de Paulinho Serra como prefeito, que o descredencia como conselheiro mesmo que distante do embate entre o governo brasileiro e o governo norte-americano. O Clube dos Prefeitos , num dos períodos em que foi o chefe, ou seja, o prefeito dos prefeitos, virou bagunça a ponto de São Bernardo e São Caetano se afastarem por causa de traições e intrigas no processo de sucessão. Sem contar que ganhou a forma de puxadinho que prestigiou parceiros sem qualificação, mas sintonizados com a carreira do então prefeito.
A Administração de Paulinho Serra à frente da Prefeitura virou um forrobodó ao anunciar o projetado após um desfilar preliminar e desnecessário e conturbador de nove indicados. Afloraram dissensões contidas a muito custo. E mesmo assim com fissuras. Tudo isso num ambiente em que não existia oposição. A intolerância à polarização levou a gestão de Paulinho Serra ao absolutismo. E ao imperialismo continuado.
O grupo de Paulinho Serra exterminou oponentes. Guardadas as devidas proporções, seria uma espécie de Brasil controlando a América do Sul o ou Estados Unidos dominando as Américas. Conflitos democráticos são sempre mais interessantes e produtivos. Mesmo num Brasil em que a democracia é sabidamente relativa.
Os marqueteiros de Paulinho Serra têm apenas uma preocupação: fazer dele, Paulinho Serra, o homem da neutralidade vazia para cavoucar espaço em algum partido competitivo às próximas eleições.
DESCOLAMENTO REGIONAL
O texto pretensamente professoral que o leitor lerá abaixo é prova provada de que mais que evoluções argumentativas que poderiam colocar o Grande ABC no centro de inquietações, tem-se apenas um voo panorâmico. Qualquer dispositivo de Inteligência Artificial poderia abastecer o artigo tantas são as limitações às subjetividades e nuances que somente a humanidade bem esclarecida e de carne, osso e inteligência natural garantiria.
De fato, o artigo mais uma vez agrava a barbeiragem pública que pretenderia ver enterrada. Em artigos anteriores dessa série, Paulinho Serra atribuiu aos eleitores de Lula da Silva e de Jair Bolsonaro a massificação da crise política nacional. Mais gestão, menos polarização veio à reboque dessa derrapada.
Os marqueteiros de Paulinho Serra estão jogando o capital eleitoral de Paulinho Serra na lata de lixo da asfixia discursiva. Pergunta-se: estariam obrigando o ex-prefeito a tocar uma musiquinha velha de guerra, descartada pela maioria quase total dos eleitores? Ou simplesmente replicam o pensamento e as ações do mesmo Paulinho Serra incolor e inodoro ao longo dos anos em posicionamentos político-ideológico?
Procurem nos arquivos do então prefeito algo, por exemplo, que levemente resvale no movimento sindical na região. Há uma infinidade de testes a desafiar o então prefeito.
UM TERÇO VOLÚVEL
Goste-se ou não, a densa massa eleitoral do País prefere as doideiras de bolsonaristas e lulistas em contraponto à mesmice tucana. O terço que sobra é um terço volátil. Está longe de eleger concorrente de matriz político-ideológica reticente. Não há espaço, ainda, para a neutralidade inútil disfarçada de bom senso. O fato é que Mais gestão, menos polarização salta como cadafalso de Paulinho Serra.
Vou fazer breve síntese da barafunda em que se tornaram as relações entre o governo Lula da Silva e de Donald Trump para, ao fim, antes de reproduzir o artigo de Paulinho Serra da edição de ontem do Diário do Grande ABC, apresentar o atestado de óbito de uma peça de baixo valor colaborativo.
Lembro que também nos artigos anteriores esta série procura contrapor-se ou alinhar-se, despendendo do que é publicado no Diário do Grande ABC. Para quem, como Paulinho Serra, que passou três semanas nos Estados Unidos e acredita-se especialista em gestão pública na área de parcerias público-privadas, nada é impossível como esticamento pretensioso de falso conhecimento.
Quem se declara, como se tem declarado, deslumbrado com a matéria que lhe foi repassada na recente viagem, apenas aprofunda a desconfiança, senão a certeza, de que fez até agora da atividade pública, 25 anos depois do pontapé inicial.
Se fosse tão fácil dar encaminhamento salvacionista às relações entre Brasil e Estados Unidos, prescrito burocraticamente no artigo publicado no Diário, os dois países poderiam programar a festa de congraçamento.
AJUSTANDO PONTEIROS
O que muita gente ainda não percebeu é que o mundo está mudando e está mudando com força de radicalismos que, alguns, como Paulinho Serra, emblemático tucano, chamam de polarização nefasta.
De fato, a polarização reúne mais nocividades que benefícios quando vista sob ótica imediatista. Uma situação, que, como se observa, poderá, inclusive, agravar-se. Mas tudo isso são metástases de permissividades e conluios de uma falsa democracia praticada ao longo de décadas, e mantida porque o Estado, tanto aqui quanto lá fora, excedeu-se na gulodice de grandiosidade fiscal e gastança até que a carga tributária chegasse ao limite do suportável.
Os chineses, espertos ditadores e expansionistas com o uso auxiliar do BRICs, aproveitam a situação. Exploram o quanto podem um capitalismo de Estado avarento e agressivo que ruboriza até os críticos do capitalismo liberal. Um Estado tão agressivo que está ocupando vários setores industriais e de serviço do Brasil.
GRITO REGIONAL
A indústria automotiva regional já está pagando caro por isso. E pagará muito mais. Sob os aplausos, quando não a omissão, de sindicalistas locais, embevecidos pelos ditames do governo federal alinhado aos asiáticos autoritários.
O mais lastimável no artigo de Paulinho Serra é que, provavelmente na ânsia de provar-se acima do provincianismo municipal e regional, até outro dia seu reino protegido, atropela a geoeconomia e geopolítica locais para estatelar-se na mediocridade de uma avaliação pretensamente sem fronteiras. Isso é puro Complexo de Gata Borralheira.
Para completar, segue uma lista de palavras e expressões que mencionei de passagem, mas de forma sistêmica, neste artigo e que não contaram com uma única citação -- isso memo, uma única citação -- no artigo de Paulinho Serra. Como é possível manifestar-se sobre a crise de múltiplas dimensões sem sequer mencionar mesmo que isoladamente tantas peças de uma engrenagem que vai muito além da Inteligência Artificial?
1. Supremo Tribunal Federal.
2. Geopolítica.
3. Política internacional.
4. Chineses.
5. BRICs.
6. Congresso Nacional.
7. PIB.
8. Sistema financeiro.
9. Macroeconomia.
10. Balança comercial.
11. Grande ABC.
12. Região.
13. Regionalidade.
14. Santo André.
Agora vamos ao artigo de Paulinho Serra sob o título “O grito”, da coluna “Mais Gestão, Menos Polarização”:
ARTIGO DE PAULINHO SERRA
Tenho abordado aqui, semanalmente, o quanto a sobreposição da polarização sobre a boa gestão tem prejudicado a vida da nossa gente. Na última semana, o nome desta coluna se tornou quase um grito de sobrevivência; isso porque a polarização política talvez tenha alcançado seu grau mais nocivo ao País com o episódio das tarifas impostas pelos EUA aos produtos brasileiros.
Diferentemente da maioria das reações que politizaram ainda mais o tema, prefiro racionalizar a análise com equilíbrio – e, acima de tudo, com propostas. Como? Com mais gestão e menos polarização!
Então, no último dia 9 de julho, os EUA anunciaram tarifas de 50% sobre produtos brasileiros como café, carne, laranja e cobre, com justificativas políticas. Mas vamos à vida real: o impacto é direto no bolso do cidadão e na estabilidade da economia.
O que isso significa para o Brasil?
1. Aumento drástico nos custos de exportação
O Brasil é, por exemplo, líder mundial em produção de café arábica. Com as tarifas, o preço futuro disparou, o real desvalorizou e produtores estão pressionados.
2. Crise diplomática
O governo federal reagiu convocando a Embaixada dos EUA e acionando a Lei de Reciprocidade Comercial, ampliando a tensão.
3. Reflexos internos
A instabilidade cambial e a perda de mercado geram impactos no setor produtivo, nos preços e na geração de empregos.
O fator polarização
Essa crise não é apenas fruto de uma decisão externa. Ela é alimentada pelas narrativas extremadas que dominam a política nacional. De um lado, há quem veja perseguição política e peça apoio internacional. De outro, há a ênfase em soberania e repúdio a qualquer influência externa.
Essa disputa interna transbordou para o campo diplomático e comercial, provocando insegurança e desconfiança em relação ao Brasil no Exterior.
Por que isso é grave?
A segurança jurídica enfraquece, e decisões econômicas passam a seguir a lógica eleitoral, não técnica.
Exportadores perdem mercado, e o País perde divisas, investimentos e empregos.
A imagem internacional se deteriora, e o Brasil é visto como instável e imprevisível.
Quem paga a conta? O cidadão comum, que sente o dólar mais caro, os preços dos produtos mais altos e o emprego mais distante.
Caminhos para sair da crise
É possível reagir com equilíbrio e responsabilidade, adotando medidas concretas:
1. Reativar o diálogo com os EUA
O Itamaraty precisa liderar uma diplomacia técnica, afastada de disputas ideológicas, buscando interlocução direta com lideranças norte-americanas.
2. Acionar a OMC
Recorrer à Organização Mundial do Comércio reforça o compromisso com regras internacionais e ajuda a tirar o tema do campo político.
3. Diversificar mercados
Apostar em novos acordos com Europa, Ásia e África pode reduzir a dependência dos EUA e abrir novas oportunidades.
4. Coordenação público-privada
É preciso envolver o setor produtivo na construção de alternativas logísticas, compensações e estratégias de curto prazo.
5. Blindar a política externa da polarização
A diplomacia deve ser política de Estado, não de governo. O Brasil precisa voltar a ser visto como parceiro confiável e previsível.
Conclusão: ampliar diálogo + diminuir “gritos” = menos prejuízo.
O tarifaço imposto pelos EUA é, sim, uma reação desproporcional, mas também um reflexo da imagem fraturada que o Brasil tem projetado ao mundo. Quando líderes políticos transformam o País em um palco de confronto permanente, os efeitos extrapolam a política e atingem em cheio a economia, os empregos e a estabilidade nacional.
O Brasil precisa urgentemente blindar sua política externa das batalhas eleitorais internas. É hora de resgatar o profissionalismo diplomático, investir em previsibilidade institucional e reconstruir pontes com parceiros estratégicos – sem ruídos ideológicos e sem revanchismo.
Mas também é hora de aprendermos a lição: não se combate um tarifaço com trincheiras retóricas, nem com discursos inflamados, e muito menos com o silêncio pragmático do “deixa como está”. Combate-se com planejamento, diálogo, unidade, visão de futuro e, acima de tudo, gestão.
É esse o caminho que proponho semana após semana: Mais Gestão, Menos Polarização. Agora, mais do que nunca, esse não é apenas o nome desta coluna. É uma urgência nacional.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)