Imprensa

DEBATE VIRTUAL COM
PAULINHO SERRA (5)

DANIEL LIMA - 21/07/2025

O político Paulinho Serra segue a afundar-se nas páginas do Diário do Grande ABC ao assinar uma coluna semanal em que aperfeiçoa involuntariamente um autoengano devastador. É um tucano queimagina ser possível o Brasil voltar a ser o que era antes depois de o Brasil passar a ser o que é agora. Como assim? Mais Gestão, Menos Polarização não passa de trucagem de Terceira Via já morta e enterrada. 

O passado da redemocratização do País não foi tudo aquilo que se imaginava. Ontem, foi a vez de Paulinho Serra, presidente estadual de um esquálido PSDB, evocar a grandeza de Fernando Henrique Cardoso. Transforma o ex-presidente em deus. Só esqueceu que a herança tucana tem sim de ser registrada e carimbada, mas reúne também muitas incorreções.  Principalmente nos estragos econômicos e sociais provocados no Grande ABC. 

Sob o título “A bússola FHC’, Paulinho Serra derrete-se aos pés de Fernando Henrique Cardoso. Nada mais inédito partindo do ex-prefeito de Santo André, que, até então, jamais se pronunciou tão enfaticamente ou mesmo discretamente como eventual apoiador das políticas públicas do ex-presidente. Nem como eventual crítico, como se notará no que se segue. 

NEM CHEIRO DE FHC 

Tanto é verdade que uma investigação profunda sobre os oito anos de dois mandatos de Paulinho  Serra à frente da Prefeitura de Santo André não apresenta nem cheiro de FHC.  Mais que isso: Paulinho Serra marcou atuação como farejador do legado de Celso Daniel. Uma tarefa ingrata que deixou a certeza de que se tratou de uma cópia mais que pálida, porque frustrante.

Como nos capítulos anteriores desta série, exceto o da semana passada, a metodologia de escrutínio das colunas assinadas por Paulinho Serra segue o mesmo ritual. Vou contrapor argumentos favoráveis ou contrários aos enunciados de Paulinho Serra. Uma tarefa de ombudsman mais que necessária numa região de via única da maioria do jornalismo formalmente profissional.  Um ombudsman a serviço da democratização da informação.

Não se pode deixar de lembrar que Paulinho Serra fugiu de um debate virtual e formal com este jornalista, desafiado que foi a escrever um livro a quatro mãos. A emenda da coluna no Diário do Grande ABC talvez tenha se tornado pior que o soneto da proposta de CapitalSocial. Afinal, Paulinho Serra obedece a um formato de manifestação em que foge nitidamente dos rescaldos de oito anos de Prefeitura e mergulha numa mar revolto em forma de política nacional. Esse não é seu habitat natural, embora os marqueteiros que o dirigem não se tenham atentado à realidade, instigando a novos tropeços.

PAULINHO SERRA

Desde a redemocratização do Brasil, poucos períodos políticos foram tão marcados por tensões e rupturas institucionais quanto o atual. O País vive uma espiral de polarização e radicalização que contamina o debate público, fragiliza as instituições e transforma ex-presidentes da República em alvos recorrentes de disputas judiciais. 

CAPITALSOCIAL

Como se verá logo em seguida, o equívoco do político Paulinho Serra está conectado à própria marca suicida da coluna que assina sempre aos domingos no Diário do Grande ABC. Não há como escapar da armadilha que seus marqueteiros o enfiaram. Mais Gestão, Menos Polarização é um atestado de óbito eleitoral se os adversários, tanto bolsonaristas, quando lulistas, levarem a sério. Ao tratar a efervescência da vida nacional como ruinosa depredação da democracia, Paulinho Serra faz vistas grossas, por analfabetismo sociológico ou esperteza política, às causas e consequências que estão conectadas ao passado que ele glorifica e passam por estresse social no presente que ele sataniza. 

PAULINHO SERRA

Nesse cenário, chama atenção uma figura que, mesmo após décadas de vida pública, manteve sua biografia intacta: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC governou o País entre 1995 e 2002. Foi o único presidente eleito no período pós-ditadura que não enfrentou, após deixar o cargo, qualquer tipo de ação judicial, denúncia criminal ou investigação que manchasse sua trajetória. Esse dado, por si só, deveria servir como alerta e reflexão diante do quadro atual, em que praticamente todos os ex-presidentes eleitos após ele passaram a figurar em manchetes policiais.

CAPITALSOCIAL

Contextos políticos, circunstâncias econômicas, estágios tecnológicos, ambiente partidário, macroeconomia e tudo o mais impedem qualquer articulista de bom senso transplantar sem ponderações o passado para o presente. Basta imaginar o que seria da imagem de Fernando Henrique Cardoso por conta de vazamentos de intrigas, traições e idiossincrasias da criação e do lançamento do Plano Real caso as redes sociais implacáveis para o bem e para o mal fossem colocadas nas cenas dos crimes? E a compra de votos da reeleição? Enfim, uma série de verdades, meias-verdades e mentiras envolvendo o governo Fernando Henrique Cardoso, circunscritas, quando não abafadas pela Imprensa Tradicional, desde muito tempo sócia do Estado e dos políticos da vez, teria atomizado o perfil de diplomacia, equilíbrio e sabedoria de FHC. O Plano Real é sua grande obra, mas mesmo essa grande obra tem Fernando Henrique Cardoso como responsável exclusivo quando se ouvem protagonistas e auxiliares de então. FHC poderia ter estigmatizada a imagem de desbravador dos sete mares da inflação. 

PAULINHO SERRA

Dilma Rousseff, sucessora de Lula, sofreu impeachment em 2016 em meio a uma crise institucional profunda. Embora não tenha sido alvo de condenações judiciais, sua imagem foi desgastada por acusações e processos ligados à sua gestão. 

CAPITALSOCIAL 

As barbeiragens do governo Fernando Henrique Cardoso, provavelmente não chegariam ao desfecho de Dilma Rousseff, memo com as redes sociais supostamente destes tempos, mas, insisto, provocariam trepidações inevitáveis, como se viram, mesmo com toda a proteção da grande mídia de então. 

PAULINHO SERRA

Lula, por sua vez, foi condenado, preso e posteriormente teve suas penas anuladas por irregularidades processuais – mas o impacto político e simbólico permanece. 

CAPITALSOCIAL

O desfecho condenatório de Lula da Silva se deu como consequência do esfacelamento moral, ético e fiscal do poder Estatal concentrado em algumas dezenas de mandachuvas sob proteção ou leniência da Grande Imprensa. Não se chega à situação que colheu Lula da Silva sem  a concretude de um processo histórico de acúmulo de irregularidades. Estava ali um apanhado de madeira da desconfiança de uma sociedade que já dava claros sinais de que as começava a construir barricadas nas mídias digitais e entraria no jogo de verdades e versões antes monopolizadas.   

PAULINHO SERRA

E agora, em julho de 2025, é Jair Bolsonaro quem ocupa o centro das atenções judiciais, com decisões que o tornam inelegível e o colocam cada vez mais próximo de responsabilizações criminais. 

CAPITALSOCIAL

Sem juízo de valor sobre o caso específico envolvendo o ex-presidente, não custa lembrar a tipologia judicial que, rescaldo do passado de concentração de poderes longe dos olhos populares, atua seletivamente. Casos de antagonismos entre a pregação por Justiça e a abertura das portas a bandidos condenados com profusão de provas, ainda são o rescaldo memorial, quando não técnico, dos tempos de paz e de harmonia entre os poderosos de sempre que dividiam territórios brasileiros para atuarem livremente em assaltos permanentes ao bolso dos contribuintes. Se ainda o fazem à luz do dia das redes sociais, imaginem o tamanho da farra do boi no passado de cumplicidades e roubalheiras. 

PAULINHO SERRA

É sintomático que, à exceção de FHC, todos os ex-presidentes tenham enfrentado graves turbulências jurídicas. Mais do que reflexo de eventuais erros individuais, esse fenômeno é um sintoma de um país aprisionado em disputas políticas sem fim, onde o adversário se torna inimigo e a alternância de poder se transforma em revanchismo. 

CAPITALSOCIAL

Diferentemente do que entende o político Paulinho Serra, o Brasil do momento vive nova fase institucional e de ativismo político-partidário. A diferença entre uma situação (presente) e outra (passado) é que agora a sociedade, de maneira geral, no ambiente federal, está mais atenta, participativa e também conflitiva. Nada melhor que o tempo para tornar o que é visto como polarização medonha em conflituosidade produtiva. Aliás, já é o que ocorre, porque, por pior que eventualmente se entenda o grau de disputas, a expectativa é de que o passado de conveniências entre falsos adversários, como PT e PSDB,  jamais poderá ser avocado como exemplo a ser copiado. 

PAULINHO SERRA

É preciso reconhecer que todos os presidentes tiveram acertos e erros. Lula ampliou políticas sociais. Dilma buscou manter a inclusão com forte investimento público. Bolsonaro teve apoio popular significativo, especialmente entre setores conservadores. Mas todos também carregam decisões questionáveis. E todos acabaram tragados por um ambiente político que prefere o embate ao diálogo, a vingança ao consenso.

CAPITALSOCIAL 

Outra vez o político Paulinho Serra enviesa a interpretação destes tempos em confrontos com o passado tucano vitorioso. Talvez não tenha entendido que o modelo de fazer política que tanto defende se dissolveu exatamente porque os debates, os acertos e os bons modos do passado eram a falsificação da democracia e do progresso social e econômico. Não fosse verdade, basta acompanhar o histórico de indicadores econômicos e sociais do País em confronto com países então do mesmo patamar econômico. Os exemplo internacionais condenam o Brasil do período de delicadezas diplomáticas mas de compartilhamentos de gulodices dos podres poderes. 

PAULINHO SERRA 

Fernando Henrique, nesse sentido, é uma exceção. Não apenas por sua postura institucional no pós-governo, mas também por ter deixado um legado de reformas estruturantes. Durante seus dois mandatos, o Brasil consolidou o Plano Real, domou a inflação, iniciou privatizações estratégicas, modernizou o Estado e estabeleceu a Lei de Responsabilidade Fiscal. FHC foi responsável por dar ao País a base macroeconômica que sustentou os avanços sociais dos governos seguintes. 

CAPITALSOCIAL 

É inegável a herança dos oito anos do governo Fernando Cardoso, base sobre a qual o sucessor Lula da Silva nadou de braçadas no primeiro mandato. Foram inúmeros os avanços, mas também se cavoucou a cova rasa do gigantismo do Estado em detrimento do empreendedorismo privado e da sociedade. A carga tributária aumentou em mais de 50% no período como medida de sustentação aos pilares técnicos da implantação do Plano Real. Esgotava-se ali o resto de toco do pantagruelismo estatal, com profundas consequências sociais. Não foi à toa que o Bolsa Família, de origem discretíssima e sem confluências sociais de FHC, virou o principal ativo do PT de Lula da Silva. Até que, como se vê nestes tempos, alcançou-se a exaustão tributária. 

PAULINHO SERRA 

Mais do que isso: soube se retirar da Presidência com sobriedade, respeitando as instituições, evitando alimentar crises e contribuindo com ponderação para o debate público. É exatamente essa racionalidade que falta ao Brasil atual. Hoje, o País precisa menos de heróis e vilões e mais de estadistas que saibam que o verdadeiro legado de um presidente não se mede apenas pelos anos no poder, mas pela forma como ele contribui para a estabilidade e o futuro do país mesmo depois de sair do cargo. 

CAPITALSOCIAL 

É mais que evidente:  o modelo FHC há muito virou sucata não como resultado de ingratidão da sociedade, mas pela compreensão de que nem mesmo o Plano Real e uma série de mudanças foram suficientes para entorpecer as demandas sociais. Fosse implementar nestes tempos o que juntamente com uma equipe de técnicos de primeira linha implantou há 30 anos, levando-se em conta o ambiente do ecossistema político-social-econômico, provavelmente FHC teria de enfrentar a fúria popular com arsenais de maquinas portáteis que transforma cada eleitor em fiscal.

PAULINHO SERRA 

A radicalização tem custado caro ao Brasil – em credibilidade, estabilidade, desenvolvimento e até mesmo na preservação da história pessoal de quem ocupou o mais alto posto da República. Ao invés de transformar cada ex-presidente em réu ou mártir, o País precisa reencontrar o equilíbrio que permita o julgamento sereno da história. E, nesse esforço, o exemplo de Fernando Henrique Cardoso é uma bússola que não deveríamos ignorar. 

PAULINHO SERRA 

O político Paulinho Serra quer transplantar para o Brasil o figurino de proteção, privilégios, mandonismo e imperialismo que aplicou durante oito anos de dois mandatos à frente da Prefeitura de Santo André. Ou seja: um ecossistema público-privado-popular que o tornou invencível nas disputas municipais por conta do silenciamento, quando não da perseguição, quando não da vingança, aplicada aos adversários que teimarem resistir às forças locais que o torna o centro de um absolutismo que nem FHC nem Lula jamais usufruíram em tamanho grau como presidentes. Os 80% de aprovação da população ao final do segundo mandato colocou Lula da Silva como a experiência popular mais vitoriosa do País. E o legado de Lula da Silva explodiu no colo de Dilma Rousseff. Paulinho Serra chegou perto dessa consagração popular em Santo André em tempos de redes sociais que não estão nem aí com o cheiro da brilhantina da política local, endoidecidas pelo ambiente nacional conflitivo e transformador. Imaginem uma sociedade municipal que debatesse preferencialmente as questões locais diante da informação de que o político que tanto elogia os oito anos de FHC, sem opor qualquer restrição, não dedicou uma linha sequer aos oito anos do período mais longevo de crise regional. Foram 85 mil empregos industriais com carteiras assinadas para o fogaréu do desemprego. Razão: a política macroeconômica de FHC fez do Grande ABC uma latrina de desinteresse. Dizimou-se a maioria das indústrias familiares porque as portas foram abertas de supetão às importações, enquanto o mesmo governo protegia as montadoras de veículos. Um genocídio econômico só superado quantitativamente nos dois anos de Dilma Rousseff. Já escrevemos muito sobre isso.



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