Quer saber de uma coisa? O sétimo artigo de Paulinho Serra como colunista temporão do Diário do Grande ABC é o retrato escrito e escarrado de Paulinho Serra como gestor de oito anos à frente da Prefeitura de Santo André. Trata-se de frustração para quem conhece o significado de ficar em cima do muro, mas não carrega um grama de surpreendente.
O tucano Paulinho Serra é especialista em enrolação porque há um ingrediente que, quando testado, exige mais que marketing fabricado. Falta ao político essência intelectual.
Isso não quer dizer que Paulinho Serra seja um político sem futuro. Talvez seja exatamente por isso que potencialmente tem muito futuro. Principalmente agora que cavouca aqui e ali um espaço mais que justo, porque democrático, para se tornar candidato a deputado federal ou deputado estadual no ano que vem, com amplas possibilidades de sucesso.
Só não se pode levar a sério a campanha de institutos de pesquisa que o colocam na lista de candidatos a senador. É uma estratégia de visibilidade coordenada pelo marqueteiro Duda Mendonça e auxiliares menos estelares.
FALTA TUDO
Alguém que pretenda explicar o significado do tratamento tarifário do governo norte-americano ao Brasil e não utiliza algumas palavras ou expressões-chave que se conectam ao âmago das questões que vão muito além de Economia, não está apetrechado a nada nesse sentido. É o caso do artigo assinado por Paulinho Serra.
Nesta edição, abandono mais uma vez o esquema de pingue-pongue e destrincho este texto de forma linear. Responder a cada conjunto de parágrafos do artigo de Paulinho Serra é perda de tempo.
O colunista improvisado do Diário do Grande ABC construiu um texto de encadeamento continuado. Bate na mesma tecla burocrática, anódina, inodora e cansativa de professor de uma matéria sobre a qual tem pouco conhecimento e nenhuma disposição de exercitar pontos de vista conflitivos.
Deixando claro: o novo artigo de Paulinho Serra utiliza-se de generalidade retórica sem alma e sem profundidade. Ganha, portanto, formato de manual de como pisar em ovos para seguir a trajetória de campanha eleitoral fora do tempo. Pisar em ovos é muito melhor que enfrentar ovos do contraditório. Paulinho Serra de Mais Gestão, Menos Polarização, é a tucanagem perfeita.
PRÁTICA DECEPCIONANTE
Portanto, Paulinho Serra não adotou por acaso o mote Mais Gestão, Menos Polarização. Esse é o resumo da ópera da operação de marketing que pretende vender ao distinto público a ideia furada de que Paulinho Serra é um bom gestor combinado com serenidade. Já escrevemos muito sobre isso, mas não custa repetir.
O desempenho de Paulinho Serra à frente da Prefeitura de Santo André durante oito anos foi uma calamidade estatisticamente comprovada em indicadores viscerais ao futuro que sempre chega.
Em todas as áreas, menos no marketing de invencionices, Paulinho Serra deu sequência ao passado de antecessores relapsos, principalmente em Desenvolvimento Econômico. Santo André perdeu mais de três dezenas de posições no ranking de PIB per capita no Estado de São Paulo nos primeiros cinco anos de dois mandados de Paulinho Serra já chancelados pelo IBGE.
Quem escreve sobre o assunto mais relevante da política e da economia brasileira nestes tempos e dispensa verbetes que estão em forma de feixe central das medidas, só quer mesmo exibicionismo.
MUITA INGENUIDADE
Circunscrever a disputa entre o governo brasileiro e o governo norte-americano a desarranjos tarifários é muita ingenuidade ou desconhecimento, para não dizer acovardamento. A questão é muito mais profunda e começou muito antes das medidas restritivas de Donal Trump.
De fato, e para valer, tem Oito de Janeiro como um dos gatilhos. Ou mesmo antes disso, quando da invasão do Capitólio. Sem contar a geopolítica, a geoeconomia e mesmo a macrocultura que têm norte-americanos e chineses como peças básicas.
A disputa pelo cargo de xerife mundial é latente e está no centro das operações norte-americanas. Tarifaços anunciados em todos os cantos do mundo e que se tornaram correção de rota de desequilíbrios históricos na balança comercial norte-americana são os braços visíveis e incômodos de estratégia. A nova configuração de relações comerciais do governo Trump faz de medidas tarifárias o carro-chefe do rompimento da sangria.
UM OUTRO MUNDO
A desglobalização pretendida por Trump para impedir que a riqueza norte-americana continue a esvair é o centro das operações. O Brasil é apenas um elo sem importância na balança comercial dos norte-americanos, mas essencial no enquadramento político de combate ao avanço chinês no continente, especialmente no território nacional.
A simpatia por Jair Bolsonaro faz parte do coquetel de medidas, tanto quanto a aproximação do governo brasileiro com regimes autoritários reunidos no BRICs. A mão pesada na aplicação da alíquota de 50%, mais tarde suavizada, a suspensão dos vistos de diferentes autoridades, bem como aplicação da Lei Magnitsky sobre Alexandre de Moraes , sinalizam que o tratamento será mesmo diferenciado.
Democratas e Republicanos estão unidos na formulação de legislação que pretende aferir detalhadamente a estrutura de invasão econômica chinesa no Brasil em várias atividades, especialmente no agronegócio. Poucos se ativeram ao noticiário que dá conta dessa iniciativa, publicada em jornais norte-americanos.
Tudo isso e muito mais tanto no ambiente doméstico quanto internacional foram banidos no novo artigo de Paulinho Serra. Paulinho Serra transmite sensação de idiotia a cada nova rodada de colunista.
MEXER PARA MUDAR
Paulinho Serra não se dá conta de que, no caso da disputa desigual entre governo brasileiro e governo norte-americanos, o que temos para o almoço e o jantar não é nada satisfatório e está longe de se encaixar no mote da coluna de pretenso equilíbrio típico de suposta sensatez entre os também supostos bárbaros extremistas.
Essa fórmula comprovadamente não deu certo. Tanto que a herança político-institucional é o que temos hoje. É melhor a esperança de um amanhã ainda incerto como reflexo de combates do que um novo amanhã que não passa do passado fracassado de falsos combates e privilégios mútuos. Muitas vezes, quando reparos parecem ser a única solução para alterar o rumo persistente de impropriedades, nada é mais transformador que tomar decisões à primeira vista contraproducentes.
Independentemente de juízo de valor sobre as razões que levam Donald Trump a botar lenha na fogueira de alterações nas regras do jogo econômico, os norte-americanos caíram na besteira de persistirem no erro que já se manifesta há muito tempo: a competitividade econômica com os chineses é um jogo deformado por natureza. O adversário, um Estado autoritário e violador de Direitos Humanos, usa, entre outros artifícios, a força de trabalho mal paga e desprotegida como espécie de tarifa monetária para dilacerar economias internacionais.
Segue o artigo de Paulinho Serra:
Nas últimas semanas, o chamado “tarifaço do Trump” contra o Brasil voltou aos holofotes e gerou preocupação legítima no setor produtivo, no comércio exterior e entre autoridades brasileiras. Mas é importante separar o alarmismo da realidade, sem perder a noção da gravidade do problema — e, principalmente, sem deixar que a polarização tome conta de mais um debate que deveria ser técnico, estratégico e nacional.
Vamos aos fatos. No início de julho, os Estados Unidos anunciaram a aplicação de tarifas de até 50% sobre uma série de produtos brasileiros. O impacto inicial parecia total, dando a entender que praticamente todas as exportações do Brasil para os EUA seriam atingidas. No entanto, ao longo das últimas semanas, houve ajustes e atualizações importantes.
Hoje, o cenário é o seguinte: cerca de 45% dos produtos brasileiros exportados aos americanos como laranja, petróleo, celulose e aeronaves, já foram retirados da lista, ou seja, estão fora do chamado “tarifaço”. Outros 20% estão incluídos em tarifas que valem para todos os países, não apenas para o Brasil — o que significa que não se trata de uma retaliação direta, mas de uma política comercial mais ampla dos Estados Unidos.
O ponto de atenção, portanto, está nos 35% restantes: essa fatia das exportações brasileiras para os EUA ainda corre risco real de sofrer tarifas elevadas. E não se trata de produtos secundários. Estamos falando de itens estratégicos, como café, carne, cobre e outros bens de alto valor agregado, que sustentam cadeias produtivas inteiras e afetam diretamente o agronegócio, a indústria e milhares de empregos no Brasil.
Ou seja: ainda que o tarifaço tenha sido parcialmente amenizado, o problema continua sendo grave. Esses 35% representam uma parcela muito relevante das exportações brasileiras para os Estados Unidos, que são um dos nossos principais parceiros comerciais. Qualquer restrição tarifária significativa pode desorganizar mercados, encarecer nossos produtos lá fora e, em última instância, impactar o bolso do produtor, do trabalhador e do consumidor aqui dentro.
Por isso, o momento exige menos discurso político e mais ação prática. Essa não é hora de buscar culpados ou de transformar o tema em munição ideológica. O que está em jogo é o interesse nacional, e o caminho para proteger esse interesse passa por gestão, diplomacia e diálogo técnico com o governo americano. O Brasil tem até o dia 6 de agosto para tentar reverter ou suavizar os efeitos desse tarifaço. É pouco tempo, mas é tempo suficiente para mostrar seriedade e competência.
É fundamental que o governo federal atue de forma coordenada, envolvendo o Itamaraty, o Ministério da Fazenda, o Ministério da Agricultura e representantes do setor privado. O Brasil precisa apresentar dados, construir pontes e deixar claro que qualquer barreira comercial injustificada não apenas prejudica o Brasil, mas também encarece produtos no mercado americano e pode comprometer relações históricas entre os dois países.
Além disso, é preciso lembrar que o comércio exterior é uma via de mão dupla. Se o Brasil for tratado como inimigo, é legítimo que também reavalie suas políticas comerciais. Mas essa retaliação não deve ser impulsiva — ela precisa ser estratégica, firme e responsável. O melhor cenário ainda é o do acordo. E ele só virá com maturidade.
Em tempos tão marcados por polarizações, é bom lembrar: não há lado político quando se trata da defesa dos interesses do Brasil. É preciso ter foco no que realmente importa: proteger empregos, garantir competitividade e manter canais abertos com quem, historicamente, foi nosso parceiro comercial. Mais uma vez, o recado é claro: menos política, mais gestão.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)