Que o leitor chegue mais perto destas letras, mas bem perto mesmo, e raciocine comigo: numa semana efervescente na política regional, com ressonância de abrangência nacional, em situação de desgarramento de um escândalo de proporcionais fluviais a partir do Paço de São Bernardo, o que o leitor escreveria fosse o leitor ex-prefeito decidido a transformar uma coluna em jornal num tratado sintetizado na frase-marca: “Mais Gestão, Menos Polarização”?
Pois saiba o caro leitor que a resposta é de luminosidade tão ofuscante que no caso, o colunista temporão, Paulinho Serra, candidato a deputado federal na próxima temporada de votos, resolveu escrever sobre a polêmica exposição e adultização de crianças nas redes sociais. Como assim? É isso mesmo.
Isso quer dizer sem rodeios de politicamente correto que Paulino Serra, presidente estadual do que restou do PSDB, permaneceu no muro da omissão deliberada. Não teve coragem alguma de meter a colher no assunto mais importante da região nos últimos tempos. Nada que não seja seu direito de sustentação política. Tanto quanto o meu direito de fazer as observações que se seguem.
MOTE CIRCUNSTANCIAL
Como se explica isso e, mais que isso, que Paulinho Serra continue a assinar uma coluna que, evidentemente, não escreve entre outras razões porque não tem talento para tal. E não ter talento para escrever não é pecado nenhum. Sei bem quem escreve a coluna. Trata-se de um estilo convencional, cuidadosamente a serviço dos pensamentos dos marqueteiros que embalam a carreira de Paulino Serra. Nada fora da normalidade do universo político, portanto.
Quem assina a coluna, entretanto, chega ao desplante de se tornar marionete temática que vai de acordo com os marqueteiros condutores de supostos condimentos técnicos sem relações com chamados extremistas à direita e à esquerda. Como se o centro político fosse diferente. Na maioria dos casos, eles, os centristas, são apenas mais cautelosos. Estão prontos para dar o bote quando as águas se mostrarem confiáveis à definição do mergulho.
Obrigatoriamente, até mesmo para provar que está atento ao mote da coluna que assina no Diário do Grande ABC, “Mais Gestão, Menos Polarização”, Paulinho Serra teria obrigação ética de contrapor à escolha do título, em situação mesmo que circunstancial , um novo mote, em apoio às ações da Policia Federal. “Mais Gestão, Menos Corrupção” é uma frase-símbolo muito mais aguda à preferida pelos marqueteiros. A iniciativa após o afastamento do prefeito Marcelo Lima, de São Bernardo, (e as acusações que apanharam um monte de participantes do esquema de irregularidades comprovadamente robustas) não ofereceriam alternativa mais coerente com o mote proposto.
QUESTÃO COMPORTAMENTAL
Jamais alguém poderá atribuir desconhecimento de Paulinho Serra não do caso policial em si, mas sobre o principal agente público colhido pela Operação Estafeta. Paulinho Serra como Marcelo Lima, entre tantos outros, compõem o que chamo desde algum tempo do grupo de territorialistas direta e indiretamente ligados à nova composição do Clube dos Prefeitos.
Regionalistas eles não são e jamais o foram, porque a missão de regionalizar é muito mais nobre. Territorialistas olham para o próprio umbigo e pretendem controlar todos os cordéis políticos, econômicos e socias do Grande ABC. Regionalistas têm desprendimento, sonhos e ambições que se espalhariam à sociedade como um todo.
O silêncio de Paulinho Serra sobre a Operação Estafeta não é surpreendente. Muito pelo contrário. Se há algo sobre o qual o ex-prefeito de Santo André não pretende dizer e tem raiva de quem diz ou escreve, é sobre bola dividida. Na dúvida, nada melhor que a adultização como ferramenta de dissuasão. E, pior que isso, adultização transformada em ferramental pressupostamente de suporte à tese de “polarização” política quando, de fato, a gênese está no comportamento social disseminado pela Internet. O restante é consequência, sem definição clara de polarização. O tema em si é ecumênico em reprovação. Ou seja: não é preciso ser de direita nem de esquerda para se definir sobre os abusos que veem de longe.
BOM PARA O CURRÍCULO
À falta de coragem para enfrentar o escândalo em São Bernardo e na região (não se pode esquecer que a operação foi regionalizada, porque os criminosos são adeptos de ações que rompem fronteiras municipais), Paulinho Serra invadiu uma seara que, como gestor público, como Executivo ou parlamentar, tanto ele quanto os mais próximos que estão em posição de poder de votos, jamais se dignou a frequentar.
Agora, oportunisticamente, salta do barco da irrelevância às aguas de condenação dos malfeitores sabendo que sabe que as águas em questão são águas mansas, potencialmente vigorosas durante campanhas eleitorais.
Acrescentar ao currículo o propagandismo de aversão aos delinquentes da Internet que usam e abusam de crianças e jovens sempre será uma peça comovente. Mesmo que nenhuma campanha tenha feito nas escolas públicas do Ensino Fundamental numa das maiores cidades paulistas.
GINECOLOGIA E FUTEBOL
Me ocorre uma analogia para ficar mais compreensível a atitude de alheamento deliberado de Paulinho Serra sobre o escândalo denunciado pela Política Federal e a troca de uma pauta obrigatória por uma pauta ocasional.
A sensação é de que, supostamente, sendo médico ginecologista num congresso de especialistas, cuja proposta é humanizar as relações entre profissionais e pacientes, simplesmente, ele ginecologista, altera a pauta do conclave diante da informação de que um dos participantes do encontro fora denunciado com provas abundantes como infrator do código de ética profissional. A pauta se alterou. Decidiu, o chefe do encontro, colocar como temática emergencial a influência da torcida organizada do São Paulo no destino da equipe na Taça Libertadores da América.
COLUNA DO PAULINHO
A coluna do político Paulinho Serra, que segue abaixo, é exatamente isso: a força tricolor dissuasiva à temática obrigatória para quem defende “Mais Gestão, Menos Polarização”.
Nos últimos dias, um vídeo publicado pelo YouTuber Felca acendeu um debate que não pode ser ignorado: até onde vai e como deve ocorrer a exposição de crianças nas redes sociais?
A discussão ganhou força não apenas pela polêmica em si, mas pelo alerta que traz sobre os riscos da internet para menores de idade — riscos que continuam presentes mesmo quando, aparentemente, eles estão “seguros” dentro de casa.
A internet é um espaço de oportunidades, mas também de ameaças. Quando envolve crianças, o perigo se multiplica: exploração sexual, aliciamento, bullying, uso indevido de imagem, entre outros crimes graves. No caso levantado pelo vídeo, a preocupação se amplia pela ligação com temas sensíveis como pedofilia e a difusão de conteúdo criminoso. E é justamente aí que precisamos ir além da indignação momentânea: discutir o que vem depois.
Precisamos falar de regulamentação!
Hoje, uma boa parte do que circula online fica em um espécie de “limbo jurídico”. Não está claro quem deve responder: o usuário que publicou; a plataforma que permitiu a circulação ou ambos? Essa indefinição enfraquece a responsabilização e favorece a impunidade. Afinal, Perguntas essenciais continuam sem resposta prática: o que é aceitável na rede; o que configura crime e Até onde vai a liberdade de expressão quando se trata da proteção de menores?
Não se trata de censura, mas de proteção. Criar regras mais objetivas significa evitar que a liberdade de expressão seja usada como escudo para a prática de crimes. É garantir que crianças, que ainda não têm meios para se defender, estejam resguardadas por uma legislação eficaz. O dilema: novas leis ou aplicação das existentes?
O Brasil já possui dispositivos legais que tratam de crimes virtuais e da proteção da criança e do adolescente. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Lei Carolina Dieckmann e o Marco Civil da Internet são exemplos. Mas na prática, muitas vezes falta capacidade de aplicação: Investigações demoradas; Falta de preparo técnico de autoridades; Dificuldade de cooperação com empresas de tecnologia; Morosidade judicial entre outros.
A dúvida, portanto, é legítima: precisamos de leis mais duras ou de mais eficácia na aplicação das que já existem?
Talvez a resposta esteja no meio-termo — atualizar normas para o ambiente digital atual e, ao mesmo tempo, investir na capacidade de investigação e punição.
Gestão antes da polarização
Infelizmente, debates como esse muitas vezes acabam capturados pela polarização política “violenta” que vivemos hoje. Em vez de buscar soluções concretas, o tema vira palanque ideológico. E quando isso acontece, perde-se tempo valioso — e, no caso de crimes contra crianças, cada minuto conta.
É hora de abandonar a lógica do “quem está certo ou errado” com base em bandeiras partidárias. O que precisamos é de gestão eficiente, com ações coordenadas entre governo, plataformas, especialistas em segurança digital e sociedade civil.
Isso inclui: Criação de protocolos claros de remoção de conteúdo ilegal; Investimento em tecnologia de detecção automática; Treinamento de autoridades policiais e judiciais; Campanhas de conscientização para pais e responsáveis.
A conversa que precisa acontecer
Essa discussão não é um capricho ou uma pauta de momento. Ela envolve o direito fundamental de crianças e adolescentes a uma vida segura, inclusive no ambiente digital. E esse direito precisa estar acima de disputas políticas.
Por isso, é fundamental que todos — pais, educadores, legisladores, empresas de tecnologia e usuários — participem desse diálogo. O objetivo deve ser único: proteger quem ainda não pode se proteger sozinho. O importante é não ficarmos inertes. Porque quando se trata da segurança das nossas crianças, cada dia sem ação é um risco que não podemos correr.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)