Imprensa

DEBATE VIRTUAL COM
PAULINHO SERRA (10)

DANIEL LIMA - 25/08/2025

Em nome da sensatez e de outras bases éticas que preencheriam todas as letras do dicionário da Língua Portuguesa com relação direta ou indireta de respeito aos leitores, o dono do Diário do Grande ABC precisa tomar a providência de suspender o colunista temporão Paulinho Serra das páginas do jornal. “Mais Gestão, Menos Polarização” é uma abstração. Desde a primeira edição. Mas está cada vez pior, como se pode observar logo abaixo no texto publicado na edição de ontem do jornal.

Estará redondamente enganado o leitor que botar na cabeça eventual viés discricionário, preconceituoso e equivalências ao me manifestar nos termos expostos acima somente porque Paulinho Serra não é jornalista. Seria uma aberração essa constatação. Mais ainda se partir de gente que conhece este jornalista.

Desde sempre defendo que especialistas participem ativamente dos meios de comunicação. Sem especialistas de verdade não há compreensão do mundo em que vivemos. Paulinho Serra não é especialista no que pretende ser, mas isso é perdoável. Todos carregamos carga imensa de mediocridades. Por isso é preciso ser inteligente o suficiente para não torná-las públicas.

CONSELHO EDITORIAL

Quando diretor de Redação do Diário do Grande ABC há 20 anos, sem contar o período anterior, criei um Conselho Editorial com 101 participantes da sociedade. Todos seriam não só consultados permanentemente pelos jornalistas como também se manifestariam em artigos. Só não levei a cabo após a posse do coletivo num Teatro Municipal de Santo André lotado porque a transparência implícita na proposta documentada foi para o espaço com minha demissão. O resto é história que a realidade desnuda.

Portanto, não vejam fantasmas na proposta ao dono do Diário do Grande ABC para que exclua o político  Paulinho Serra da condição de colunista. Ou o mantenha, desde que sob ótica diferente do mote selecionado para caracterizar o trabalho fundamentado em marketing eleitoral.

Ronan Maria Pinto deveria mesmo aproveitar a oportunidade que se apresenta, de relações estremecidas com Paulinho Serra, como escrevi ainda há algumas horas, e tomar a providência. Ninguém poderá alegar que, ao suspender a coluna,  Ronan Maria Pinto estaria retaliando o político Paulinho Serra por força da indisposição no relacionamento mais que comprovadamente estressado entre eles. Ronan Maria Pinto poderia alegar que a coluna de Paulinho Serra é incongruente com os termos com que foi definida e lançada às páginas do jornal. Como, aliás,  já expliquei em outras edições e vou repetir em seguida. Com isso, Ronan Maria Pinto ouviria este ombudsman que já foi ombudsman e diretor de Redação do jornal com ele, Ronan, no controle acionário da publicação.

INCONGRUÊNCIAS

O problema todo é que Paulinho Serra não é especialista em gestão pública, embora tenha passado oito anos à frente da Prefeitura de Santo André, Pior que não ser especialista, Paulinho Serra não tem a mínima aptidão para escrever. O que não é uma obrigação de ninguém. Pior ainda é que Paulinho Serra não sabe praticamente nada sobre o que subscreve formalmente ao se meter no tarifaço trumpista.

Vou tentar explicar o que se passa. Desde o começo da série,  Paulinho Serra não sustenta o conceito de “Mais Gestão, Menos Polarização”. Já escrevi sobre isso nesta série de debate virtual. O pressuposto do mote criado por marqueteiros para colocar ou manter Paulinho Serra como símbolo de resguardo político-social num País cada vez mais efervescente entre direita versus esquerda é insustentável. Afinal, o que menos temos no País como um todo é gestão da coisa pública como contraponto compensador aos extremismos políticos.

Primeiro, porque só chegamos ao estágio que se consolidou nos últimos anos no País por conta disso. E não seria o receituário de um prefeito que durante oito anos foi intolerante com a oposição comportada, quando não acovardada, a ponto de, com seu grupo, eliminar os adversários num processo de imperialismo municipalista que se pretende também regionalista, que Paulinho Serra será capaz de servir de inspiração a quem quer que seja.

FASE TERMINAL

O meio termo que se apresenta como o barco de salvação entre a direita barulhenta e questionadora e esquerda atabalhoadamente defensiva não será o tucanismo  em fase terminal. E os tucanos só estão desaparecendo do mapa político e eleitoral por conta da inapetência de conjugar trajetória harmoniosa e produtiva. Uma harmonia tão fina que, em parceria com o PT,  num duelo de falsidades e arranjos, colocou o Brasil fora da órbita de desenvolvimento econômico e social comparativo aos países emergentes.

Ocupamos a posição 90 no ranking do PIB per capita, enquanto os falseadores semânticos fazem cálculos trambiqueiros de que estamos entre os 10 primeiros. Desconsideram a demografia como fator essencial ao entendimento e à compreensão da hierarquia internacional. Paulinho Serra à frente de Santo André assistiu à queda permanente no ranking paulista. Foram 34 posições apenas nos cinco primeiros anos já contabilizados.

Em segundo lugar, a forma com que Paulinho Serra se manifesta nas páginas do Diário do Grande ABC é postiça. Paulinho Serra não sabe escrever jornalisticamente. O papel é cumprido por terceiro, de identidade que me é conhecida. Mas, nesse caso, nada demais. Afinal, não faltam canetas de aluguel não necessariamente para intervenções pecaminosas. Assessoria de imprensa existe para isso e muito mais. É a uma ramificação do jornalismo com viés específico.

Assinar uma coluna sem que a tenha redigido faz parte do marketing político em geral. O desmascaramento sempre chega, sobretudo quando os holofotes de gravações em vídeo se apresentam. Aí o bicho pega.

DESCARTÁVEL

O pior mesmo está na terceira questão que torna a coluna de Paulinho Serra completamente descartável. O que temos lido parece sempre retirado de manuais de pronta entregue, delivery mesmo, supostamente professorais, mas, quase sempre, sem qualquer ligação direta ou mesmo indireta com o âmago do mote anunciado na coluna, ou seja, “Mais Gestão, Menos Polarização”.

O tarifaço de Trump é um exemplo disso. Geopolítica, geoeconomia e outros condimentos de um mundo multilateralista são ingredientes típicos de uma nova dinâmica mundial. As fórmulas conciliatórias de araque entraram em parafuso após penalizarem os contribuintes e empreendedores com cargas tributárias aviltantes. A Internet tratou de botar fogo na canjica insurrecional ao emergir a direita conservadora.

O Estado perdulário e ineficiente já não se sustenta mais como estrutura de modulação da sociedade planetária. Os sacolejos estão aí, empesteados de vieses, exageros e contradições. Um cenário de aparente caos que, entretanto, é muito mais salutar que o domínio de uma agenda exploradora que sempre contou com o suporte da chamada Velha Imprensa.

O Estado precisa de reforma, sobremodo onde o Estado é associado à fome voraz por tributos e iniquidades sociais comparativas. Se pensou no Brasil, acertou em cheio. Mas há infinidade de endereços internacionais mais nobres que atingiram o nível suportável de tributação.

O que se segue é a coluna de ontem de Paulinho Serra no Diário do Grande ABC. Nada, nada mil vezes nada com a ancoragem conceitual anunciada como marca exploratória do projeto pasteurizador de um jovem político da velha guarda populista. 

O tarifaço do Trump (parte 3)

Desde o anúncio das tarifas de 50% contra o Brasil, o tabuleiro mudou – mas não o suficiente para devolver previsibilidade às cadeias de comércio. A Casa Branca publicou a ordem executiva em 30 de julho, com vigência a partir de 6 de agosto, e incluiu uma cláusula que permite elevar ainda mais as tarifas caso o Brasil retalie. Ou seja: a escada da escalada continua montada.  

Houve, sim, avanços. Quase 700 NCMs foram exceptuados do aumento: suco e polpa de laranja, combustíveis, minérios, fertilizantes e aeronaves civis (peças e motores) permaneceram fora do novo patamar. Ainda assim, produtos emblemáticos como café, carnes e frutas tropicais ficaram dentro do “tarifaço”, hoje no alvo do acréscimo de 50%.  

O alívio parcial não significa impacto pequeno. Estimativas apontam que cerca de 36% do valor das exportações brasileiras aos EUA segue afetado, mesmo após a lista de exceções. Além disso, análises independentes calculam que as isenções alcançam aproximadamente 42% do volume exportado, o que explica a sensação de “meia vitória” na indústria: importante, mas insuficiente.  

No front diplomático, o Itamaraty afirma negociar desde março e credita a esse esforço a retirada de centenas de itens da alíquota de 50%. Em paralelo, o governo decidiu não retaliar de imediato e lançou um pacote de suporte de cerca de R$ 30 bilhões em crédito (via BNDES/FGE), desoneração e compras públicas para setores mais expostos – um colchão para atravessar a turbulência enquanto se busca acordo. Também entraram na mesa tratativas setoriais, como etanol.  

Outro eixo crucial é jurídico-regulatório. Em 18 de agosto, o Brasil encaminhou resposta formal à investigação aberta pelos EUA sob a Seção 301, rebatendo acusações de “práticas desleais”, defendendo o Pix e contestando a legitimidade de instrumentos unilaterais fora da OMC(Organização Mundial do Comércio. É um passo que organiza argumentos e dá lastro às próximas rodadas de negociação – tanto técnicas quanto políticas.  

Há também a frente judicial nos EUA. Em 28 de maio, a CIT (Corte de Comércio Internacional) considerou ilegais tarifas baseadas no Ieepa (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, na sigla em inglês); no dia seguinte, porém, o Tribunal de Apelações suspendeu a decisão, mantendo as tarifas enquanto julga o mérito. Em suma: existe uma incerteza jurídica real, mas, por ora, o custo continua aparecendo na fatura das empresas. 

Os principais gargalos permanecem concentrados em café e carne bovina – dois itens com peso econômico e simbólico nos dois mercados – e em temas conexos (etanol, pagamentos, propriedade intelectual) que orbitam a investigação 301. A tensão política ganhou mais camadas com sanções dos EUA a um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), o que contaminou o clima e encareceu concessões. Até reuniões bilaterais foram canceladas no auge da crise. Nada disso ajuda a fechar um entendimento técnico.  

O que falta, então? Primeiro, transformar o “mapa de exceções” em um cronograma de alívios adicionais com metas setoriais mensuráveis – por exemplo, discutir quotas tarifárias para café e carne, com revisões trimestrais, enquanto se aperfeiçoam regras sanitárias e de rastreabilidade. Segundo, amarrar um pacote recíproco no etanol (acesso/mandatos), evitando que tarifas empurrem os fluxos para rotas ineficientes. Terceiro, blindar o Pix e a economia digital com compromissos de não discriminação e cooperação regulatória, reduzindo o espaço de medidas unilaterais sob 301.  

Por fim, dois lembretes estratégicos. No curto prazo, a rota multilateral (consultas na OMC) dá previsibilidade e cria incentivos para soluções negociadas. No bilateral, convém evitar “gatilhos” – a própria ordem executiva prevê aumentar tarifas se o Brasil retaliar – e priorizar vitórias concretas para quem produz e consome. É a agenda de sempre: mais gestão, menos polarização. Em crises comerciais, pragmatismo não é opção estética; é o único caminho para reduzir dano, recuperar confiança e reabrir mercado.



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