Imprensa

DEBATE VIRTUAL COM
PAULINHO SERRA (13)

DANIEL LIMA - 15/09/2025

Acho que está imperdível a 13ª edição desta série que se apresenta como compulsório contraponto à coluna que o politico Paulinho Serra escreve todos os domingos no Diário do Grande ABC. Até agora (e fiz essa contagem na semana passada) já foram produzidos mais de 150 mil caracteres, somando-se os textos assinados pelo ex-prefeito de Santo André e este jornalista. São 80 páginas de um livro de tamanho padrão. Pelo andar da carruagem, tudo indica que vamos longe. Paulinho Serra não cessa a metralhadora de intenções edulcoradas que não combinam com a prática de oito anos de dois mandatos à frente da Prefeitura de Santo André. Sob o título “Não é sobre política...”, Paulinho Serra faz incursão no caso do assassinato do influenciador norte-americano que, diferentemente de Paulinho Serra e de tantos políticos, e independentemente de juízo de valor do perfil da vítima, não leva a sério e para valer o princípio de enfrentamento de ideias que levem a contraditórios férteis. Tanto tenho razão que a origem desta série de debate virtual, pegando carona que pego nos escritos de Paulinho Serra no Diário do Grande ABC, só se dá porque o mesmo Paulinho Serra fugiu (mais uma vez) de debate convencional proposto por este jornalista. Paulinho Serra preferiu pedir socorro às páginas do jornal. No texto que se segue, proponho outro novo mote para a coluna de Paulinho Serra. Ao invés de “Mais Gestão, Menos Polarização”, seria providencial “Mais Democracia, Menos Submissão”. 

PAULINHO SERRA 

O assassinato do influenciador norte-americano Charlie Kirk, ocorrido nos Estados Unidos, é mais um episódio que nos obriga a refletir sobre os rumos da política e da convivência social em escala global. Trata-se de um fato trágico, que não pode – em hipótese alguma – ser naturalizado. A perda de uma vida humana não pode ser reduzida a disputas partidárias ou ideológicas. Este não é um debate sobre direita ou esquerda, situação ou oposição: é, acima de tudo, sobre humanidade, civilidade e respeito. Durante minha experiência à frente de uma cidade com mais de 700 mil habitantes, aprendi que a boa gestão não é apenas sobre números, obras ou indicadores sociais. É também, e sobretudo, sobre criar um ambiente em que as pessoas possam viver em paz, protegidas de uma lógica destrutiva que transforma divergências em trincheiras. Em Santo André, com uma equipe dedicada e focada, conseguimos blindar a cidade de parte da guerra ideológica que contaminava o cenário nacional. E esse foi um dos maiores legados: provar que é possível fazer política sem transformar a política em guerra. 

CAPITALSOCIAL 

O colunista Paulinho Serra profana a realidade de Santo André ao autoproclamar-se senhor da paz, do humanismo e do respeito. A história é bem outra, quando o colunista Paulinho Serra passa pelo corredor do prefeito Paulinho Serra, prefeito que foi por oito anos. A Santo André de Paulinho Serra não fugiu ao padrão criminal do País e também ao ambiente de polarização política nacional. Dados empíricos comprovam que o ambiente criminal em Santo André não contou com efetiva eficiência de ações públicas. O Campeonato Brasileiro de Competitividade Municipal, que acaba de ser atualizado pela Centro de Liderança Pública, aponta que, ano passado, último de dois mandatos de Paulinho Serra, Santo André terminou na posição 212 a disputa entre 418 municípios nacionais com mais de 80 mil habitantes. No campo ideológico, é pretensão demais de Paulinho Serra alardear que blindou Santo André da pandemia internacional de maus tratos políticos e sociais em forma de polarização. É uma anedota sem graça. Significaria, pela intensidade da estultice, sugerir que Santo André também teria resistido ao Coronavírus, que, como se sabe, encontrou no Município um dos piores indicadores nacionais. Parece não haver limite ao delírio do conceito de “Mais Gestão, Menos Polarização” ditado por marqueteiros de Paulinho Serra. O ambiente político-partidário em Santo André viveu durante a última década nada mais que uma sensação de anorexia democrática. O grupo de interesses que sustentou no poder um  multipartidarismo de araque destroçou adversários com medidas imperialistas em todas as áreas. Um grupo territorialista que sempre contou, para tanto, com a omissão da maioria da sociedade local, inebriada pelas disputas federais e estadual  ou correndo atrás do prejuízo de resiliência econômica numa cidade que desabou mais uma vez no ranking de PIB per capita. Santo André não manietou a polarização mencionada pelo colunista temporão. Santo André viveu dupla face destrutiva no período do prefeito Paulinho Serra que o colunista Paulino Serra finge não enxergar. Temos um governo municipal monopolista e arbitrário e um ambiente também municipal semelhante ao que se verifica no País como rescaldo do que os incompetentes andaram fazendo com a democracia brasileira nos últimos 40 anos. 

PAULINHO SERRA 

Infelizmente, a realidade mostra que, quando a polarização extrema toma conta, ela não atinge apenas os discursos nos palanques ou nas redes sociais. Ela invade lares, dissolve amizades, fragmenta comunidades. O ódio se infiltra no cotidiano e passa a pautar decisões individuais e coletivas. Quando isso acontece, todos perdem. O Estado perde sua capacidade de mediar conflitos. A sociedade perde sua coesão. E as pessoas, no dia a dia, perdem a confiança no diálogo, substituindo-o pelo medo e pela intolerância. 

CAPITALSOCIAL 

A assertiva de Paulinho Serrasobre os estragos dos extremismos é absolutamente correta, lamentável, condenável, mas falta um dente na engrenagem explicativa, exatamente um dente indispensável. No caso nacional, e fiquemos só no caso nacional, tudo isso é consequência do desencanto econômico e social herdado do modelo de gestão pública, principalmente, ao tratar os contribuintes com desprezo, transformando-os em pagadores de impostos com parcos direitos compensatórios e, mais que isso, entorpecendo a corrente de mobilidade econômica com aparatos coercitivos às atividades produtivas. O caldo de cultura que desabou em forma de extremistas também é resultado de um centrismo político de ocasião e egoísta, quando não covarde. São políticos que flertam nos bastidores e  demonizam externamente, por conveniência, a adesão às extremidades para se protegerem da herança maldita de uma democracia falsificada. 

PAULINHO SERRA 

A democracia se sustenta no direito de discordar. É natural – e até saudável – que ideias, projetos e visões de mundo se enfrentem em debates intensos. Esse é o espírito democrático: permitir pluralidade, dar voz às diferenças, garantir a convivência entre pensamentos opostos. Mas quando a divergência se converte em violência, ultrapassamos a fronteira que nos separa da barbárie. Normalizar a violência política significa abrir mão daquilo que nos torna humanos. 

CAPITALSOCIAL 

A Administração de Paulinho Serra à frente de Santo André foi uma sucessão de violência institucional dissimulada ao perseguir quem ousasse contrariar os donos do poder municipal. A oposição foi aniquilada ou capturada. A orquestração de mandachuvas e mandachuvinhas foi arrasadora. A governabilidade não se deu com a interatividades entre opostos. A submissão ou o afastamento de quem pensava diferente tornou-se regra. Normalizar a violência política vestida de submissão incondicional sempre carrega no bojo uma prestação de contas que o futuro cobra. Por conta de realidade  comprovadamente histórica de mandonismo nos oito anos de Paulinho Serra, caberia um contraponto ao mote da coluna do Diário do Grande ABC (“Mais Gestão, Menos Polarização”) na forma de “Mais Democracia, Menos Submissão”. 

PAULINHO SERRA 

Na minha trajetória como gestor, constatei que as melhores soluções sempre nascem do diálogo. Projetos importantes para a cidade só avançaram porque ouvimos, negociamos, construímos consensos. Isso é verdade no Brasil, nos Estados Unidos, em Gaza, na Ucrânia ou em qualquer outro lugar onde o conflito ameaça a vida das pessoas. O caminho não é o confronto, mas a mediação; não é a imposição, mas a construção coletiva. 

CAPITALSOCIAL 

O que Paulinho Serra chama de mediação à frente da Prefeitura de Santo André, não custa repetir, jamais passou de imposições ditadas pela supremacia de quem ocupava o cargo e com isso sufocava qualquer movimento em contrário. Contou para tantos com o ambiente político federal que permanece prevalecente com  disputas encardidas,  inclusive com a participação de instância do Judiciário que vai muito além de prerrogativas constitucionais, quando não as aviltam. Também em Santo André, todos os escândalos, potenciais e consumados, jamais encontraram um roteiro de soluções que se diferenciasse da média de impunidade do País. Há um concerto municipal combinado com agentes políticos principalmente estaduais que mata no peito todos os problemas fora da ordem geral de controle absoluto. O Clube dos Prefeitos foi sacudido com duas deserções, de São Bernardo e de São Caetano, justamente por conta de desarranjos com o titular da instituição, Paulinho Serra. 

PAULINHO SERRA 

O episódio envolvendo Charlie Kirk deve servir de alerta não apenas aos norte-americanos, mas ao mundo inteiro. Não podemos aceitar que divergências políticas se transformem em justificativas para a eliminação física do outro. A vida humana é sagrada, sempre – independentemente de qualquer diferença de opinião. É isso que deve nos unir como civilização. Afinal, por trás de ideologias, partidos ou governos, existe um desejo comum que ultrapassa fronteiras: garantir que nossos filhos e filhas cresçam em paz, em sociedades mais justas, seguras e humanas. Por isso, ao refletirmos sobre esse crime brutal, precisamos reafirmar valores básicos que não podem ser relativizados: a dignidade da vida, o respeito ao próximo, a convivência democrática. Não se trata de defender este ou aquele lado, mas de defender a própria ideia de civilização. Porque, no fim das contas, todos nós queremos viver em um mundo onde o futuro não seja definido pela violência, mas pela capacidade de dialogar e construir juntos. 

CAPITALSOCIAL 

O oportunista pregador da paz travestido de colunista deveria dar uma espiadinha no passado recente que passou e fixar a memória naquele dia do chega prá-la no vice-prefeito e candidato de oposição à Prefeitura de Santo André. Luiz Zacarias foi vítima de cotovelada e frase típica de dedo médio de ministro do Supremo Tribunal Federal. O flagrante ocorreu quando Luiz Zacarias tentou se aproximar do governador Tarcísio de Freitas, em visita a Santo André. Gravações do entrevero colheram Paulinho Serra em flagrante delito. O que se pergunta é o que poderia ter ocorrido caso Luiz Zacarias não fosse homem de paz e resolvesse devolver a discreta agressão física e a frase saída de um prefeito com sangue nos olhos. Não é despropósito sugerir como seria o comportamento de Paulinho Serra no escurinho do cinema. O Paulinho Serra candidato a Mahatma Gandhi que aparece como comentarista do caso da morte do influenciador norte-americano o remete a possibilidade de criar-se um júri de especialistas inspirados no Prêmio Belfort  Duarte, destinado a raros jogadores que durante  10 anos seguidos jamais cometeram indisciplina a ponto de serem expulsos de campo. O que fariam esses especialistas? Ora, reservariam a Paulinho Serra, após a histórica coluna de ontem do Diário do Grande ABC, a medalha do Prêmio de Mérito Político,  como síntese de Civilidade,   de Humanismo e Respeito Político. Chamem Luiz Zacarias para a entrega.   

Pensei inicialmente em sugerir o Prêmio Júnior Baiano como símbolo da atuação de Paulinho Serra. Descartei porque o assunto é política. Pensei, nesse caso, em vários outros nomes, agora de políticos não exatamente relacionados à memória de Belfort Duarte. Aos não versados em futebol: Júnior Baiano foi  um zagueiro do futebol brasileiro que poderia também ter sido um boxeador ou algo assemelhado porque exercitava a cada partida um festival de deslealdades físicas que, nos tempos atuais, o eliminariam de todos os jogos caso o VAR fosse acionado. 

Confesso que não seria justo comparar Paulinho Serra com qualquer atleta ou político abrasivo. Paulinho Serra é de outra categoria. Um tucano que se preze não carrega na bagagem pública os ônus do lulismo e do bolsonarista. Não à toa, Paulinho Serra os execra diante dos eleitores. Apenas diante dos eleitores.  



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