Há trágica simetria envolvendo o Grande ABC e o Diário do Grande ABC. Nada mais natural e inquietante. São metades da mesma laranja econômica e social. Nesta série que começa hoje, vou contar em potenciais duas dezenas de capítulos minha experiência tanto territorial quanto editorial naquela empresa. E isso vai muito além do plano individual. É sociologia pura, além de economia, de demografia. Essas coisas todas. O saldo geral, apesar dos pesares, é positivo. Afinal, temos uma região sem regionalidade para valer, mas temos uma região com marcas a cultivar. Quantas periferias metropolitanas não passam de disformes periferias metropolitanas? O papel do jornal explica muito sobre o que somos e o que deixamos de ser.
Não há individualidade profissional que resista à permeabilidade de área tão sensível como a Comunicação. A plasticidade do ecossistema social em que se está inserido é automática. Uma ascensorista pode ouvir coisas cabeludas entre um andar e outro. No jornalismo, não há limites. E basta saber filtrar para jogar fora o que é dispensável e armazenar o que pode fazer a diferença para explicar o que muitos não veem nem ouvem.
Grande ABC e Diário do Grande ABC fazem dueto compulsório, harmônico e congruente, preocupantemente congruente. Dediquei 26% de minha carreira no Diário do Grande ABC. Ocupei todos os cargos possíveis. Vivi experiências extraordinária. Tudo isso em forma de Barcaça da Catequese, que vai navegar em datas aleatórias. Barcaça da Catequese é a âncora editorial dessa empreitada. Duvido que matem essa charada.
MESMA RITUALIDADE
Precisei de muita reflexão para chegar à expressão Barcaça da Catequese finalmente concebida. Uma expressão que tem tudo a ver com o Complexo de Gata Borralheira da região. Uma enfermidade cultural sobre a qual escrevi um livro no começo deste século. E que é tema permanente de minhas análises.
Um aviso aos acompanhantes da Barcaça da Catequese que não enxergam um palmo de regionalidade na frente do nariz: o que esta série mostrará é que quem mora no Grande ABC ou trabalha no Grande ABC está incluído diretamente ou não no que se seguirá.
O Grande ABC deixou de ser usina de mobilidade social associada à indústria automotiva. Viramos uma Detroit à Brasileira. Tudo tem um sentido. Tudo tem explicações. E não há como driblar o paralelismo entre os sete municípios e o Diário do Grande ABC nessa jornada de seis décadas.
Não será nada desafiador tornar fatos aparentemente desconexos entre si em fatos organicamente explicativos. Pegue o desabamento do jornalismo do Diário do Grande ABC e o associe à catástrofe que abateu a indústria do Grande ABC. Pegou? Agora adicione efeitos colaterais, quando não metástases irrefutáveis. Resultado? Temos uma sociedade em transe a partir de meados dos anos 1990. Este século tem sido cruel. E vai piorar para o jornalismo regional e também para a Economia regional. Revolucionamos o conceito de subúrbio ao longo dos anos, mas retrocedemos.
COLEGUINHAS INSPIRADORES
O que vivi diretamente nos 16 anos de Diário do Grande ABC e durante os demais períodos como jornalista privilegiado de continuar no Grande ABC está diretamente relacionado às memórias que produzirei. Tanto no exercício das atividades na Rua Catequese como também na circunvizinhança do mesmo endereço da Rua Catequese, na condição de voyeur crítico. Com tudo isso, posso organizar as ideias e das ideias partir para a prática de avaliações sem achismos.
Tudo isso já começou. Pretendo chegar ao porto seguro de esmiuçamento analítico que resgatará duplamente a história da região e do jornal que durante décadas sustentou liderança no noticiário. Diferentemente, portanto, do que temos nos últimos tempos de revolução tecnológica e as maquinhas portáteis diabólicas.
A origem desse trabalho está num grupo de WhatsApp. Participo do “Coleguinhas”, reunião virtual de ex-profissionais do Diário do Grande ABC. Cada um deles com muita história para contar.
Decidi partir para uma carreira solo sobre minha experiência no Diário do Grande ABC (é disso que se trata) como ramal de individualidade mais liberada e também mais profunda do que os limites naturais dos integrantes daquele grupo. A ideia inicial de coletivização não tem dono. Todos em algum momento imaginaram reunir depoimentos sobre os anos que passaram na Redação do Diário do Grande ABC.
SIMPLIFICAÇÃO
Como acredito que a formulação coletiva vai exigir movimentos mais complexos, e como ações coletivas são sempre mais demoradas na definição de regras, decidi partir para o ataque. É claro que espero dar minha contribuição individual ao incentivar ainda mais a definição de um livro com depoimentos dos jornalistas do “Coleguinhas”.
Como uma coisa não exclui outra coisa e como outra coisa incentiva uma coisa, creio que após esse primeiro capítulo o ritmo à aprovação do livro do “Coleguinhas” ganhará tração especial. E será excelente. Tenho curiosidade em devorar cada parágrafo dos profissionais que, somados, contabilizariam algo como mil anos de Diário do Grande ABC.
Entre os capítulos que pretendo explorar numa junção de experiencia profissional propriamente dita e contexto sociológico, não poderia descartar a importância do Diário do Grande ABC durante muito tempo como fonte inesgotável de sensibilização da sociedade.
A classe média formadora de opinião e os tomadores de decisões seguiram a partitura do Diário do Grande ABC. Talvez nem os próprios jornalistas que lá estiveram em períodos semelhantes ou não tenham consciência de que deixaram uma viuvez intelectual, por assim dizer, que se acentua a cada dia.
AGENDA AMPLA
É uma pena que diante de tantas transformações pelas quais passa o mundo como um todo e o Grande ABC especificamente, chegamos a uma situação de quase orfandade que vai além de riquezas materiais e mesmo culturais, e invade o terreno de um contrato da sociedade com o futuro.
Fiz uma listagem preliminar de temáticas a explorar nesta série. Acho que tenho anotações demais. E que ainda poderiam aumentar, porque uma coisa chama a outra. O Grande ABC é o maior laboratório vivo de mudanças sociais nos últimos 50 anos. Entenda mudanças sociais como o conjunto da obra de apressada ocupação demográfica. O florescimento econômico pujante proporcionou bônus e ônus em qualidade de vida.
Nossas riquezas nasceram com a frondosa proteção de um capitalismo beneficiário do Estado e a chegada das montadoras de veículos, e, contraproducentemente, começaram a sucumbir sob o peso de um capitalismo de Estado cruelmente pragmático, para não dizer descuidado.
PONTAS CRONOLÓGICAS
Terei de fazer esforço intenso de focalização para evitar dispersão. A prioridade é a vivência profissional no Diário no Grande ABC conectada com a experiência profissional fora do Diário do Grande ABC, mas convergente com o Diário do Grande ABC. É mesmo um desafio associar a aprendizagem e também o aperfeiçoamento profissional dentro e fora da Barcaça da Catequese no ritmo de avanços e recuos do Grande ABC.
Pretendo estabelecer limite para cada capítulo desta série. Que não passe de sete mil caracteres. Terei de controlar o ímpeto. Os leitores vão entender que, mais que memória nominal dos profissionais com os quais compartilhei muitas horas de trabalho intenso, de até 14 horas a cada dia, o que interessará mesmo serão os cases.
Um exemplo: o contraste dos meus primeiros tempos de Diário do Grande ABC, em 1971, e os últimos dias de comando da Redação, em maio de 2005. O repórter já com alguma vivência cedeu lugar ao comandante da Redação. Mais de 50 anos e vários outros endereços de atuação separam os dois momentos. O jornal e o Grande ABC mudaram completamente no período. O eletrocardiograma de um coração infartado seria uma imagem perfeita à compreensão das mudanças.
Para completar, deixei para o próximo capítulo a explicação pela escolha de “Barcaça da Catequese” . São os cromossomos da identidade editorial do Diário do Grande ABC e intrinsecamente um paradoxo envolvendo o Complexo de Gata Borralheira. É mesmo uma charada. Este texto conta com 8.151 caracteres. Está acima da métrica pretendida.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)