Imprensa

DEBATE VIRTUAL COM
PAULINHO SERRA (14)

DANIEL LIMA - 22/09/2025

Não tenho a mais ínfima ideia sobre o destino temporal do colunista de ocasião Paulinho Serra, no Diário do Grande ABC. A cada semana o ex-prefeito de Santo André mais se afunda na tentativa de salvar a pátria eleitoral do futuro, depois do sucesso municipal em passado recente. Os quase 700 caracteres impressos são como aqueles vídeos do TikTok e de outras plataformas tecnológicas: a inteligência artificial não deixa de ser inteligência artificial que, por enquanto, não passa de preliminar sem graça de um jogo principal já conhecido, o jogo da realidade de fato. 

O que me pergunto mais uma vez, e esparramos essa pergunta aos leitores, é até quando, até quando, até quando, Senhor, Paulinho Serra vai insistir nessa trôpega caminhada comunicacional. 

O problema todo é que, como ele se tornou repetitivo nas alegorias fantasmagóricas criadas pelos carnavalescos marqueteiros que lhe dão guarida, mais me sinto pressionado a estudar a possibilidade de entregar a rapadura crítica em forma de protesto. Que tipo de protesto? O protesto por entender que se dá expansionismo a uma coleção de fake news que, houvesse punição a gestores públicos por deliberada ação de ludibriar o distinto público, tudo seria resolvido. 

GUILHOTINA SEMANAL 

O que particularmente lamento é que Paulino Serra se exponha tanto e me obrigue, por força do ofício, a colocá-lo insistentemente na guilhotina do contraditório. O que posso fazer se essa é mesmo a função social que me cabe? 

Gostaria que outros prefeitos também fossem escalados a produzir algo semelhante no Diário do Grande ABC. Dessa forma, possivelmente, poderia distribuir catiripapos típicos de ombudsman de verdade, não o ombudsman que a  Folha de S. Paulo ostenta, esculhambando com o histórico de muitos que a antecederam. 

Vamos, portanto, a mais uma jornada dolorosamente desgastante. Paulinho Serra é insuperável mesmo. O texto publicado no Diário do Grande ABC de ontem sob o título “PEC da Blindagem: quando a política erra nas prioridades”, é entremeado por intervenções deste jornalista. Boa sorte aos leitores e minhas sinceras desculpas por eventualmente não ter sido criativo sobre questões já abordadas nos capítulos anteriores. Que posso fazer se Paulinho Serra não se emenda e insiste em algo do qual poderia simplesmente dizer chega de enrolação?

PAULINHO SERRA 

Na última semana, a Câmara dos deputados aprovou a chamada PEC da blindagem. Em linhas simples, essa proposta estabelece que parlamentares que cometerem crimes só poderão ser processados pelos tribunais se o próprio Congresso autorizar. Ou seja, cria-se uma espécie de barreira que transfere ao Legislativo a decisão sobre se um deputado ou senador pode ou não responder à Justiça. Mais do que o mérito do conteúdo – que, na minha visão, já passa uma mensagem muito ruim de impunidade – o que mais incomoda é a incapacidade do Congresso, preso no debate da polarização, de priorizar aquilo que realmente importa na vida das pessoas. 

CAPITALSOCIAL 

Paulinho Serra foge do mérito da questão posta porque sabe que lhe seria incômodo ter de tomar posição que potencialmente entregaria a própria cabeça conservadora no pior sentido possível a eventuais observadores externos com os quais mantém relações políticas. Ganha um doce de batata doce o leitor que encontrar tanto no já exposto por Paulinho Serra quanto na sequência algo que faça qualquer menção nominal, para não dizer conceitual, aos três baluartes que, a exemplo do ex-prefeito de Santo André, atribuem tudo o que ocorre na política nacional à extrema direita e à extrema esquerda. Paulinho da Força e Aécio Neves, de ficha política mais que conhecida, e o ex-presidente Michel Temer, também de domínio público, foram alçados pelo Judiciário de Alexandre de Moraes como novos articuladores da PEC da Anistia. Paulinho Serra faz parte lateral desse time. 

 A inversão de prioridades 

Enquanto a pauta do Congresso é consumida por debates que giram exclusivamente em torno da polarização, incluindo privilégios e autoproteção, o Brasil segue convivendo diariamente com problemas urgentes que batem à porta de milhões de famílias: a violência urbana que assusta, o desemprego que corrói a dignidade, o custo de vida que sufoca, a saúde que não chega a todos, a educação que precisa de modernização e valorização. Temas que deveriam estar no topo da lista, capazes de mudar a realidade do País, são deixados para depois. No lugar deles, vemos discussões que em nada resolvem a vida do Seu José, da Dona Maria, da juventude que busca o primeiro emprego, da mãe que luta para colocar comida na mesa. 

 A conversão da incompetência 

O que Paulinho Serra pretende dizer nos parágrafos acima não passa de engabelação para se adaptar ao mote da coluna que adotou no Diário do Grande ABC, determinação de marqueteiros ligados às esferas estaduais e federais. Até parece que a montanha de carência sociais e econômicas do País como um todo decorre da polaridade ainda embrionária como, de resto,  no mundo em que o Estado do Bem-Estar-Social está em crise. Paulinho Serra e ideólogos de  soluções mágicas sabem muito bem ou seria uma estupidez caso não soubessem que a divisão social e política do Brasil se dá principalmente por causa de demandas não atendidas ao longo dos anos, embora o Estado seja um arrecadador de impostos cruel, associado a exasperante incapacidade de dar respostas às demandas postas. 

 O preço da polarização  

Essa inversão de prioridades transmite uma sensação perigosa: a de que os problemas do Brasil não são os mesmos problemas do brasileiro. E essa distância entre o que se discute em Brasília e o que a população sente no dia a dia vai corroendo a confiança nas instituições e alimentado os discurso radicais, abrindo espaço para o descrédito da política como um todo. Não se trata apenas de uma questão de moralidade, mas também de eficiência. O tempo gasto em torno de pautas que não melhoram a vida das pessoas poderia – e deveria – ser canalizado em reformas estruturais que aguardam há anos, como a modernização do Código Penal para enfrentar o crime organizado, a revisão do pacto federativo para dar mais autonomia aos municípios, ou medidas sérias para reduzir desigualdades sociais. 

 O preço da inação 

Paulinho Serra insiste em transformar a coluna no Diário do Grande ABC em pacto com o ilusionismo. Fosse político de eventual nova safra, sem relação de qualquer espécie com os velhos políticos e sem experiência no Executivo, até que poderia convencer os incautos. Mas sendo o que é há 25 anos, um político da velha guarda e um administrador tétrico de oito anos à frente da Prefeitura de Santo André, não há oratória que resista a um sopro de liberdade crítica. 

 Gestão que dá certo 

Eu falo isso com a experiência de quem já governou uma cidade de quase 1 milhão de habitantes. Em Santo André, aprendemos que boa gestão funciona. Quando a prioridade é resolver os problemas reais, os resultados aparecem: o esgoto tratado que passou de 27% para 94%, as dívidas reduzidas, os programas sociais que chegaram a quem mais precisava, os investimentos em saúde, educação, esporte e lazer que melhoraram a qualidade de vida da população. Não foi sorte. Foi gestão pública feita com planejamento, responsabilidade e foco em resultado. Esse modelo mostrou que é possível mudar a realidade quando se coloca o cidadão no centro da política, em vez de gastar energia em disputas ou privilégios. 

 O custo do fracasso 

O prefeito de Santo André mais uma vez procura a sombra do guarda-chuva da popularidade registrada em dois anos de mandatos. Claro que jamais vai oferecer aos leitores o contraponto que cabe aos analistas: apesar dos pesares de uma gestão tecnicamente sofrível numa Santo André economicamente decadente, o ambiente político municipal e regional de alienação da maior parcela dos eleitores, preocupados com vetores nacionais, sustenta o triunfalismo de um marketing avassalador. Todos os indicadores econômicos e sociais de Santo André no período de oito anos de Paulinho Serra desabaram no ranking nacional. A afirmativa do colunista temporão dando conta que o tratamento de esgoto em Santo André passou de 27% para 94% não corresponde à realidade divulgada pelo Centro de Liderança Pública. Essa organização especializada em competitividade de Estados e Municípios divulgou ainda outro dia o ranking do setor de saneamento.  Santo André, no quesito tratamento de esgoto, ocupa a posição 154 entre 418 municípios com mais de 80 mil habitantes. Como insiste em propagar falsidades sobre os oito anos de dois mandatos, é preciso repetir sempre, mesmo que pareça redundante e exaustivo: Paulinho Serra foi um gestor de baixíssima qualificação em Santo André. As provas técnicas estão todas documentadas nos mais complexos indicadores de ranqueamentos sólidos. O único programa de fato e para valer que pode ser considerado positivo na cadeia de iniciativas fracassadas de Paulinho Serra foi o assistencialista Moeda Verde, que atende  parcela da população mais sofrida de Santo André. Santo André conta um terço dos quase 800 mil habitantes na base de pobres e miseráveis, conforme dados da própria Prefeitura.  O mau gestor Paulinho Serra, só nos primeiros cinco anos de administração, já documentada, levou Santo André a perder 39 posições no ranking de PIB per capita no Estado de São Paulo. 

 A política que precisamos 

É claro que existem bons políticos, comprometidos e preocupados com as verdadeiras demandas da população. Eles estão nos municípios, nos Estados e também em Brasília, muitas vezes lutando contra a maré para trazer a pauta do Brasil real para a mesa de discussão. É justamente esse espírito que nosso País precisa resgatar. Não se trata de negar a importância de certas discussões institucionais, mas sim de recolocar o foco onde ele deve estar: no combate à violência, na geração de empregos, na redução do custo de vida, no fortalecimento da saúde e da educação públicas. 

 Os gestores de que precisamos 

Talvez o ex-prefeito Paulinho Serra devesse começar a tratar os eleitores com mais respeito. Deveria comunicar a todos que é candidato a deputado federal, com grandes possibilidades de sucesso eleitoral, e com isso deixar de fazer marketing para propagar a ideia de que seria candidato a governador. Tudo bem que é uma jogada de marketing para manter o nome na praça e sugerir que é mais importante na fila de candidatos do que de fato seria. Tudo bem. Mas a maturidade do ambiente eleitoral como um todo passa necessariamente pela ética e a moralidade da classe política, reconhecimento no fundo do tacho. 

 Conclusão

O Brasil não precisa de mais polarização. Precisa de mais compromisso. Não precisa de mais privilégios. Precisa de mais prioridade no que de fato transforma vidas. Sei que a política é feita de escolhas. E quando os parlamentares escolhem se proteger antes de proteger a população, passam um recado claro: suas prioridades estão invertidas.

Cabe a nós, sociedade, continuar cobrando, fiscalizando e exigindo que o foco seja colocado de volta onde sempre deveria estar: na vida real do povo brasileiro. Porque boa gestão existe, já mostrou resultado, e pode – sim – ser o caminho para um Brasil mais justo, eficiente e humano.  

 Conclusão 

Os conselhos que os marqueteiros de Paulinho Serra colocaram na pauta da coluna do Diário do Grande ABC para que parecesse diferente do que é de fato são conselhos que valeriam também a uma imensa gama de prefeitos e ex-prefeitos.  A pregação em nome da sociedade, como ele se autoproclama, não passa de confluência entre o frágil e o escasso em forma de caminhada malemolente que percorreu até agora na vida pública.



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