Economia

PIB INDUSTRIAL: UM
DESASTRE NO SÉCULO

DANIEL LIMA - 17/03/2026

Imagine o leitor o valor monetário equivalente ao desaparecimento do PIB Industrial de Santo André e de São Caetano somados. É praticamente isso, pouco menos que isso, que o Grande ABC perdeu de produção de riqueza industrial numa comparação ponta a ponta neste século, nos últimos 22 anos. A  conta seria muito mais salgada se houvesse decomposição ano a ano. Aí seria um resultado acumulado dantesco – mas como é trabalhoso demais, preferimos simplificar. Até para não assustar mais do que já assusta.

A desindustrialização negada até outro dia, e que ainda encontra fósseis de militância triunfalista que a contestam, está na base da degringolada econômica do Grande ABC. A participação relativa do setor industrial no PIB Geral do Grande ABC caiu de 46,83% em 1999 e se estatelou em 25,57% no ano 2021, a temporada mais atualizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O desemprego industrial alcançou recordes de baixas. E tudo isso segue completamente ignorado por uma elite de abusadores sociais.

Engana-se quem imagina que houve perda apenas relativa do PIB Industrial ante o PIB Geral e que com isso poderia contestar a queda do PIB em valores absolutos, ou seja, que não teria havido desindustrialização suplementar ao que ocorreu principalmente nas duas décadas finais do século passado. Também houve queda em valores reais, absolutos. Exatamente 25,69 ante a inflação do período. É sobre essa plataforma que entram os dados de Santo André e São Caetano como símbolos de desfalques.

FONTE DE RIQUEZAS

Talvez seja desnecessário lembrar que o PIB  Industrial é a alma desenvolvimentista do Grande ABC, forjada ao longo de décadas. É o setor que gera mais empregos qualificados, melhores salários e irradia dinamismo ao restante dos setores econômicos.

Desindustrialização não é um palavrão para quem leva a sério as fundas brechas sociais que se abrem a cada novo emprego perdido nas indústrias. Só nos anos 1990 foram 100 mil postos de trabalho com carteira assinada que desapareceram e lubrificaram outra tragédia: o excesso de oferta em comércios e serviços, além de desemprego estrutural.

Mesmo com a limitação temporal na forma de aplicação de dados que incorpora um extremo ao outro, ou seja, dos dados de 1999 em confronto com os dados de 2021, não há como negar que a situação é dramática na indústria regional, espalhando-se o terror a todo o território. Tanto é verdade que só restam duas cadeias de produção – a abaladíssima indústria automotiva, principalmente em São Bernardo,  e a indústria petroquímica com ramais químicos, principalmente em Mauá e subsidiariamente em Santo André.

DOENÇAS HOLANDESAS

Trocando em miúdos: de fato e para valer, só contamos com duas fortalezas econômicas, mesmo assim abaladas, de matrizes que resistem  às grandes mudanças do setor não só no País, mas na economia internacional. Enquanto o Grande ABC não se der conta de que essa conta ainda está longe de ser fechada, mais manchetes de jornal de papel vão quebrar a cara no oba-oba de triunfalismo que não resiste à revelação de demandas sociais não atendidas.

As duas Doenças Holandesas revelam a contradição  econômica do Grande ABC, com repercussões nas demais áreas e principalmente no conjunto da sociedade. Enquanto o setor automotivo sente as durezas do prélio neste século (depois das duas últimas décadas do século passado, também de imensas perdas) o setor petroquímico sustenta o crescimento fiscal de Mauá e alivia a barra pesada da desindustrialização de Santo André.

Doença Holandesa é a dependência econômica exagerada de determinada atividade econômica. São Bernardo é bastante vulnerável com a expansão da indústria automotiva fora da região e agora também com a chegada de asiáticos, principalmente chineses.

CHOQUE TERRÍVEL

Para se ter ideia do estrago na Economia de São Bernardo entre 2000 e 2021, sempre tendo como base o ano de 1999, o PIB Industrial da Capital Econômica do Grande ABC sofreu duríssimo rebaixamento. Em números de produção, foram exterminados, sempre na comparação ponta a ponta, mais de  R$ 8 bilhões. Essa conta leva em conta o valor  nominal de 1999 (R$ 5.519,13 bilhões) com correção monetária. O vetor inflacionário do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Pleno) registra 285,26% entre janeiro de 2000 e dezembro de 2021. Caso São Bernardo mantivesse o PIB Industrial de acordo com a inflação do período, o  valor teria chegado a R$ 21.263.00 bilhões. Entretanto, chegou a apenas R$ 13.216.250 bilhões. Portanto, uma queda equivalente a R$ 8.046,750 bilhões. Quase metade do que o Grande ABC como um todo perdeu ao se observar a mesma metodologia – R$ 9.893.383 bilhões.  A participação do PIB Industrial de São Bernardo no PIB Geral interno caiu de 42,80% para 22,58% no período. O crescimento nominal do PIB de São Bernardo registrou 139,46% ante o PIB Geral de 456,94%. Nem a recuperação econômica nos oito anos de Lula da Silva, após a hecatombe de Fernando Henrique Cardoso, salvou São Bernardo. Dilma Rousseff se tornou imparável.

VANTAGEM PETROQUÍMICA

Mauá, Capital Petroquímica do Grande ABC, é exemplo oposto de São Bernardo. A Doença Holandesa garante bons resultados econômicos, embora a atividade gere muito menos empregos relativamente ao setor automotivo. Os ganhos públicos são marcantemente arrecadatórios. Mauá amenizou a perda do PIB Industrial do Grande ABC na comparação ponta a ponta de 22 anos. Obteve ganho de R$ 2.797,63 bilhões, ou seja, acima da inflação. O PIB Industrial de Mauá em 1999 registrou nominais R$ 1.287,22 bilhão. Com a aplicação da inflação do período, chegaria em  2021  A r$  a R$ 4.970.470 bilhões. Mas ficou acima disso ao registrar 7.756,77 bilhões. Mesmo assim,  a participação relativa do PIB Industrial  no PIB Geral caiu de 45,35% para 37,33%. O crescimento nominal do PIB Industrial de Mauá registrou 502,60%, ante crescimento do PIB Geral de 630,01%.  

Mesmo premiado com o polo petroquímico, em proporção que chega à metade da participação relativa de Mauá, Santo André sofreu as dores da desindustrialização nos 22 anos analisados – e sempre considerando dados dos extremos temporais.  Santo André perdeu R$ 791.528,40 milhões de PIB Industrial. Em 1999, Santo André contabilizou PIB Industrial de nominais R$ 2.256,54 bilhões. Com correção inflacionária, deveria chegar a R$ 8.693.546 bilhões em 2021. Ficou abaixo. A participação relativa do PIB Industrial no PIB Geral caiu de 38,28% em 1999 para 23,85% em 2021.

Dependente em larga escala da Doença Holandesa Automotiva, Diadema marcou o segundo pior desempenho regional. A vizinhança de São Bernardo já fez muito bem a Diadema, mas na medida em que há recuo especialmente das montadoras, as autopeças entram em parafuso. O PIB Industrial de Diadema sofreu desfalque de R$ 2.403,39 bilhões em valores reais de 2021 em relação à correção monetária do PIB de 1999, de nominais R$ 1.974,13 bilhões bilhão. Em 2021 Diadema registrou PIB Industrial de R$ 5.202,14 bilhões, mas deveria ter alcançado R$ 7.605.533 bilhões pela correção monetária dos valores de 1999.A participação relativa interna do PIB Industrial de Diadema ante  o PIB Geral caiu no período de 51,61% para 28,14%.

SÃO CAETANO SOFRE

São Caetano, também dependente de Doença Holandesa, no caso a plana da General Motors, está na lista de desfalques gravíssimos do PIB Industrial na comparação que começa no primeiro ano deste século. A perda relativa do PIB Industrial no PIB Geral é de praticamente 20 pontos percentuais ao sair do patamar de 42,80% para 22,58% em 22 anos. Em valores monetários, São Caetano perdeu entre uma ponta e outra ponta o total de R$ 1.454,91 bilhões. Essa é a diferença entre o valor nominal registrado em 1999 (R$ 1.290,16 bilhões, o valor nominal de 2021 (R$ 3.515,56 bilhões) e o valor que efetivamente seria registrado em caso de manutenção de acordo com a inflação do período – R$ 4.970.470 bilhões.

Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que representam menos de 3% do PIB Geral do Grande ABC, também estão na relação de prejuízos na comparação ponta a ponta. Ribeirão Pires perdeu R$ 153.562 milhões, enquanto Rio Grande da Serra registrou baixa de R$ 23.006 milhões. O PIB Industrial de Ribeirão Pires em 1999 somou em valores nominais R$ 265,265 milhões e deveria chegar em 2021 a R$ 1.021.902 bilhão, mas não passou de R$ 868,34 milhões. No caso de Rio Grande da Serra, o PIB Geral nominal de 1999 registrou R$ 59,76  milhões e deveria alcançar R$ R$ 230.231,37 milhões em 2021, mas não passou de R$ 162,03 milhões. A participação relativa do PIB Industrial de Ribeirão Pires ante o PIB Geral em 1999 era de 41,06%, mas passou para 16,86% em 2021. No caso de Rio Grande da Serra, obedecendo-se a mesma equação, a participação relativa de 42,01% caiu para 16,86%. 

GRANDE ABC X ESTADO

As perdas do Grande ABC tanto em números absolutos quanto em participação relativa na comparação ponta a ponta que abrange este século já capturado pelo IBGE e o último ano do século passado seriam ainda maiores caso o Estado de São Paulo fosse o referencial de dados.

O PIB Industrial do Grande ABC registrado em 2021 de R$ 38.503.710 bilhões poderia chegar a R$ 48.397.093 caso seguisse a inflação do período, teria atingido R$ 51.594.170 bilhões caso obtivesse crescimento igual à média estadual.

Trocando em miúdos: se o PIB Industrial do Grande ABC fosse o que foi a dinâmica do setor produtivo paulista entre 2000 e 2021, com 1999 como plataforma de embarque, a distância que cercaria o resultado final seria maior do que a comparação interna, chegando a R$ 13.090.460 bilhões. Mais, portanto, que os R$ 9.893.383n bilhões quando a comparação do ritmo industrial se restringe aos resultados internos dos sete municípios. Exatamente o tamanho do PIB Industrial efetivamente concretizado por São Bernardo em 2021.

Quando se lembra que o setor industrial paulista cresceu no mesmo período abaixo da média nacional, têm-se com mais clareza e preocupação o quanto houve de rebaixamento também da importância da indústria do Grande ABC também no ambiente nacional. A desindustrialização do Grande ABC, portanto e evidentemente, não é apenas um fenômeno regional, porque também é nacional e federal.

PAULISTAS NA FRENTE

O desempenho médio do PIB Industrial Paulista sempre na comparação ponta a ponta de 2000 a 2021, tendo 1999 como indexador temporal, registrou avanço nominal de 310,71%. Portanto, acima da média regional de 206,50%. No PIB Geral , que incorpora todas as atividades, inclusive o PIB Público, de carga tributária municipal, a média de crescimento paulista chegou a 699,26%, ante 551,22% dos sete municípios do Grande ABC.  

Na edição de lançamento da revista LivreMercado, então um tabloide, em março de 1990, portanto há 36 anos, alertou-se com inédita fundamentação de dados, o processo já em curso da desindustrialização do Grande ABC. Um desastre negado ao longo dos anos por autoridades públicas e acadêmicos, principalmente, e esquecido nos cantinhos corporativos de empresários e sindicalistas, os primeiros por temerem retaliações de autoridades públicas, e os segundos por não admitirem  efeitos deletérios dos embates entre capital e trabalho.

Mas não convém reduzir a constelação de motivos que colocaram a indústria do Grande ABC a nocaute iminente a cada nova temporada. Há muito mais fatores que tornaram o território regional uma bomba-relógio. Já escrevemos muito sobre tudo isso, enquanto as instâncias públicas, sociais, empresariais e sindicais dão de ombro. Nenhum prefeito ao longo dos 50 anos do Grande ABC – exceto Celso Daniel –se preocupou para valer com a desindustrialização que se agrava insidiosamente.


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