Vamos deixar de triunfalismo regionalista, esse mal que contamina as almas e compromete o futuro da sociedade que já sofre com o presente? O movimento sindical a partir do final dos anos 1970, com Lula da Silva na cabeça, foi muito importante para os trabalhadores industriais, mas, tanto lá como ao longo dos tempos, não alterou drasticamente a movimentação das pedras sociais. E o que seria isso? Resumidamente, não houve conjunção de fatores, valores e pendores que aproximasse trabalhadores industriais da sociedade como um todo.
Pior que isso: repetindo a literatura internacional, os trabalhadores em busca de melhores condições de vida sempre se preocuparam com eles mesmos nos interiores das indústrias. E a sociedade não fabril ficou do outro lado. Uma divisão se estabeleceu e segue vigente. O Grande ABC destes tempos é menos dualista, entre capital e trabalho, mas a harmonia é um taça de cristal sob controle de uma criança. De fato, e para valer, nem se trata de harmonia no divisionismo latente. É uma paralisia coletiva em forma de desprezo ao capital social clássico.
Depois de breve análise sobre o Clube Econômico do Grande ABC, nesta semana, chegou a hora de cumprir a promessa e esculpir, também com brevidade, o perfil do Clube Sindical do Grande ABC.
SETOR AUTOMOTIVO
Trata-se de análise que não se esgota no conceito de 100 metros rasos, mas também está distante de uma maratona. É uma corrida de meio-fundo. Suficientemente, acredita este jornalista, para botar as rodas metálicas nos respectivos veículos da linha de produção. A metáfora é proposital. O sindicalismo do Grande ABC emergiu, se multiplicou e agora está praticamente restrito, além de perplexo, ao setor automotivo.
Já escrevi dezenas de textos sobre o sindicalismo do Grande ABC, mas o propósito do que está sendo escrito agora é inserir o Clube Sindical mesmo que apressadamente no ambiente econômico e social destes tempos.
Ou seja: estou acrescentando ao Clube dos Prefeitos e ao Clube Econômico um terceiro eixo da regionalidade do Grande ABC que jamais alcançou escala suficiente para evitar a catástrofe do empobrecimento já consumado. A engrenagem enferrujada se completará com o Clube Social. Somos uma maquinaria humana de baixa qualidade institucional e, por consequência, de pífios resultados coletivos.
Já mostramos que o Clube Econômico, dos agentes empresariais, é uma farsa que não contribuiu em nada para cutucar a inutilidade do Clube dos Prefeitos. O Clube Sindical é semelhantemente ineficaz. E ainda vem, semana que vem, o Clube Social. Que, como os demais clubes, é uma barbaridade de inoperância.
Resumo? O Grande ABC é um deserto institucional em todos os ambientes possíveis. Por isso está-se tornando paraíso de delinquentes sociais que se projetam como salvadores da pátria regional. Quanto abuso. Quanta barbaridade.
SETE TEMÁTICAS
Dividi o Clube Sindical em sete temáticas que se cruzam. É impossível não se cruzarem. Entendo como essencial à compreensão da atmosfera que se respira do Grande ABC. Não é invenção da roda, mas o conteúdo não encontrará nada semelhante no jornalismo regional especializado em varejismos que alimentam relacionamentos cordiais que, no fundo, só adiam, quando não sabotam, transformações sociais tão necessárias para quem, como esse território, conhece novas derrotas a cada temporada.
O PIB decadente é prova disso. E com isso, gera perdas sequenciais em diferentes atividades. A maioria dos rankings que vasculham dotes econômicos, sociais e fiscais do País aponta os municípios do Grande ABC, exceto São Caetano, em posições mais que constrangedoras. Acompanhem o Clube Sindical do Grande ABC:
1. CORPORATIVISMO ENCLAUSURADO.
2. DOUTRINAÇÃO IDEOLÓGICA.
3. ISOLAMENTO SETORIAL.
4. CIDADANIA FRÁGIL.
5. MOVIMENTO SINDICAL.
6. RESSONÂNCIA POLÍTICA.
7. DEBILIDADE SOCIAL.
CORPORATIVISMO ENCLAUSURADO
O movimento sindical não sofreu alteração significativa nas relações entre capital e trabalho. A sociedade como conjunto jamais ocupou um lugar sequer de carona nas reinvindicações consideradas históricas. Por conta disso e de tudo que é conhecido, foram inevitáveis os choques sociais e econômicos que abalaram o Grande ABC, especialmente a partir da segunda metade dos anos 1970, com o surgimento de Lula da Silva no firmamento industrial de São Bernardo. Esse fechamento de portas teve períodos de glória dos sindicalistas e trabalhadores, quando a indústria era o setor de maior estoque de mão de obra.
DOUTRINAÇÃO IDEOLÓGICA
O sindicalismo do Grande ABC nestes tempos sobrevive em termos públicos apenas das ações dos metalúrgicos de São Bernardo. Como praticamente todas as demais cadeias de produção industrial desapareceram do mapa, ou, no caso dos químicos e petroquímicos, conta cada vez menos com trabalhadores, sobra para os metalúrgicos o que se poderia chamar de linhas gerais dos assalariados. E os metalúrgicos de São Bernardo, muito ligados ao Partido dos Trabalhadores, e especialmente ao governo Lula da Silva, pegou o atalho declaradamente ideológico e autofágico de aplaudir e, mais que isso, pretender trazer investimentos asiáticos, especialmente chineses. Um verdadeiro haraquiri diante da lógica histórica de que o movimento sindical sempre fundamentou as conquistas trabalhistas que os chineses desprezam com um regime autocrático e predador porque joga na lata do lixo os direitos trabalhistas do Ocidente.
ISOLAMENTO SETORIAL
Da mesma forma que entidades econômicas do Grande ABC mantêm distanciamento entre si, não parece haver entre os sindicatos de trabalhadores nada diferente que possa dar esperança de que uma pauta em comum com o Desenvolvimento Econômico como meta seja projetada. O distanciamento corporativo entre os representantes das categorias de trabalhadores é antiga deficiência do movimento sindical como histórico que descarta excepcionalidades. Os trabalhadores não têm algo em comum com que possam se preocupar e que, quem sabe, inclua a sociedade como um todo?
CIDADANIA FRÁGIL
O movimento sindical de trabalhadores industriais do Grande ABC (de outras atividades é melhor esquecer, porque raramente se encontraram) cuidou de interesses exclusivamente da classe nos respectivos endereços operacionais. Fora das quatro linhas das fábricas, nada pode ser catalogado sistematicamente como ações com algumas pitadas de cidadania.. São, portanto, exclusivamente classistas. Só se esqueceram que o tempo passou, a aposentadoria chegou e agora muitos desses trabalhadores do passado viraram contribuintes e consumidores que pagam o pato.
MOVIMENTO SINDICAL
Os tempos estão cada vez mais difíceis para reavivar mesmo sem muito brilho o movimento sindical do passado. O ambiente regional contraposto à situação da indústria de transformação no País e tendo ainda a elasticidade do retrato internacional não recomenda saltos maiores que as pernas da cautela. A contração dilacerante de efetivos de trabalhadores industriais ao longo dos anos levou insegurança às fábricas. Durante os anos 1990, com Fernando Collor de Mello da abertura econômica e Fernando Henrique Cardoso do Plano Real, o Grande ABC perdeu mais de 100 mil empregos industriais. Os sindicalistas permaneceram pálidos e em silêncio.
RESSONÂNCIA POLÍTICA
O enfraquecimento do poderio industrial do Grande ABC ao longo das duas três décadas encolheu o apetite reivindicatório dos sindicalistas com efeitos severos no ambiente político. O Partido dos Trabalhadores paga o preço das transformações no mundo do trabalho e na sociedade. Basta lembrar que no começo deste século a ambição petista era coalhar a Grande São Paulo de prefeitos avermelhados, enquanto nestes tempos de vacas magras somente Mauá, de Marcelo Oliveira, representa o partido entre os 39 municípios desse universo de 22 milhões de habitantes.
DEBILIDADE SOCIAL
A proporção de trabalhadores industriais no conjunto das residências do Grande ABC sofreu duríssimas baixas nos últimos 30 anos. A queda brutal do estoque de trabalhadores com carteira assinada e com dísticos de empresas de transformação do produto decepou drasticamente o que poderia ser chamado de representação no universo populacional. A participação relativa de trabalhadores industriais no estoque de carteiras assinadas caiu de média superior a 45% antes do começo deste século para 22% nesta terceira década. Mas antes dos anos 1990 devastadores, o Grande ABC chegou a contar com mais de 65%, de trabalhadores industriais a cada 100 empregos com carteira assinada. Esse murchar de densidade torna o emprego industrial cada vez mais expressão de risco a novas dietas. O Grande ABC mudou de ambiente fabril para as áreas comercial e de serviços. Com isso, a atmosfera funcional, por assim dizer, foi significativamente alterada.
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11/03/2026 CLUBE SINDICAL ESTÁ PERDIDO NO TEMPO