O livro do pesquisador, escritor e outras coisas mais Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e entre outras coisas integrante do Conselhão da Presidência da República, esse livro de Renato Meirelles -- “Brasil da Maioria” – 25 anos de Classe C” -- é uma tragédia imperdível.
Tragédia imperdível significa que se trata de obra que deve ser consumida com voracidade, mas sob a tutela preventiva de ceticismo, desconfiança e tudo o mais. O próprio autor confessa o crime de triunfalismo em uma série de abordagens contraditórias. Renato Meirelles seria um péssimo jornalista, porque não dá organicidade às incursões.
Fernando Meirelles escreve como se cada capítulo do livro necessitasse mesmo ser visto como ilhas. Mas não há como resistir às implicações naturais de causas e efeitos. E causas e efeitos econômicos neste País que não perde a mania de fracassar formam o mesmo enredo e, como tais, não podem ser separados em páginas distantes entre si.
DESCONFIANÇA, SIM
Pretendia escrever uma análise específica e única sobre “Brasil da Maioria”, mas mudei de ideia. Ainda nem terminei a leitura de 150 páginas, depois de dois dias da entrega do Correios, mas não resisti a oferecer contrapontos aos caros leitores. Acho que quem se interessar pelo livro deve acompanhar esta análise como forma de preparação crítica, inclusive para questionar este jornalista.
Renato Meirelles é um profissional de comunicação – não propriamente de jornalismo -- apetrechado. Tão apetrechado, tão apetrechados, que é preciso ter olhos aguçadamente desconfiados, como tenho na função de jornalista, para detectar o quanto ele navega em águas tormentosas na tentativa de parecer isento –algo que só o fato de pertencer ao grupo de conselheiros do governo Lula da Silva o coloca sob desconfiança mais que justificada. Alguém que esteja na Gaviões da Fiel e que seja desafiado a analisar a Gaviões da Fiel não será o melhor analista da Gaviões da Fiel.
Para retirar de provável discriminação preliminar dos leitores que eventualmente se alinhem às cores avermelhadas de Renato Meirelles, vou antecipar alguns pontos centrais que se chocam com os enunciados de Renato Meirelles.
EXALTAÇÃO À CLASSE
E o ponto-chave explícito no título do livro não deixa margem a dúvidas: Renato Meirelles faz ovação subliminar que glamouriza a Classe C brasileira neste século. Tudo exatamente a partir do primeiro mandato do presidente Lula da Silva, contexto que Renato Meirelles supostamente ignora para não parecer publicitário. Como não dá mesmo para esconder o óbvio, Renato Meirelles entrega a rapadura de um socialismo terceiro-mundista com conclusões e ponderações cuidadosamente engendradas. A subliminaridade é mais eficaz que a explicitude propagandística.
PRIMEIROS TRECHOS
Os primeiros trechos do capítulo inicial de “Brasil da Maioria” – 25 Anos de Classe C, revelam o tom que o autor pretende sacramentar à obra. Algo que, entretanto, acaba por sabotar ao longo das páginas seguintes que já li e que certamente será mantido nas páginas que ainda restam. Leiam os primeiros enunciados do livro, sob o título “Um sonho interrompido”:
Como era o Brasil do começo dos anos 2000? Em muitos aspectos, bem parecido com o Brasil de hoje. Éramos e continuamos sendo um dos países mais desiguais do mundo. Nossas grandes questões econômicas, sociais e ambientais ganharam novas roupagens, novas nuance, novos complicadores ao longo desses vinte e tantos anos, mas, em essência, continuam as mesmas. Do ponto de vista da renda, porém, aquela época marcou o início de uma pequena revolução. No começo dos anos 2000, a Classe C – isto é, a fatia da população com renda intermediária ou “classe média”—representava 39% dos brasileiros. Dez anos depois, em 2010, alcançaria a marca dos 50% e nunca mais recuaria desse patamar. Foi o “boom” da Classe C. Já os estratos de renda mais baixos, que formam as Classes C e D, encolheram: saíram da marca dos 37% e 10%, respectivamente, para 28% e 5% da população. Ou seja, a Classe C cresceu porque milhões de brasileiros pobres ampliaram sua renda e ascenderam socialmente. Mas esse “boom” não durou mais que uma década. Nos 10 anos seguintes, a Classe C parou de crescer e passou por uma metamorfose em suas expectativas de progresso material. Em meio a crises de diferentes naturezas, a população de baixa renda, e a Classe C, em particular, precisou adiar aquela viagem dos sonhos ou a compra do carro zero, cortar itens do carrinho de supermercado, empreender para ganhar mais. Ela precisou, em suma, inventar estratégias para tentar manter seu padrão de vida. Se na primeira década dos anos 2000 os brasileiros de baixa renda ficaram mais otimistas com relação ao futuro, os anos 2010 foram um tremendo balde de água fria.
REALIDADE DIFERENTE
Fosse o livro de Renato Meirelles menos comprometido com o governo federal, e fosse o autor mais atento à macroeconomia, microeconomia e macropolítica, entre outras variáveis que determinam o andar da carruagem da Economia e do movimento de classes sociais, o texto seria completamente diferente. Longe, portanto, do viés glorificador do período em análise. Algo, aliás, que ele próprio, o autor, não consegue driblar na sequência de dezenas de páginas.
Renato Meirelles é um provedor provisório de otimismo que tropeço logo em seguida porque não existe fórmula mágica para enfeitar o pavão de um País decadente.
Para os leitores entenderem os contrapontos que vou apresentar nesta minissérie é preciso identificar as classes sociais de acordo com as denominações que adaptei como jornalista. Chamo de “Classe Rica” a Classe A, chamo de “Classe Média Tradicional” a “Classe B”, chamo de Classe Média Precária a “Classe C”, chamo de “Classe Pobre” a “Classe D” e chamo de “Classe dos Miseráveis” a “Classe E”.
A Classe Média Precária, identificada como “Classe C” por Renato Meirelles, é mesmo maioria entre os estratos sociais no Brasil. Mas, ao invés da constatação adocicada de Renato Meirelles, o que temos é uma tremenda roubada econômica.
Diferentemente do que pretende induzir o autor do livro, a Classe Média Precária não é fruto da saudável conceituação de mobilidade social que evocaria, em última análise, a consagração do Desenvolvimento Econômico e Social neste século. Diferentemente disso, a Classe Média Precária é exatamente o que a expressão-denominação que utilizo não só transparece como também se impõe: é estruturalmente tão frágil e sujeita a chuvas de recessão e trovoadas de inflação que está suscetível a ingressar na Classe Pobre e, até mesmo, na Classe dos Miseráveis.
REGIÃO X BRASIL
Há leve distinção (e os números que apresentarei no segundo capítulo desta minissérie vão ser contundentes) entre a Classe Média Precária deste País após 26 anos apurados neste século, com base em 1999, e a Classe Média Precária do Grande ABC.
No caso nacional, a Classe Média Precária (a Classe C de Renato Meirelles) é resultado direto, diretíssimo, de programas sociais do governo federal e também de governos estaduais e municipais. O Bolsa Família faz tanto sucesso social e eleitoral que não existe politica insensível à captura de votos. Recomendo aos leitores céticos quanto à influência direta de ações sociais dos governos em geral, que não duvidem do enunciado deste jornalista porque os dados são contundentes.
No caso regional, envolvendo as sete cidades que muitos imaginam irmandade administrativa, a Classe Média Precária é repartida quase que igualmente entre dois vetores inquietantes.
Significa a ascensão dos pobres e miseráveis fomentados por programas sociais e, de outro lado, agora com tom de gravidade alucinante, o que temos é o esvaziamento contínuo da Classe Rica e da Classe Média Tradicional.
CONCEITO LONGEVO
Não é de hoje que adoto a marca “Classe Média Precária” para resumir danos econômicos que impactaram o Grande ABC ao longo dos tempos. A bem da verdade, a queda proporcional de famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional vem de mais longe, do começo dos anos 1990, quando o presidente Fernando Collor de Mello promoveu a abertura dos portos e escancarou ao mundo as fragilidades econômicas de um Grande ABC movido a protecionismo estatal, política nacional que alimentou a revolução sindical e, na sequência, a desindustrialização agravada pelo Plano Real de Fernando Henrique Cardoso. Tudo isso, repito, está documentalmente provado nesta publicação.
Portanto, o enunciado-chave do livro de Renato Meirelles só não é uma patifaria interpretativa porque de fato é alienação econômica. Renato Meirelles, pesquisador especializado em excluídos sociais e fundador do Data Favela, não foi capaz de detectar fora do quadradismo de seus próprios versos esse artificialismo da maioria do que chama de Classe C.
Tanto é verdade que Renato Meirelles enxerga as classes sociais no Brasil condicionado à realidade dos mais desvalidos -- ou dos emergentes segundo a ótica otimista de transformações que não se sustentam -- que praticamente ignora tanto os ricos quanto a classe média tradicional.
Mais que ignorados, ricos e classe média tradicional são estratos sociais que não apetecem interesse do autor. Mais que isso: há manifestações entre linhas e mesmo mais assertivas de que os dois estrados sociais comandariam a autoria do suposto crime de desigualdades sociais no País. O Estado de Mal-estar Social é solenemente omitido como fonte primária dos descalabros nacionais.
Talvez Renato Meirelles devesse conhecer Diadema, exemplo nacional de igualdade social à moda de socialismo rastaquera. Igualdade na pobreza, na miséria ou mesmo de Classe Média Precária, não é resultado revolucionário que que se comemore. Basta observar a vizinha São Caetano, de desigualdade social típica de Primeiro Mundo. Qual endereço o leitor gostaria de fazer constar de seu cartão de visita social? Sem hipocrisia, por gentileza.
No segundo capítulo desta minissérie daremos números às respectivas classes sociais, especialmente quanto ao balanço do navio de alterações típicas de uma sociedade em processo de empobrecimento contínuo, fator determinante à ascensão contraproducente da Classe Média Precária, indevidamente incensada como classe de prosperidade.
Total de 1133 matérias | Página 1
20/07/2026 ENTRE O JUDICIÁRIO E OS VULNERÁVEIS SOCIAIS