Gostaria imensamente de queimar a língua, porque nada melhor do que ser contrariado quando o benefício é coletivo, mas duvido que o desempenho da nova administração na Associação Comercial e Industrial de Santo André seja mesmo que razoavelmente satisfatório. Nada contra o novo presidente, o jovem Evenson Dotto, diretor do Diário do Grande ABC. E também nada a favor. O problema é de tamanho muito maior: a cultura de provincianismo na gestão de entidades comerciais que se pretendem também industriais está centrada em meados do século passado.
Com alguma perfumaria aqui, outra ali, é verdade, mas a essência é semelhante aos tempos em que a região não era pretensiosamente chamada de Grande ABC e tampouco se dera conta de que cavava o buraco de Província.
Ainda outro dia um interlocutor me indagou a respeito do relacionamento com Evenson Dotto. Minha resposta foi simples e direta: nada contra nem a favor como agente econômico, vamos dizer assim. Como jornalista, não enfrentei barreiras visíveis no período em que atuei como Diretor de Redação do Diário do Grande ABC. Mais que isso: tive publicamente seu apoio quando do entrevero com os Polesis, que não pretendiam deixar o comando daquela redação. Pessoalmente, também jamais praticamos hostilidades mútuas. Sempre fomos civilizados. Não que uma coisa exclua a outra. Hostilidade muitas vezes é o lado autêntico da civilidade. E civilidade também ganha ares de hipocrisia em situações de hostilidade latente.
Marketing garantido
Mas tudo isso, convenhamos, não interessa nestas alturas do campeonato. Evenson Dotto ganhou as eleições na Acisa por conta de uma série de estratégias, entre as quais o voto múltiplo, também disponível ao oponente, e está aí com a promessa de mudanças técnicas, programáticas e conceituais. Terá o suporte de um velho companheiro de jornadas oficiais e oficiosas, Paulo Cesar Ferrari, acionista da Octopus, uma agência de publicidade que sabe das coisas da política como poucas. Ou seja: conta com o respaldo de profissionais na matéria de dar visibilidade ao que lhes interessar. Se vai fazer pouco ou muito é outra história.
Certo mesmo é que estarei de olho nele por dever profissional, assim como estou de olho em tantos outros. Hierarquizo a importância de acordo com a musculatura de inserção social das entidades. A associação dos criadores de gatos siameses ainda não merece atenção de meus neurônios. Nem dos papagaios de piratas, que é especialidade de um deputado estadual, como todos sabem.
Diria em princípio que o marketing de Evenson Dotto já está atrasado como elemento de sensibilização social. Um projeto de gestão da Acisa fora do território corporativo interno já deveria estar na praça. Diria mais: dada a histórica relação entre Acisa e o Diário do Grande ABC, o projeto de reestruturação institucional da entidade com abrangência regional já deveria ter sido costurado e apresentado. Se continuar demorando vou fazer o mesmo que fiz ainda outro dia para a Associação dos Construtores do improdutivo presidente Milton Bigucci: elaboro de graça um programa básico para que seja possível saber-se para onde se caminha.
Sucesso relativo, apenas
Francamente, não acredito no sucesso resolutivo, extra marqueteiro, de Evenson Dotto à frente da Acisa. Exceto se ele se tornar um gênio de relacionamentos que culminem numa série de decisões. Pouco poderá alterar a engrenagem emperrada das associações comerciais da Província. Já estaremos todos no lucro se os primeiros passos de reformulações saltarem das elucubrações de marketing e virarem realidade. É preciso dar o tiro de largada. De festinhas de posse e de algumas ações tópicas, sem profundidade institucional, já estamos cansados.
Evenson Dotto só precisa tomar um cuidado adicional com a corrente de puxadores daquilo que todo mundo sabe porque há gente de sobra para trocar suposta disposição de contribuir por espaço em coluna social do jornal do qual é diretor. O jogo de cena é mais que manjado. Sorrir ante fotógrafos é esporte de preferência nacional por estes lados dos trópicos. As figurinhas carimbadas de sempre fazem muitas marolas, lustram o ego mas no frigir dos ovos, nada realizam.
Se tiver um tempinho nestes dias vou alinhavar algumas idéias para Evenson Dotto expor a seus pares. Algo que Milton Bigucci provavelmente não o fez à frente da Associação dos Construtores porque não tem com quem dialogar, soberano que é, isolado como jamais alguém se tornou numa entidade que teria tudo para revolucionar usos e costumes no setor imobiliário da Província.
Tomara que Evenson Dotto não se espelhe em quem não produz basicamente nada para mudar a realidade regional tristemente expressa no anúncio de perda de 24 mil postos de trabalho no setor industrial em fevereiro, conforme números do Dieese, organismo mantido pelos sindicados de trabalhadores. A Província do Grande ABC vive nova fase de transformações, agora muito mais aguda que a dos anos 1990, quando se deu muito mal. A maioria ainda não se apercebeu disso. Mas se aperceberá, porque há situações em que lantejoulas verbais e manchetes de jornais entreguistas nada valem.
Total de 1995 matérias | Página 1
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC