Sociedade

Fórum da Cidadania:
cuidado com os fatos

DANIEL LIMA - 17/09/2002

As explicações do recém-empossado e do recém-desempossado coordenador-geral do Fórum da Cidadania, em matéria publicada na última sexta-feira pelo Diário do Grande ABC, são convite à avaliação no mínimo para que se preserve a história. O que o novo coordenador, Eugênio Belmonte, representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), e seu antecessor Clodoaldo Leite disseram ao jornalista Vinícius Casagrande nem de longe retrata as razões que fizeram do Fórum quase fantasma, ou uma espécie de sonho-pesadelo da integração regional.


 


Belmonte disse, sobre o esvaziamento do Fórum: "(É) fruto de um descontentamento com as políticas nacionais". Disse também que será preciso levar de volta ex-coordenadores que estão ausentes da entidade. "Só com união forte é que se faz um Fórum produtivo"-- disse Belmonte.


 


O jornalista do Diário também relata que a ausência de ex-coordenadores foi uma das justificativas apresentadas por Clodoaldo Lima para o declínio da entidade nos últimos tempos. Para eles -- segundo afirma o jornalista -- muitas pessoas estiveram atuantes dentro do Fórum da Cidadania apenas quando a entidade vivia sob "luzes e holofotes".


 


Vai em frente a reportagem: "Clodoaldo avaliou, no entanto, que o esvaziamento das discussões dentro do Fórum é também consequência de uma menor ação das demais entidades regionais, como a Câmara Regional do Grande ABC, o Consórcio Intermunicipal e os sindicatos"-- escreveu Vinícius Casagrande. "Para ele -- agregou o jornalista, referindo-se a Clodoaldo Lima -- após os ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, as pessoas passaram a se preocupar mais com os interesses pessoais que coletivos, o que também colaborou para o enfraquecimento da entidade".


 


Até Bin Laden


 


Rapidamente, apenas alguns pontos sobre o fracasso do Fórum da Cidadania que tanto o ex-coordenador quanto o atual não conseguiram repassar ao jornalista do Diário do Grande ABC:


 


 Estrutura gerencial amadorística, de voluntariado, num universo em que as ONGs profissionalizam-se com a contratação de especialistas.


 


 Uso político-eleitoral de lideranças que se declaravam publicamente, nas assembléias, radicalmente contrárias a ingressar na atividade pública. O descrédito é um fósforo que, quando aceso, destrói a unidade. Faltou ao colegiado que dirigia o Fórum da Cidadania a franqueza de que o movimento poderia gerar democraticamente novas lideranças políticas para substituir as antigas, tão execradas nos primeiros tempos da entidade.


 


 O Fórum trocou as mãos da mobilização da comunidade pelos pés de frustradas tentativas de executar tarefas vocacionais do Poder Público. A profundidade social de suas ações se limitou à elite dirigente das entidades que o compunham.


 


 Estrelismos exacerbados, inclusive de coordenadores.


 


 Restrição demagógica à participação de empresas. Submetidas ao estatuto, as organizações privadas contribuiriam com projetos e recursos financeiros. Piracicaba tem uma ONG que retrata essa postura pragmática e alinhada ao verdadeiro capital social.


 


 Excesso de dependência de tutelagem do Diário do Grande ABC. Muita gente confundiu envolvimento comunitário do maior veículo de comunicação da região com obrigatoriedade de produzir luz na escuridão de problemas, ou mesmo de esconder luzes de problemas na escuridão de iniciativas.


 


 Dispersão do foco de atuação. O gigantismo temático de pés de barro tornou a entidade excessivamente lenta e incapaz de apresentar resultados numa região em que os problemas se multiplicam em velocidade de trem bala e os anseios por resoluções tornam-se aguçados.


 


 Auto-adoração incontrolável. Os primeiros tempos de glória do Fórum da Cidadania criaram armadura de auto-suficiência fatal. Enquanto o Fórum se desintegrava, gestores públicos se organizavam.


 


 O desmelinguamento do Fórum provocou o recuo das ações das entidades públicas regionais, não o inverso. O Fórum foi lançado para animar o processo regional em várias áreas. Deveria se comportar como uma banda que ditasse o ritmo da festa da reestruturação regional. Preferiu sair do palco para se juntar aos convidados. Com isso, o baile acabou.


 


 Sem monitoramento permanente das lideranças, no sentido de estabelecer modus-operandi independentemente do perfil do coordenador-geral de plantão, o Fórum da Cidadania virou uma casa da sogra, com estilos pessoais personalistas sobrepujando os interesses coletivos. 


 


 O maior erro estratégico do Fórum não se concentrou na satanização da representatividade de empresas no conjunto de associados. Também execrou o Poder Público desde o lançamento do projeto, quando no mercado internacional de institucionalidade o que vicejava, e hoje floresce, é o capital social que envolve Poder Público, agremiações econômicas, sindicais e entidades não-governamentais. A Agência de Desenvolvimento Econômico criada pelo prefeito Celso Daniel está muito mais próxima dos ideais de uma sociedade sem barreiras.


 


Mais não escrevo porque o tempo urge, mas poderia elencar pelo menos 30 questões. Quando à evocada participação de Bin Laden, como sugere Clodoaldo Lima, francamente, talvez tenha sido uma anedota que o repórter levou a sério. Afinal, quando do ataque terrorista, o Fórum da Cidadania já estava morto e enterrado. Embora algumas viuvinhas tentassem recuperá-lo.


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