Regionalidade

Faltou realidade no slogan
Lulinha Paz e Amor de 2002

DANIEL LIMA - 06/08/2003

É muito mais que provável, é praticamente certo que os marqueteiros da campanha presidencial de Lula da Silva não conseguiram decifrar as entrelinhas das pesquisas qualitativas e quantitativas que definiram o mote consagrador do Lulinha Paz e Amor em 2002. Sim, Lulinha Paz e Amor foi um grande lance de perícia eleitoral de Duda Mendonça e seus asseclas -- mas não foi tudo.


 


Foi extremamente dócil e compartilhada a transição do desastroso governo Fernando Henrique Cardoso -- escorraçado por 70% do eleitorado -- para o governo Lula da Silva. Resvalou à hipocrisia, numa operação lambe-lambe em desacordo com os bastidores. FHC e Lula pareciam enamorados. É claro que a suposta lua-de-mel de diplomacia haveria de terminar, como já terminou. Na verdade, nem deveria ter tido a intimidade e os compadrios que teve, numa trégua acertada nos corredores de quem estava ameaçado de perder o poder e de quem queria se garantir a todo custo como poder emergente.


 


Neste ponto, o diplomata Fernando Henrique Cardoso foi o grande vitorioso, porque conseguiu imprimir digitais de cavalheiro no transplante de um governo excessivamente liberal no gerenciamento macroeconômico para um governo que exagerou na dose de civilidade para não espantar o eleitorado. E foi nesse buraco entre o recuo da explosividade do petismo radical do passado e a conversão a uma linguagem neo-esquerdista de submissão à estratégia eleitoral que Lula da Silva se deu mal.


 


Por que se deu mal? Basta acompanhar a cronologia de rusgas, desabafos, críticas, acusações e provocações entre petistas e peessedebistas depois de rapidíssima hibernação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, senha e âncora das manifestações. Zeloso que sou pela informação qualificada e fundamentada -- algo de que não faço questão de falsa modéstia --, tenho, entre as mais de 900 pastas pessoais de arquivo, uma específica sobre os conflitos recentes entre a turma de FHC e de Lula.


 


E no ano que vem?


 


Identificada como "FHC vs. Lula", o calhamaço ganha densidade a cada semana. Nada mais significativo, porque os entreveros verbais se cristalizam  no embalo eleitoral. Imaginem o que vai ocorrer no ano que vem, quando estarão em disputa mais de cinco mil prefeituras do País, plataforma do pleito presidencial de 2006.


 


Não recorro à pasta "FHC vs. Lula" para produzir este texto porque o noticiário dos jornais de hoje é emblemático quanto ao erro de foco estritamente bom-mocista de Lula da Silva nas últimas eleições. É o próprio presidente da República que entrega o ouro do reducionismo exagerado do mote Lulinha Paz e Amor da campanha eleitoral transposto aos debates e também à linha geral das mensagens do Partido dos Trabalhadores.


 


O que diz Lula da Silva? No encontro de ontem em Brasília com 96 prefeitos, 20 vice-prefeitos e quatro governadores do PT, o presidente disse exatamente o seguinte, diante do quadro de forte pressão dos movimentos sociais e cobranças por mudanças econômicas, além da gritaria dos dirigentes de prefeituras às voltas com o rebaixamento de repasses federais e estaduais por causa da crise econômica: "A verdade nua e crua é que muita gente poderia ter gritado um tempo atrás, poderia ter contribuído para isso não acontecer e ficaram quietos" -- afirmou Lula.


 


Ora, ora, o próprio presidente deveria se incluir nessa lista. Aliás, ele e seus assessores -- transformados em ministros e que comandaram a estratégia eleitoral do ano passado -- deveriam abrir a lista de responsáveis pelo atestado de ingenuidade explícita ao aceitarem do governo Fernando Henrique Cardoso, mestre em salamaleques, a transferência presidencial em ambiente efusivamente descontraído. Como se o Brasil, em janeiro deste ano, e mesmo anteriormente, no período eleitoral, não sofresse de mazelas seculares acrescidas por disparates da gestão fernandohenriquista nos últimos oito anos.


 


Faltou realidade


 


Lulinha Paz, Amor e Realidade -- eis a plataforma de embarque que deveria ter demarcado o conceito da disputa eleitoral do ano passado. O Brasil cor-de-rosa ou quase isso que se tentou fazer a população engolir nos debates dos presidenciáveis, especialmente nas intervenções de Lula da Silva em confronto com Fernando Henrique Cardoso, dissociou-se estupidamente da debacle econômica e social da última década.


 


Faltou aos marqueteiros de Lula da Silva a percepção de que os eleitores brasileiros repeliam sim baixarias e truculências verbais, sem, entretanto, renunciar a posturas críticas fundamentadas em evidentes descalabros que atingiram uma sociedade sacrificada por uma abertura econômica desmesurada sob os efeitos artificiais de uma moeda que chegou à insanidade de valer mais que o dólar.


 


O petismo esbravejador de um passado recheado de slogans ideológicos superados e soterrados pelos fatos deu lugar nas eleições do ano passado a um petismo falsamente conciliador, em nome da vitória a qualquer custo.


 


Por mais que o Brasil não estivesse preparado, ano passado, para os entrechoques partidários mais ostensivos, o que os marqueteiros de Lula da Silva fizeram também sob a influência estratégica de um adversário a quem não convinha, de forma alguma, exibir as mazelas nacionais antigas e recentes, foi uma grande patetice. Que agora, na medida em que aumenta a temperatura às eleições do ano que vem, se consolida como grande escorregão capaz de conferir às lamúrias justas desculpa de desesperado.


 


Só o PT reticente e incapaz de encontrar o meio termo entre a ferocidade e a docilidade não se apercebeu de que o governo FHC deu um nó ao referenciar a campanha Lulinha Paz e Amor.


 


O PT precisa realizar esforço adicional para patentear em nome de FHC a herança maldita que os adversários já começam a lhe atribuir, livrando a barra do antecessor.


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