Quando fechar a temporada agora em dezembro, e quando os números do Valor Adicionado emergirem das planilhas oficiais, qual terá sido o comportamento econômico do Grande ABC no primeiro ano do governo Lula da Silva? Vamos esperar, vamos esperar, mas sem julgamentos apressados. Não é porque está reticente o Lulacá, Urgente! -- como expressamos a idealização da capacidade de trazer Brasília para o Grande ABC e levar o Grande ABC a Brasília -- que devemos execrar a gestão do presidente que saiu de nossas entranhas operárias. Dificilmente, mas muito dificilmente mesmo, por menos que faça pelo Grande ABC, Lula da Silva conseguirá repetir a proeza do antecessor Fernando Henrique Cardoso, que nos retirou 39% do que pode ser chamado de PIB industrial nos oito anos de governança.
Enquanto no Grande ABC prevalece a expectativa do que virá em números no ano que vem, refletindo o ritmo da economia regional neste ano, há certo desconforto em Brasília depois do anúncio de que o PIB do terceiro trimestre apresentou crescimento de apenas 0,4% contra o trimestre anterior. Uma nota do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre o significado do resultado trimestral do PIB é esclarecedora no sentido de evitar que penumbras forjadas por analistas apressados -- mais que isso, enviesados – se sobreponham às tendências de comportamento efetivo da economia nacional, que interessa diretamente ao Grande ABC industrializador de bens de consumo diversos com suas cadeias automotiva, química e petroquímica.
O Ipea emitiu nota didática sobre o assunto que vale a pena ser reproduzida porque, como afirma, a abertura do PIB por setores traz importantes surpresas. O PIB agropecuário, ainda na comparação com o trimestre anterior, mostra queda de 6,7%, enquanto o de serviços mantém-se estável (0,1%) e a indústria cresce 2,7% (todos com ajuste sazonal). Anualizados -- prossegue a nota --, esses dados significariam uma contração dramática de 25% da agropecuária e uma expansão para a indústria de cerca de 11%. "Isso implicaria em quase um colapso da agropecuária, num ano reconhecidamente excelente para o setor" -- afirma a nota. E, também, uma taxa de crescimento da indústria que excede as mais otimistas previsões.
Publicações débeis
Quanto mais se avança nas informações do Ipea, mais se desnuda a debilidade das publicações nacionais na abordagem de temas mais sofisticados. Recorrem geralmente a supostos especialistas que geralmente não aprofundam as informações repassadas e, mais inquietante ainda, erguem compartimentos temporais que não só tornam suas sentenças precipitadas como incompletas.
Segundo o Ipea, a nota divulgada pelo IBGE já sugere que o surpreendente desempenho da agropecuária é algo de um significado muito pontual: reflete o final da safra da soja e o início da do café nas estatísticas trimestrais. "Acontece que a soja está atravessando um período de notável expansão, enquanto o café sofreu um boom da ordem de 20% no corrente ano. Em resumo, o dado para agropecuária (6,7%) absolutamente não representa o ano ou a tendência em curso. Concretamente, levando em conta o peso de cada setor, a queda do dado da agropecuária, por si só, provocaria uma retração de cerca de 0,5% do PIB" -- afirma o instituto.
Já no caso da indústria, segundo o Ipea, os 2,7% de crescimento no trimestre, se por um lado confirmam o impulso expansivo que se acentuou ao longo do terceiro trimestre, por outro parecem algo exagerado -- ou dificilmente sustentável em termos anuais. Mesmo sem dispor da informação desagregada para o setor, e fazendo-se um ajustamento sazonal nos dados do IBGE, verifica-se, segundo o Ipea, que o crescimento foi liderado pelo segmento da indústria de transformação, com os serviços industriais de utilidade pública também apresentando expressiva expansão.
Agora, as ponderações do Ipea: "Observe-se ainda que o crescimento excepcional da produção industrial nas estatísticas de setembro, que puxou para cima o resultado do terceiro trimestre, deverá ter como contrapartida uma expansão moderada em outubro. De qualquer forma, e ao contrário da impressão deixada pelo dado para o PIB, as informações que estão sendo divulgadas confirmam o firme crescimento do setor industrial -- que sempre tendeu a liderar o ciclo das atividades econômicas".
Investimentos em alta
O Ipea chama a atenção também para o crescimento expressivo do investimento no trimestre (2,8%). Embora o avanço tenha ocorrido sobre uma base bastante retraída, a inflexão sugere uma impulsão vigorosa na análise do instituto, o que corroboraria o crescimento já observado nos dados mensais de produção e importação de bens de capital. A leitura do Ipea, portanto, é de que há sinais de que o reaquecimento da economia esteja se transformando em movimento mais consistente, que já incorpora, via investimento, as expectativas empresariais.
O noticiário sensacionalista sobre o comportamento do PIB na esteira dos números do terceiro trimestre perde credibilidade na medida em que se antepõem as ponderações dos analistas do Ipea. O mote já enunciado por opositores ou especialistas em trocadilhos como "Em vez de Fome Zero, PIB Zero", como reproduzimos ontem neste espaço, decorre da superficialidade que caracteriza a maior parte das informações econômicas traduzidas de afogadilho pela mídia. A mídia parece ter feito um acordo informal de que o mais importante é impactar o noticiário levado aos consumidores de informação, sem se incomodar com a fragilidade dos argumentos. Consuma-se no campo econômico o que virou tradição em outras editorias -- primeiro, acusações; depois, eventualmente, os fatos. É por essas e outras que especialmente os jornais fazem campanhas institucionais para sacralizar a importância do produto não como veículo de informação, mas supermercado de ofertas de produtos e serviços.
Parece que há uma incontrolável superficialidade na mídia nacional. Sorte de José Simão, o inalcançável colunista da Folha de S. Paulo, cuja genialidade é alimentada tanto pela criatividade como pelos pecadilhos que a mídia reproduz com fidelidade ou não aos fatos. Em seu espaço de hoje, José Simão deita e rola sobre as deformações interpretativas do PIB. "Buemba! PIB é a Pobreza Individual do Brasil". Reparem no texto sempre sarcástico, sempre fantástico: "E diz que o Brasil vai ter PIB Zero. É Fome Zero, Fumo Zero, Emprego Zero, Pança Zero, PIB Zero. Entrega o país pro Recruta Zero. E PIB quer dizer Pobreza Individual do Brasileiro".
Provavelmente esteja faltando na mídia nacional alguém que seja a réplica de José Simão, com a diferença de que, em vez de transformar o noticiário de jornal, rádio, TV e Internet em insumo de inspiração à mordacidade, metabolize-o em forma de colunismo de análise do que os consumidores de informação são obrigados a engolir da mídia. Mais ou menos -- mas de forma abusadamente avacalhadora -- o que relatamos no livro Meias Verdades, resultado de pesquisa em nossos arquivos pessoais.
Que o jogo está complicado para o governo Lula da Silva, entretanto, não há dúvida. A herança de Fernando Henrique Cardoso é pesadíssima. Só os tucanos de carteirinha negam a hereditariedade dos problemas. Não é verdade completa o argumento de que o descontrole inflacionário e a disparada do dólar seguiram o roteiro das possibilidades crescentes de Lula da Silva supostamente incendiário ganhar as eleições no ano passado. O PT carregou parte do fardo da responsabilidade da desconfiança dos agentes econômicos e financeiros locais e internacionais pelo enredo oposicionista pouco reflexivo, fortemente incendiário. Mas a outra cota de desconfiança se deve aos então situacionistas que, até onde puderam, mesmo quando um Lula da Silva maleável e domesticado aparecia nos programas eleitorais, demonizaram o candidato petista. Ou seja: não há santos nessa história.
Esquerda e direita
Se é verdade que o governo Lula da Silva tem desconsiderado a importância dos rombos causados por Fenando Henrique Cardoso ao Grande ABC, por outro é fato que o amadurecimento do Partido dos Trabalhadores à frente do governo federal é uma lição de humildade que geralmente os arrogantes de centro-direita são incapazes de exibir. Talvez seja essa a grande diferença entre esquerda e direita, se quisermos emblematizar em termos ideológicos essa divisão que começou no século passado com os franceses e, por mais semânticas que se utilizem, ainda viceja no campo político. Tanto viceja que os desdobramentos sobre o comportamento do PIB não se sustentam apenas pela baixa capacidade de interpretação de dados que a mídia, de maneira geral, apresenta nas mais diferentes oportunidades. Há também evidentes motivações político-ideológicas a sustentar as estacas de informações propositadamente pela metade.
Embora o Grande ABC não tenha conseguido seguir os passos macroeconômicos do País, já que mesmo cambaleantes os anos FHC alcançaram crescimento médio do PIB de 2%, pouco acima do avanço demográfico, tudo que se relacionar às linhas comportamentais desse macroindicador interessa à interpretação de nossa realidade. Desconfio de que, mais uma vez, quando os dados de 2003 saltarem para a tela de computador, contabilizaremos nova derrota no comportamento da economia regional. A diferença talvez seja a queda da velocidade média de quase 5% ao ano que demarcou a estupidez da abertura comercial e a descentralização automotiva gestadas pelo governo FHC. Ou seja: deveremos continuar perdendo em 2003, mas perdendo menos do que perdemos em média nos oito anos fernandohenriquistas. O que já melhora o cenário.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL