Fundador e presidente do Conselho de Administração da CVC, Guilherme Paulus se dedica a uma empreitada que extrapola fronteiras corporativas e invade o terreno da regionalidade: empenha-se na criação da Cidade do Automóvel em São Bernardo ou Santo André, para que a região desenvolva nova matriz socioeconômica conectada ao patrimônio das montadoras. A idéia pode parecer inviável ou mesmo absurda para quem se acostumou a ver o Grande ABC como reduto essencialmente manufatureiro, incapaz de atrair visitantes nacionais e estrangeiros que não estejam de passagem por força de obrigações profissionais nas linhas de montagem, mas não é o que pensa o responsável pela maior operadora do País, com 1,3 milhão de pacotes comercializados no ano passado.
Para Guilherme Paulus, o Grande ABC agrega potencial fantástico para converter a presença das montadoras em pólo de visitação capaz de alavancar indicadores de renda, tributos e empregos. É a mensagem que tem transmitido aos escalões superiores do poder federal como membro do Conselho Nacional de Turismo, vinculado ao Ministério do Turismo criado no governo Lula.
“Tive uma conversa com a ministra Marta Suplicy. Ela ficou encantada e se comprometeu a dar encaminhamento ao projeto. Também falei diretamente com o presidente Lula no lançamento do Plano Nacional de Turismo, em Brasília. O presidente ouviu atentamente e disse: puxa Guilherme, é isso mesmo..., motivado principalmente com a perspectiva de que a história dos trabalhadores também seja contada” — comenta o presidente do Conselho de Administração da CVC.
Convém conhecer o que Guilherme Paulus chama de Cidade do Automóvel. Ao contrário do que os simplistas imaginam, museu de carros antigos seria apenas um dos ingredientes de um prato muito mais completo, até porque o Grande ABC levou um passa-moleque da gaúcha Canoas, que criou o primeiro museu em área cedida pela Ulbra (Universidade Luterana do Brasil), com suporte da General Motors, como LivreMercado já mostrou.
Guilherme Paulus destaca que a Cidade do Automóvel teria de agregar parque temático, bares temáticos e até teatro com encenações que contassem o passado e vislumbrassem o futuro da indústria automobilística. “Seria uma Disney World dos automóveis, capaz de interligar entretenimento e diversão à cultura” — sintetiza, ao confidenciar que tirou a idéia do teatro de experiência semelhante realizada em Bento Gonçalves, nas Serras Gaúchas, onde artistas magnetizam a atenção dos visitantes ao narrar a saga dos primeiros imigrantes italianos.
Guilherme Paulus não tem dúvida de que uma Disneylândia automotiva no molde do que existe de mais avançado em termos de interatividade traria infindáveis vantagens para a região que melhorou mas está longe de se recompor das perdas da década de 1990. “O mundo inteiro é apaixonado por automóveis, não apenas os brasileiros. Ao movimentar 52 setores, sobretudo na área de serviços, a indústria do turismo pode ser uma das chaves para a criação de empregos para jovens e aposentados” — aposta.
O comandante da CVC só demonstra constrangimento quando incitado a apontar o Município mais apropriado para o projeto, porque sabe que considerações de um especialista podem ferir suscetibilidades político-partidárias na esfera municipal. Mesmo assim, não recusa o questionamento. “A Cidade do Automóvel poderia ser construída em São Bernardo, em uma das áreas remanescentes da Volkswagen, ou quem sabe em Santo André, no espaço que já foi ocupado pela Pirelli. Neste caso, a facilidade de acesso poderia ser potencializada com a criação de parada ferroviária batizada de Estação Pirelli” — sugere.
A moldura conceitual das observações de Guilherme Paulus é a seguinte: o Grande ABC atingido em cheio pela desindustrialização especialmente nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso oferece áreas de sobra que precisam ser reaproveitadas com inteligência.
A lógica setorial manda que a Cidade do Automóvel seja construída em São Bernardo, enquanto a compatibilidade partidária irradiada do Palácio do Planalto leva a apostar que o projeto estaria mais para Santo André. Eis mais uma oportunidade para os comandantes dos sete paços demonstrarem capacidade de deixar o municipalismo de lado e se unir por uma causa mais do que justa para a região que ainda produz dois de cada 10 automóveis e comerciais leves brasileiros.
A Cidade do Automóvel seria o terceiro legado do governo Lula à região historicamente negligenciada por Brasília, com exceção de Juscelino Kubitschek. As duas heranças recentes que tiveram participação do ex-metalúrgico são a implantação da Universidade Federal do Grande ABC e a liberação de matéria-prima pela Petrobras para a expansão do Pólo Petroquímico, programada para abril de 2008.
O momento para a criação da Cidade do Automóvel é apropriado não apenas porque a indústria automobilística vive o melhor momento da história com oferta recorde de crédito. O Plano Nacional de Turismo prevê a consolidação de 65 rotas que vão contribuir para que o volume de visitantes estrangeiros salte de cinco milhões no ano passado para oito milhões em 2010. A Cidade do Automóvel pode ser um dos itinerários mais promissores.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC