Economia

Província ainda não se deu conta
das dores do empreendedorismo

DANIEL LIMA - 10/10/2013

Costumo dizer que a cobertura da Imprensa explicita o grau de cidadania e de maturidade de uma determinada região. A Província do Grande ABC não é obra do acaso. É consequência do descaso. Na semana passada o Ciesp (Centro das Indústrias) de Santo André promoveu o que chamou de 1º Simpósio da Indústria e Suas Perspectivas na Cidade de Santo André. Foi uma choradeira (mais que justa, por sinal), mas exceto meia página do Diário do Grande ABC, não li nada a respeito nos demais veículos impressos e digitais. E pensar que todos os dias, dia sim e dia sim também, o Diário do Grande ABC reserva uma página inteira ao colunismo social conservador, aquele que passa longe de questões políticas e sociais, casos da Folha de S. Paulo e do Estado.


 


Não fosse a revista LivreMercado que criei e dirigi por praticamente duas décadas, os aspectos econômicos da Província do Grande ABC teriam sido negligenciados ao longo dos anos. Mais que negligenciados: a visão edulcorada de uma situação de desindustrialização desumana teria prevalecido, porque o Diário do Grande ABC, mais que qualquer outro veículo da região, dedicou-se a confundir análises com torcida organizada.


 


O que encontramos de chiadeira hoje, como lemos na cobertura do evento do Ciesp, é a continuidade de um estado de completo abandono das pequenas e médias empresas industriais, destruídas em larga escala por políticas macroeconômicas do governo federal, por desinteresse do governo estadual e por incompetência dos administradores municipais.


 


Até mesmo o presidente da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Evenson Dotto, pronunciou-se no simpósio do Ciesp acima do tom habitual de confiança e otimismo acrítico. Leiam o que disse:


 


 “Temos de achar o caminho correto para manter as empresas, melhorar a qualidade e gerar emprego e renda”, completou o presidente da Acisa (...). Ele enfatizou que a questão principal é traçar um cenário para manter as 13 mil companhias da cidade e utilizar, ao máximo, a produção de conhecimento das 83 universidades do Grande ABC – escreveu o Diário do Grande ABC.


 


Uma parceria construtiva


 


Exceto o exagero da dimensão do mundo universitário na Província do Grande ABC, Evenson Dotto fez uma observação sobre a qual provavelmente não tenha se aprofundado, mesmo nos momentos de reflexão, mas que vale a pena ser prospectada. Afinal, deve-se levar em contar a proximidade entre um grupo de representantes da Acisa e da Administração Carlos Grana, relação que culminou na indicação da educadora Oswana Fameli para o cargo de vice-prefeita e também, uma barbaridade, de Secretária de Desenvolvimento Econômico.


 


Do que se trata essa prospecção? Quando afirmou que há 13 mil companhias na cidade que precisam ser mantidas, novamente o dirigente da Acisa se equivocou nas estatísticas, porque o somatório de empresas industriais, comerciais e de serviços em Santo André ultrapassa a 60 mil unidades. Mas isso é de menos. O mais importante é tentar equilibrar o jogo da sobrevivência da maioria desse contingente atingido em cheio desde o começo dos anos 1990 por sinistra combinação de esvaziamento industrial e inchaço de negócios de comércio e serviços criados por desempregados.


 


O empreendedorismo na região, não só em Santo André, é uma carnificina total, com lobo comendo lobo. Tentar reduzir a carga explosiva de excesso de negócios de uma mesma atividade em espaços territoriais próximos seria uma iniciativa saudável, sobre a qual me referi há muitos anos.


 


Caberia à Prefeitura, em convênio com a própria Acisa, esquadrinhar cuidadosamente, bairro a bairro, os estabelecimentos comerciais e de serviços disponíveis, de modo a, num processo subsequente, gerenciar informações que possibilitariam incrementar novos negócios e também recomendar mudança de rota de quem pretende virar empreendedor. Há excessos e escassez de ofertas de comércio e serviços em áreas municipais.


 


Como os shoppings


 


Não vou me alongar sobre a sugestão que tem outras variáveis compatíveis com a importância de fortalecer os empreendimentos do Município na exata medida em que impede que, por excesso de concorrência, muitos sonhos se desvaneçam. O princípio macroespacial de ocupação empreendedora não seria muito diferente da lógica dos shoppings centers. Esse projeto se ajusta perfeitamente a outro que apresentei há muito tempo, de conversão de parte dos recursos do IPTU (Imposto sobre Propriedade Territorial Urbana) em desenvolvimento econômico e social também por bairros.


 


Voltando ao encontro do Ciesp de Santo André, o titular da instituição, Emanuel Teixeira, deixou vários recados, segundo o Diário do Grande ABC. Todos mais que conhecidos: ele disparou críticas contra a situação imposta principalmente aos fornecedores dos sistemistas da cadeia automotiva da região. “Ele explicou que esses empresários sofrem por estarem reféns de um complexo sistema que exige qualidade tecnológica na produção para não perder a competição contra os importados que, por sinal, chegam muito mais baratos do que os itens de fabricação local” – escreveu o Diário do Grande ABC.


 


Nada basicamente diferente de muitas matérias e análises da equipe de jornalistas de LivreMercado. Assim como as demais queixas do dirigente empresarial, sobre as dificuldades de obter recursos de bancos de fomento, sobre a carga de impostos, sobre tudo que se opõe ao empreendedorismo.


 


No século passado


 


A sazonalidade de cobertura dos desarranjos locais do empreendedorismo principalmente de pequeno e médio porte é peça-chave à explicação da situação em que se encontram. O voluntarismo associado ao quebragalhismo das representações empresariais, ainda com a cabeça, o tronco e os membros em meados do século passado, quando o Brasil iniciava processo de substituição de importações e o mundo estava longe de ser plano, viraram peças de museu de gerenciamento e operacionalidade das instituições de classe.


 


A baixa representatividade das unidades do Ciesp na região não difere do restante da instituição no País, assim como é um espelho das associações comerciais. Eventos esporádicos não vão alterar o rumo dos acontecimentos. Até porque, nos bastidores, sempre haverá agente público como Oswana Fameli, secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo André que, entrevistada por Leandro Amaral, do Repórter Diário, durante um intervalo ou ao final daquele encontro, desfilava um discurso de extraordinária descontração, sorridente como a propagar milagres de determinado creme dental. Em outro vídeo, também produzido durante ou após aquele evento, o prefeito Carlos Grana era uma versão masculina da alegria esfuziante da secretária Oswana Fameli.


 


Parece que perdemos até o pudor de parecermos preocupados.


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