O tempo é soberano em colocar tudo no devido lugar. Nem sempre, é verdade, no momento ideal, mas isso é outra conversa. Aos poucos os leitores mais assíduos vão tomando conhecimento de que a defesa empedernida de um inocente no caso Celso Daniel, contrariando o Ministério Público e a quase totalidade da mídia, não poderia jamais ser correlacionada a suposto escravagismo ideológico ou a qualquer outro tipo de injunção que adulterasse o espírito jornalístico. E tampouco significava alinhamento automático às causas petistas. Muito menos, também, a uma vocação opositora ao Ministério Público, a quem combati e fui combatido com respeito e democraticamente.
Passados quase 11 anos desde a morte do prefeito de Santo André, de quem não fui amigo como alguns sugerem, os detratores de sempre, gente sem qualificações, sabem que caíram do cavalo. As ácidas intervenções que há muito faço aos administradores petistas na Província do Grande ABC me custam caro. Afinal, eles procuram estreitar minhas margens de manobras profissionais, sistêmicos como poucos partidos. Mas me mantêm em situação análoga aos tempos em que solitariamente escrevia que Sérgio Gomes da Silva fora o bode expiatório de um crime comuns transformado em crime político-administrativo.
Conversando outro dia com um amigo que me acompanha há muito tempo fiz mais ou menos essas considerações. Mais que isso: sei o quanto se torna difícil ao exercício de jornalismo independente sustentar uma postura aparentemente, só aparentemente, de incongruências, porque a ordem unida é muito mais acomodatícia: vale muito a mais a pena para quem não tem compromisso com os leitores alinhar-se a uma determinada agremiação política, a um determinado setor econômico, a um viés qualquer em outras esferas para manter uma linha supostamente de coerência, mesmo que nesse caso tudo não passe mesmo de uma tremenda burrada. Ou os leitores duvidam que nem sempre coerência tem o sentido de retidão, de amadurecimento intelectual, de responsabilidade social? Coerência não é necessariamente sinônimo de inteligência.
Enfrentamento difícil
Não é fácil o exercício profissional do jornalismo quando se tem a coragem de se colocar contra uma maioria massacrante que elegeu Sérgio Gomes da Silva para desopilar o fígado e a alma antipetista, como se deu durante anos a fio pós-morte do prefeito Celso Daniel. Tampouco não seria de bom alvitre opor-se à então força-tarefa do Ministério Público que seguiu uma linha de raciocínio que elegia Sérgio Gomes da Silva o autor intelectual do crime, por mais que todas as investigações policiais a contradissesse. E o que se viu, com as medíocres administrações petistas na região, todas, como a de outras agremiações, sob o massacrante comparativo dos anos dourados de exuberância intelectual e discernimento de Celso Daniel?
Sei que sei que há em algumas instâncias do Ministério Público da Província do Grande ABC rescaldos retaliatórios a este jornalista por conta do caso Celso Daniel. Sobretudo em Santo André, sinto que há entre alguns dos integrantes do MP o espalhamento de uma antipatia corporativa intrigante que atravanca várias denúncias de irregularidades, entre outras iniciativas de bastidores.
O único caso em que a Justiça deu guarida a uma estupidez de tentativa de me calar, no Fórum de Santo André, foi muito bem concatenado por uma promotora criminal que não esconde revanchismo contra este jornalista. Muito antes de o juiz de Direito tomar aquela decisão absurda, que está sendo contestada em segundo grau e contra a qual irei ao inferno para instaurar a lógica de que exerço o direito pleno de livre expressão e de liberdade de imprensa para evitar que a sociedade seja ainda mais vítima de um mercador imobiliário, muito antes, dizia, sentia que havia algo estranho naquele ambiente.
Ministério Público em ação
Felizmente, o Ministério Público é muito maior que um ou outro membro que o compõe e, mais que isso, vem provando que procura exercer funções estruturadas sob o princípio de auxiliar para valer na engrenagem dos direitos constitucionais. Uma prova disso é que foi o Corregedor-Geral do Ministério Público do Estado de São Paulo quem determinou a reabertura do caso Marco Zero, empreendimento da MBigucci que está sendo construído em área arrematada de forma fraudulenta em leilão público em São Bernardo. Repito: arrematado de forma fraudulenta pelo empresário Milton Bigucci que, sabedor da realidade desta acusação, jamais me acionou e jamais vai me acionar na Justiça, porque sabe que é exatamente isso que pretendo para desmascará-lo. Mas nada disso provavelmente será mais preciso após a decisão do Ministério Público de São Bernardo abrir inquérito civil a pedido do Corregedor-Geral. Somente uma patetice sem tamanho ousaria imunizar o empresário da empreitada delituosa.
Contrastes saborosos
Sei que há leitores-baratas-tontas na tentativa de decifrar o jornalismo deste CapitalSocial. Não condeno quando um ou outro destila alguma bobagem. Geralmente eles medem o jornalismo que pratico tendo por analogia profissionais que se amoldam convenientemente às circunstâncias, imaginando, esses profissionais, que todo mundo tem a memória curta e que, portanto, podem dizer hoje o que vão desdizer amanhã porque não haverá custo algum à imagem e a credibilidade dos insumos que produz. Fosse para ser assim, não seria jornalista. Teria vida longa e faustosa na política.
Rio para valer quando encontro de vez em quando leitores antipetistas que me condenavam por defender um inocente que ainda hoje consideram culpado, e me atribuíam um petismo desmesurado, e hoje, roda da informação e da análise num girar permanente, sentem-se de certa forma incomodados até em me cumprimentarem e me cobrirem de elogios. Da mesma forma que outros, petistas viscerais que me imaginavam um companheiro a desfraldar a mesma bandeira, também por causa do caso Celso Daniel, agora me viram o rosto, fogem ao cumprimento mesmo à distância, porque escrevo que a Administração Luiz Marinho é medíocre, que o prefeito de São Bernardo é incompetente ou corrupto, que Carlos Grana é uma perda de tempo para quem imaginou que pudesse retomar o projeto de Celso Daniel, que Carlos Grana é um Aidan Ravin sem o mesmo charme -- essas coisas e muito mais.
Já errei bastante como jornalista, principalmente quando resolvi acreditar no futuro da Província do Grande ABC, esse ancoradouro de improdutividades e de malandragens, mas jamais incorri no pecado capital da insubordinação à realidade dos fatos, preferencialmente da realidade dos fatos esmiuçada, triturada, combativa e provocativa -- porque jornalismo é isso.
Não é nada fácil ser jornalista nesta Província porque os tomadores de decisão não suportam ser contrariados e os formadores de opinião formam uma massa seletiva cada vez mais sob a influência dos tomadores de decisão entre outros motivos porque há farta distribuição de privilégios com dinheiro público. Ou seja: estão juntos e misturados. Por isso que somos essa coisa amorfa que insiste em andar para trás, embora não faltem aqueles bobos da corte a tentar provar que se caminha celeremente rumo a um futuro de glória.
O que petistas e antipetistas mais ortodoxos e interesseiros precisam entender é que o jornalismo de CapitalSocial não autorizado por fontes oficiais ou oficiosas, é um exercício permanente de liberdade de imprensa. Meus textos são submetidos à apreciação prévia apenas de minha consciência e do dever de informar. Nada passa pelas mãos grandes e bolsos fartos de gente desqualificada.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)