São Bernardo e São Caetano podem estar diante de um bilhete de loteria premiado. Às vésperas de decidir que destino dar, afinal, à abandonada Cidade da Criança, um dos empreendedores interessados no parque público, Jorge Antônio Pinto, anuncia a possibilidade de parceria com a norte-americana Branch Brazil, especializada em desenvolvimento e gerenciamento de eventos e shows de grande porte. Jorge Antônio Pinto dirige a Fionda, nada menos que a maior fabricante de equipamentos para parques de diversão e lazer da América Latina, instalada em Várzea Paulista, no Interior do Estado. No final de fevereiro último, ciceroneou Jim Johnson, Arlon Spaeth e Richard Bjorklund, representantes da Branch, em visita à Cidade da Criança e aos Estúdios Vera Cruz, além do Estádio Anacleto Campanella, em São Caetano.
"Eles ficaram encantados com os locais e estão dispostos a investir nos equipamentos e em outras áreas no Grande ABC" -- confirma o representante da Fionda. Os americanos acenam com um centro de eventos no Vera Cruz -- outro ponto que já deu fama a São Bernardo e cuja revitalização passa igualmente pela burocracia pública --, além de shows na Cidade da Criança e a otimização do Anacleto Campanella, dotando seu entorno com hotel, shopping, academia e posto de entretenimento. A Branch tem pedigree: assina esse mesmo entorno arquitetônico no famoso Estádio de Wimbledon, na Inglaterra. Na visita ao Brasil os diretores também estiveram em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, com interesse semelhante.
Há pelo menos dois anos a Cidade da Criança faz arregalar os olhos de Jorge Antônio Pinto, da Fionda. O que onera a municipalidade, a ponto de o prefeito Maurício Soares ter dado prazo até este mês para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo apresentar proposta viável, pode ser solução de negócios nas mãos da iniciativa privada. A proposta do empresário está nas gavetas da secretaria desde novembro de 1998 e é bastante explícita: a Fionda se dispõe a investir R$ 17 milhões em nove meses, período em que fará reformulação ambiental, instalará novos equipamentos e remodelará a área, respeitando a arborização. Os brinquedos passam a contar com segurança e tecnologia de última geração e com uma novidade: servir toda a família.
"Dentro do conceito de uso familiar, os equipamentos serão montados para servir crianças a partir de dois anos, abrangendo todas as faixas etárias" -- especifica Jorge Antônio Pinto. A empresa pede, em contrapartida, concessão do espaço por 15 anos, durante os quais a Prefeitura será remunerada com 10% do volume total de ingressos vendidos. Independente disso, terá garantia de no mínimo 45 mil tickets por ano.
Com brinquedos ultrapassados e a maioria em mau estado de conservação, a Cidade da Criança é administrada pela Prefeitura há 32 anos. Consciente do potencial turístico e do nome ainda respeitado nos meios de lazer e entretenimento, o prefeito Maurício Soares trabalha sobre quatro idéias principais: transformar o local em um parque 24 horas semelhante ao Duque de Caxias, em Santo André, formar parceria com empresas privadas para gerenciamento do espaço e exploração dos equipamentos, terceirizar todas as atividades ou simplesmente vender a área. Hoje a Prefeitura custeia a manutenção de 13 brinquedos próprios e os salários de 45 servidores. Além dos brinquedos da municipalidade, outros 22 de empresas particulares compõem o empreendimento. Estudos da Prefeitura mostram que cada visitante representa um déficit de R$ 12 aos cofres públicos, mesmo com ingressos a R$ 1,40 cobrados de crianças a partir de 12 anos.
Qual então será o melhor destino para a Cidade da Criança? Para Jorge Antônio Pinto, diretor da Fionda, o empreendimento tem tudo para dar certo. "É um local ímpar, um espaço maravilhoso. Está bem situado e tem aliado muito forte: tem grife" -- constata o empreendedor, que criou a Fionda em 1962 com atividade voltada exclusivamente para parques de diversões e lazer e diversificou a atuação depois para administração de espaços no segmento. São hoje 52 áreas de lazer administradas em shopping centers espalhados por todo o País, além de fornecimento de equipamentos para os parques Terra Encantada (Rio de Janeiro/RJ), Walter World (Poços de Caldas/MG), Beto Carrero (Penha/SC) e Magic Park (Aparecida/SP), entre outros.
Na era dos serviços, lazer e entretenimento têm despertado os donos do capital em todo o mundo. No Brasil, dados da Embratur indicam que no quinquênio 95/99 foram investidos no País US$ 6 bilhões em novos projetos turísticos, distribuídos em 300 hotéis em construção e 10 novos parques temáticos, o que gerou 140 mil empregos diretos e mais 420 mil indiretos. No ano passado, o setor de turismo brasileiro movimentou US$ 20 bilhões e nos próximos dois anos estão previstos mais US$ 8 bilhões em infra-estrutura, hotéis e resorts.
Mesmo com esse potencial, cada passo deve ser estudado. Parques aquáticos e temáticos, que foram coqueluche há cinco anos, hoje se afogam em prejuízos e descem no escorregador da estratégia inadequada. O brasileiro Hopi Hari amargou no ano passado prejuízo de R$ 80 milhões e o norte-americano Wetn Wild está liquidando o parque construído em Ribeirão Preto e desativou o instalado em Salvador.
Total de 1995 matérias | Página 1
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC