Sociedade

Santo André caminha para festejar
aniversário com minuto de silêncio

DANIEL LIMA - 08/04/2014

Não ousaria escrever que Santo André merece em seu aniversário de fundação um minuto de silêncio, por ter morrido de morte matada, mas entre esse excesso de radicalismo e o inverso, de comemorações efusivas, creio que a pedagogia às transformações necessárias recomendaria o suposto pessimismo. Sim, suposto pessimismo, porque há uma infinidade de dados econômicos e sociais que despacham Santo André para os últimos lugares em competitividade, com reflexos fundos no conjunto da sociedade.   

A prova provada de que Santo André há muito tempo virou o fio do desenvolvimento econômico sem que nenhuma autoridade pública se lançasse a desafiar o contexto de regionalidade implícita e se dedicasse a soluções caseiras, está nas entrevistas do prefeito Carlos Grana aos veículos de comunicação da região nestes dias. O que menos se propagou foram questões econômicas. A secretária de Desenvolvimento Econômico, educadora Oswana Fameli, é quase que integralmente ignorada. Nada diferente dos antecessores no cargo. Santo André é um Município à deriva. Vive de bravatas, de obras varejistas aqui e ali, mas segue indefinidamente longe de qualquer radar de investimentos. Exceto de investimentos públicos, prometidos pelo governo do Estado e pela União. 

Um dos mapas da mina para uma tomografia confiável de Santo André é o Índice de Potencial de Consumo que a empresa IPC Marketing e Editora produz há mais de duas décadas. São dados mais que confiáveis, porque abastecidos por fontes oficiais e metabolizados por uma metodologia inédita. O potencial de consumo é algo muito mais valioso que o PIB (Produto Interno Bruto) porque identifica a riqueza de cada Município em termos de acumulado de rendas, indiferentemente do local em que seus moradores ganham o sustento.  

Abaixo do Brasil 

Desde a implantação do Plano Real – os dados do IPC Marketing se referem a esse período – Santo André vem levando uma sova atrás de outra da média brasileira. Média brasileira de potencial de consumo não é lá um referencial dos mais drásticos, utilizado propositadamente para espicaçar com um determinado Município.  

Como se sabe, o Brasil avança a passos de tartaruga faz décadas. Pois bem: Santo André, nosso centro de atenção deste oito de abril, por conta de João Ramalho, seu fundador – perde feio para o Brasil quando se trata de acumulação de riqueza. Estamos perdendo feio, repito, porque Santo André é um Município que há muito arrefeceu o dinamismo econômico e há igual tempo embrenhou-se num jogo sórdido de corrupção dos podres poderes públicos em combinação com os podres poderes privados.  

Vamos aos dados. Em 1995, segundo os dados do IPC Marketing, Santo André contava com potencial de consumo, com riqueza disponível de seus moradores, de R$ 3.526.300 bilhões. Na ponta da pesquisa, em 2013, alcançou R$ 16.704.970 bilhões. Sempre em valores nominais, ou seja, sem correção monetária, ou seja, sem o desconto inflacionário. Já o Brasil contava com R$ 380.098.376 bilhões de potencial de consumo em 1995, ante R$ 2.801.354.236 trilhões em 2013. No período, anotem, Santo André cresceu nominalmente 373,72% em acumulação de riqueza, enquanto o Brasil saltou 637%. Diferença pró Brasil de 41,33%. Santo André precisaria somar ao final de 2013 nada menos que R$ 22.462.531 bilhões de potencial de consumo (em valores absolutos), com adicional de C$ 5,75 bilhões para manter-se em equilíbrio com o rendimento médio nacional.  

Diferença aumenta 

Quando se recolhem os mesmos números e se leva o embate ao critério de potencial de consumo por habitante, a diferença aumenta: o Brasil registrou no período crescimento per capita de 479,90%, enquanto Santo André não passou de 324,12%. Diferença? Nada menos que 48,06%. Ou, trocando em miúdos, a média de crescimento de um Brasil que não cansa de patinar economicamente foi insuperavelmente maior que a de Santo André. 

O caminhar trôpego da economia de Santo André, entretanto, é muito mais profundamente preocupante do que enseja o potencial de consumo. Estamos devorando ao longo dos anos partes valiosíssimas das riquezas construídas em períodos férteis. Sem dinamismo econômico, não resta saída à população (e isso já está colocado em prática há muito tempo) senão buscar fora de casa o sustento mais qualificado, mas também menos qualificado, de salários, porque as oportunidades que se oferecem no Município à mobilidade social são estreitíssimas. Tanto que cresce acanhadamente e muito distante (assim como a maioria dos municípios da Província do Grande ABC) nos extratos de ricos e de classe média.  

Os efeitos colaterais de uma Santo André que busca fora de casa o sustento do dia a dia (e isso se dá de forma agressivamente preocupante, com quase metade dos trabalhadores se dirigindo a outros municípios da Grande São Paulo) se manifestam calamitosamente no capital social da comunidade, fragilizadíssimo e entregue aos senhores detentores dos podres poderes.  

Quanto mais Santo André se distanciar da competitividade dos  maiores municípios paulistas, como mostram os dados do G-20, o grupo dos endereços mais ilustres do Estado, compilados e analisados por CapitalSocial, mais sentirá as dores da quebra de potencial de consumo. Vem do passado a marca de mobilidade social do Município hoje ocupado administrativamente por um tipo de gerenciador público que não difere em nada dos anteriores, a partir da morte de Celso Daniel: é medíocre no sentido mais crítico da palavra. 

Santo André ainda não merece um minuto de silêncio porque não morreu economicamente por conta da inércia determinada pelo passado que insiste em não voltar mesmo que de forma tímida porque os donos do presente não têm compromisso algum com o futuro – exceto com o futuro eleitoral e com o futuro de enriquecimento patrimonial particular.  

Entretanto, do jeito que a banda toca e a sociedade não faz outra coisa senão imitar a Januária de Chico Buarque à janela, não faltará o dia do minuto de silêncio ensurdecedor e vergonhosamente pactuado pelos covardes de plantão, quando não os neo-oportunistas que se travestem de inovadores.  

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