Sociedade

Procurador denunciado pelo MP
escondeu fraude da MBigucci

DANIEL LIMA - 16/04/2014

José Roberto Silva, então Procurador-Geral da Prefeitura de São Bernardo, foi o servidor público da Administração Luiz Marinho que me recepcionou em setembro de 2012 para colher as provas de que a MBigucci e outras empresas fraudaram a licitação pública que culminou no arremate irregular da área onde está sendo construído o empreendimento Marco Zero. José Roberto Silva, então Procurador-Geral da Prefeitura de São Bernardo, está sendo denunciado pelo Ministério Público de São Bernardo por envolver-se, anteriormente, em fraude da gestão petista na aquisição de materiais escolares.


 


A diferença entre os dois fatos é que o MP, mais precisamente o Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado) foi ludibriado pelo então Procurador-Geral José Roberto Silva e, inadvertidamente, mandou arquivar a falcatrua do Marco Zero. Tempos depois, a Corregedoria-Geral do MP em São Paulo mandou instaurar inquérito para apurar as irregularidades cometidas por Milton Bigucci e companheiros de jornada. Espero pelo resultado final há quase um ano, depois de a denúncia inicial completar quase três anos. O desvio é tão flagrante que dispensaria apuração demorada. O edital foi surrupiado pela esperteza, parente muito próxima da certeza de impunidade. 


 


Esse é o resumo da ópera de dois casos semelhantes envolvendo um servidor público graduadíssimo da gestão Luiz Marinho. Entretanto, foram tomados pesos e medidas distintos. Tanto no escândalo de compra de material escolar, denunciado por irregularidades graves pelo Gaeco, e na fraude licitatória engendrada pela MBigucci e parceiros comerciais, o então Procurador-Geral do Município praticou atos ilícitos. A diferença, estranha diferença, é que no caso do terreno que sedia as obras do empreendimento Marco Zero, o crime foi abafado. Inclusive pela Imprensa, submetida aos rigores de investimentos publicitários do setor de construção civil.


 


Jornalista é criminoso


 


Muito mais que abafado, na verdade. Os criminosos seguem leves, livres e soltos. Criminoso mesmo é este jornalista que, asfixiado pela força econômica do milionário Milton Bigucci, sofreu duas derrotas em instâncias judiciais paulistanas por conta de semânticas interpretativas maquiavelicamente tratadas como ofensas ao empresário envolvido em série de falcatruas, além de denunciado pelo Ministério Público do Consumidor de São Bernardo por dirigir um conglomerado campeão em abusos contra a clientela.


 


A decisão da Justiça contra este jornalista é uma loucura. Em nenhum dos casos julgados que me colocaram como réu os textos sobre a formação de quadrilha para arremate do terreno público entre a Avenida Senador Vergueiro e Avenida Kennedy, que virou o Marco Zero, foi levado ao tribunal por Milton Bigucci. O empresário preferiu, espertamente, fugir do campo aberto de provas irrebatíveis.  Optou pelo terreno movediço e sedutor de distorções interpretativas, atribuindo-se virtudes que o prontuário corporativo desmente. Contra tamanha insensatez judicial, sobra a expectativa de correção das sentenças no Superior Tribunal de Justiça. Ou, em caso de manutenção, não restaria saída senão greve de fome.


 


Quando entreguei os documentos comprobatórios das falcatruas de Milton Bigucci e parceiros de negócio ao então Procurador-Geral da Prefeitura de São Bernardo, José Roberto Silva, acompanhado do assessor de comunicação do prefeito Luiz Marinho, jornalista Raimundo Silva, acreditava piamente na tomada de providências legais. Aliás, o próprio Procurador-Geral, anfitrião afável, assegurou que não havia dúvidas sobre os crimes cometidos pelos arrematadores da área pública. Prometeu, em seguida, agir dentro dos limites da lei – ou seja, punindo servidores e encaminhando documentação complementar ao Ministério Público.


 


Tudo virou pizza


 


Estranhamente, tudo virou pizza e o Ministério Público de São Bernardo, representado pelo mesmo Gaeco que agora denuncia José Roberto Silva por irregularidades na compra de material escolar, procedeu a uma investigação escassa, quase pífia, para, em seguida, enviar o processo aos arquivos judiciais. Até que a Corregedoria-Geral do MP interviesse.


 


A raiz da inação do Gaeco, ou da pouca profundidade das investigações do Gaeco, acredita este jornalista, foi o descaso com que a Administração Luiz Marinho tratou a denúncia. Um descaso mais que programado.


 


Explico: até aquela data em que repassei farta documentação sobre o trambique da MBigucci e de parceiros para adquirir aquela área privilegiadíssima de quase 16 mil metros quadrados na bacia das almas de preços aviltados, até aquela data a gestão Luiz Marinho tratava Milton Bigucci com carinho semelhante ao devotado por Mike Tyson aos adversários.


 


Havia hostilidade explícita. Milton Bigucci era visto como adversário a ser batido. O empresário representava outro espectro ideológico e mantinha aproximação com políticos de centro-direita de São Bernardo, todos adversários de Luiz Marinho. Disseram-me assessores de Luiz Marinho que o reinado de Milton Bigucci nas entranhas da administração municipal estava encerrado. Os corredores do Paço Municipal falariam horrores, garantiam, se pudessem falar, sobre as andanças de Milton Bigucci por lá nos anos anteriores. O faro fino de bons negócios de Milton Bigucci sempre passou pelos paços municipais da região. São Bernardo, entretanto, era um território especialíssimo.  E voltaria a ser.


 


Sequência estarrecedora


 


A sequência dos acontecimentos, para ser breve, é estarrecedora. A gestão Marinho e Milton Bigucci se deram as mãos, os braços e muito mais. Chegaram Luiz Marinho e Milton Bigucci ao deboche público de gestos de afeição comoventes. Marinho, acreditem quem quiser, até prefaciou, juntamente com Gilberto Kassab, então prefeito da Capital, um novo livro (se assim se pode chamar uma obra impressa sem talento algum) de Milton Bigucci.  Temário? Responsabilidade social. Nada mais enternecedor.


 


Antes disso, inserido nas tratativas de aproximação dos contrários, Milton Bigucci encaixou-se na programação político-administrativa do PT de São Bernardo ao recepcionar a ministra de Planejamento Miriam Belchior, na sede do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC. Ali, diante de plateia maciçamente formada por assessores políticos, porque a entidade dirigida por Milton Bigucci é um fantasma corporativo, ali naquela ambiente explicitamente político-partidário, Miriam Belchior recebeu premiação preparada a toque de caixa, a pretexto dos investimentos de Minha Casa Minha Vida na região.


 


O troféu “O Construtor” foi uma obra de oportunismo e servilismo puros e deslavados.  Jamais foi concedido a qualquer outra autoridade. Nesse ponto, ou seja, ao deixar de premiar outras autoridades, o dirigente Milton Bigucci acertou em cheio. Ele deixou de, aleatoriamente, sem critério lastreado em estudos de supostos parceiros da entidade que preside ditatorialmente, lustrar o ego de autoridades por conta de interesses cruzados. Desconsiderar que Milton Bigucci como empresário e suposto líder de classe (suposto mesmo, porque não é) são o mesmo protagonista da cena política e econômica é fechar os olhos à realidade dos fatos. Não à toa manda e desmanda no Clube dos Construtores e Incorporadores há mais de 20 anos. O muro de Berlim ainda dividia ocidente e oriente e Milton Bigucci já reinava na entidade. Ao personalizar a direção do Clube dos Construtores e Incorporadores, obtém vantagens competitivas em relação aos concorrentes do setor.


 


Muito a falar


 


O então Procurador-Geral de São Bernardo, José Roberto Silva, agora denunciado pelo Ministério Público, deveria ser ouvido pela 12ª Promotoria de Justiça de São Bernardo, que investiga o caso do Marco Zero. José Roberto Silva certamente tem muito a dizer sobre a mudança de rota ensaiada para punir os servidores públicos que participaram da imunda encenação de licitação do terreno arrematado pela MBigucci em parceria com a Even e a Braido numa operação pateticamente ingênua, porque deixou um rastro impressionante de digitais de ilegalidades.


 


Amadorismo puro que só se explica pela possibilidade de os protagonistas entenderem estar acima de qualquer penalidade legal. E não é que, a julgar pelo tempo já consumido entre as denúncias de CapitalSocial e as punições cabíveis, estão absolutamente certos?  O Marco Zero cresce aos trancos e barrancos como testemunha sólida de uma roubalheira ainda impune mas denunciada novamente por CapitalSocial por conta de novos fatos e também como desafio a Milton Bigucci a investir na Justiça por conta específica deste texto. Sem subterfúgios nem malabarismos. 


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