Sociedade

Guido Fidelis foi embora de uma
Província que segue sem rumo

DANIEL LIMA - 26/08/2014

A morte do jornalista e escritor, e também advogado, Guido Fidelis, anunciada apenas seis dias depois graças à coluna Memória, do amigo Ademir Medici, mostra bem o emburrecimento e a desumanização da Província do Grande ABC. Guido Fidelis partiu aos 75 anos. Deixou a mulher Virgínia, também jornalista, a filha Lara, igualmente jornalista, dois netos e uma coleção de obras que, segundo relatos, nem ele tinha a dimensão numérica. Seriam 30 livros, mas podem ser mais. Certo é que Guido Fidelis merecia mais que uma morte quase anônima. Mas o que se pode fazer se a Província caiu na gandaia de prestigiar os malfeitores?


 


Não tenho notícia sobre qualquer providência que tenha sido tomada pelo secretário de Cultura de Santo André, advogado Raimundo Salles, para que Guido Fidelis ganhe mesmo que postumamente a homenagem que mereceria em vida. Nenhuma nota oficial se preparou pelo Executivo de Santo André, dirigido por um ex-metalúrgico, em louvor a Guido Fidelis.


 


A inteligência intelectual não só não tem espaço na região como também é covardemente boicotada. Basta não se adequar às regras de um jogo sujo que todos sabem onde nasce, cresce e ganha ramificações. Inclusive a Polícia Federal, se querem saber.


 


Prêmio consagrador


 


Deixando a modéstia de lado, porque fingimento não é minha praia, tenho toda autoridade do mundo para requerer o devido respeito e atenção à história de frutos deixada por Guido Fidelis. Durante mais de uma década organizei, coordenei e dirigi a maior premiação regional do País, o Prêmio Desempenho, feito sob os rigores de contemplar meritocraticamente individualidades e corporações públicas, privadas e sociais da região.


 


Foram inúmeros os inscritos pelos próprios integrantes do Conselho Editorial da revista LivreMercado, publicação que criei e dirigi durante quase duas décadas. A premiação conferiu a inúmeros agentes culturais a alegria de subir ao palco diante de pelo menos duas mil pessoas  para receber um troféu que se tornou símbolo de seriedade. Pena que Guido Fidelis não tenha tido a oportunidade que Ademir Medici, Edison Motta e Fausto Polesi, todos jornalistas, tiveram.


 


Meus encontros com Guido Fidelis foram acidentais, por assim dizer. A primeira vez que o vi foi no começo dos anos 1970. Acabara de ingressar no jornal O Repórter, com sede na Rua Coronel Oliveira Lima, dirigido editorialmente por minha mestra, Virgínia Pezzolo, mulher de Guido. Diziam nos bastidores que Guido era o homem  de Virgínia, expressão que remetia a um famoso seriado de televisão. Formavam um casal bonito, discreto, inteligente. Lara, a filha única de Guido e  Virgínia, veio logo depois, ou antes, não me lembro bem. Só poderia mesmo mergulhar igualmente no mundo jornalístico.


 


Homenagem contida


 


A homenagem que Lara prestou ao pai no texto publicado na coluna de Ademir Medici do Diário do Grande ABC de quinta-feira provavelmente tenha sido o momento mais difícil de sua carreira. Uma carreira que também passou pelas páginas de LivreMercado. Uma  dupla entrevista com Luiz Marinho e Lula da Silva, que nem imaginavam ser o que são, poderosos, embora já mandassem e desmandassem no Sindicato dos Metalúrgicos, é uma obra a ser consultada sempre. E contextualizada, para que se entenda o quanto mudam as pessoas ante novos cenários.


 


Creio que foi muito difícil a Lara Fidelis escrever sobre o pai. O texto demonstra uma inquietação latente entre parecer jornalisticamente correta e emocionalmente controlada. Talvez Lara Fidelis tenha se dedicado àquelas linhas preocupada em não parecer piegas. Talvez devesse ser. Qualquer exagero de estilo e de conteúdo compensaria a frieza que a Província dedica a inteligências não alinhadas aos poderosos de plantão e, em contraste, à festança reservada aos blefes protegidos.


 


Guido Fidelis se foi com a discrição com que viveu. Tanto quanto a mulher Virgínia, de fina inteligência, e a filha Lara. De Virgínia sou fã de carteirinha. É inadmissível, embora explicável, que esteja longe das páginas de veículos de comunicação da região. Seria no mínimo uma consultora a retirar grande parte da massa falida de informações da zona de imprestabilidades, quando não de banalidades.


 


O problema que interdita o caminho de Virgínia no jornalismo regional é que jamais se submeteria à vassalagem de donos de veículos sem intimidade com o compromisso social.


 


Quem acredita?


 


Sobre Guido Fidelis, talvez a maior prova de que foi um profissional de texto qualificado associado à seriedade com que sempre internalizou o sentido da comunicação é que não consta de sua biografia qualquer espaço nessas academias de letras chinfrins que até mercadores imobiliários sem o menor talento à escrita ousam ocupar.


 


Foi uma pena não ter conhecido mais a fundo Guido Fidelis. Mas a Prefeitura de Santo André tem uma oportunidade de ouro em recuperar o tempo perdido e lhe dedicar provas de respeito e agradecimento pela passagem por este mundo.  Algo muito mais apropriado que a extensiva programação cultural levada ao Teatro Municipal com artistas de talento mas sem qualquer identificação com a região.


 


Tomara que a proposta não seja desdenhada. Seria péssimo a Província do Grande ABC cometer duplo assassinato à inteligência – desprestigiar Guido Fidelis em vida e também pós-morte. 


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