Economia

Para organizar
a casa em obras

ANDRE MARCEL DE LIMA - 10/03/2005

Criada por indústrias vizinhas do Pólo Industrial de Sertãozinho, a Acibam (Associação Condomínio Industrial Barão de Mauá) é um dos exemplos mais expressivos de associativismo que o Grande ABC já produziu — ao lado do Grupo de Sinergia do Pólo Petroquímico de Capuava, do Pólo de Cosméticos de Diadema e outras poucas iniciativas do gênero. A constatação é justificada por resultados que vão além da sede comum dotada de sala de reuniões e auditório, do sistema de segurança com portaria e monitoramento por câmeras e do posto médico e odontológico recentemente implantado para prestar atendimento a funcionários e dependentes das 40 empresas associadas.


 


O melhor indicador da performance da Acibam como catalisadora de vantagens sistêmicas é o cenário desenvolvimentista no condomínio de um milhão de metros quadrados. Em vez de galpões abandonados, como em diversos pontos do Grande ABC, o território é um canteiro de obras com várias indústrias em processo de ampliação e outras tantas em construção.


 


A surpreendente efervescência lembra os distritos industriais planejados do Interior paulista e emerge como doce exceção na região que acusou os golpes da guerra fiscal e da globalização e perdeu 39% do Valor Adicionado nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. “O dinamismo é muito grande” — atesta Wilson Roberto Negresiolo, diretor da Acibam e proprietário da Usimec, especializada em usinagem. Há obras em andamento para acolher empresas como Fundição Técnica Paulista, Alnimec, Petropol e Anchieta Produtos Químicos.


 


Rodoanel no horizonte


 


A proximidade do condomínio Barão de Mauá com o aguardado traçado do trecho Sul do Rodoanel ajuda a magnetizar empresas em busca de facilidades logísticas. Mas as vantagens proporcionadas pela união dos empresários são o grande atrativo à chegada de pelo menos 15 indústrias nos últimos quatro anos. Afinal, que empreendedor não gostaria de se instalar em local que, além de zoneamento estritamente industrial, oferece aparato de segurança a custos compartilhados entre dezenas de usuários? “Segurança é apelo muito forte para empresários assustados com a criminalidade e com a onda de sequestros. Muitos vieram em função dessa variável” — considera Wilson Negresiolo.


 


Aproveitando-se da conformação geográfica que transforma o agrupamento de empresas em espécie de condomínio natural, já que o território no qual estão instaladas é delimitado por áreas verdes, os associados investiram na implantação de portaria e serviço de ronda 24 horas. Além do controle de acesso, câmeras de monitoramento com lentes voltadas aos automóveis que entram e saem ajudam a coibir crimes e garantir relativa tranquilidade em meio à insegurança da Região Metropolitana de São Paulo.


 


A sede construída há quatro anos à direita da portaria é outro símbolo do entrosamento incomum. “No início promovíamos reuniões nas empresas, mas sentimos necessidade de materializar obra conjunta para conferir forma concreta à união” — explica o diretor.


 


A sede conta com secretaria, sala de reuniões e auditório com capacidade para 30 participantes. É ali, naquele espaço multiuso, que a Acibam recepciona fornecedores e exercita outra vertente do cooperativismo: contratação conjunta de produtos e serviços. “Quando várias empresas se unem para negociar é possível obter maior comprometimento com qualidade e ganhos de escala” — considera Marisa Lorenzini, coordenadora do grupo de compras de materiais para escritório. Ela dirige a Green Process, fabricante de produtos químicos para manutenção industrial.


 


Compras coletivas


 


As compras coletivas foram iniciadas há pouco tempo com materiais para escritório, mas a intenção dos associados é aperfeiçoar o modelo e abarcar matérias-primas ainda este ano. Oito empresas especializadas em usinagem já adquirem ferramentas e instrumentos de medição do mesmo fornecedor, que, por sua vez, repassa aos clientes os benefícios proporcionados pela previsibilidade de vendas e facilidade logística.


 


Foi graças à negociação conjunta que a Acibam conseguiu implantar posto de atendimento médico e odontológico a custo reduzido. O investimento na estrutura dotada de médico, enfermeira e dentistas foi compartilhado com a Intermédica, empresa especializada em medicina de grupo, responsável por planos de saúde de funcionários e dependentes de 20 indústrias, num total de 20 mil vidas. “Além de melhorar o benefício, o posto eleva os níveis de produtividade ao evitar deslocamentos desnecessários e garantir atendimento mais rápido ao menor sinal de problema” — considera Wilson Negresiolo.


 


Ele revela que dentro de alguns meses o condomínio industrial pode ganhar posto avançado de instituição bancária interessada em descentralizar operações com base no expressivo volume financeiro. Outro plano no foco da associação é a contratação de serviço de fretamento de ônibus para transporte de funcionários.


 


A sede e o posto médico e odontológico foram construídos em área de dois mil metros quadrados cedida pela Prefeitura, mas esse não é o único fruto da interlocução em bloco com o Poder Público e concessionárias de serviços. A Acibam já obteve resultados em reivindicações para asfaltamento de ruas e ampliação de capacidade de fornecimento de energia elétrica.


 


Informalidade preocupa


 


Se há anseio que os associados ainda não conseguiram transformar em realidade é a formalização legal do território de um milhão de metros quadrados em condomínio industrial. “Somos um condomínio de fato, mas não de direito” — explica Wilson Negresiolo. A informalidade se deve ao fato de o conjunto de empresas não ter sido planejado, como o Park Tech de Campinas e outros empreendimentos do Interior que, desde o projeto, compatibilizam redução de custos com segurança e outros serviços de suporte às empresas. Pelo contrário: o Barão de Mauá foi tomando forma de condomínio na medida em que empresários vislumbraram oportunidade de transformar a concentração geográfica em mola propulsora de integração e ações coordenadas.


 


O problema é que, a despeito das vantagens proporcionadas pelo associativismo, cerca de 15 empresas mantém distância da Acibam. Negam-se a contribuir com a mensalidade, que, de acordo com o porte, varia entre R$ 200 e R$ 500. Como o Poder Público exige adesão de 100% dos envolvidos para conversão em condomínio de direito, o impasse prevalece.


 


Mas, no que o condomínio de direito se diferenciaria do modelo atual? A Acibam poderia melhorar ainda mais o sistema de segurança. “Como as ruas pertencem à Prefeitura, não temos poder legal para organizar o tráfego. O máximo que os porteiros podem fazer é perguntar educadamente onde os visitantes pretendem ir, o que já contribui para inibir crimes” — explica o diretor. Além disso, a Acibam teria também autonomia total sobre espaços que pertencem ao Poder Público, e que poderiam ser utilizados em benefício das empresas. “O canil municipal não combina com a vocação industrial” — alfineta Wilson Negresiolo, referindo-se ao serviço instalado na área geográfica da Acibam.


 


Uma vitória parcial


 


A informalidade não compromete a atratividade, mas a vitória é parcial. A maior parte das indústrias veio de outras localidades do Grande ABC. Exemplos são a Poliembalagens, transferida de Santo André; Green Process, de Diadema; Squadroni, de São Caetano e, entre as que estão em fase de transferência, Fundição Técnica Paulista, de São Bernardo; Alnimec, de Santo André; e Petropol, do bairro Capuava, em Mauá. A Anchieta Produtos Químicos é exceção à regra já que será transferida de Suzano.


 


Os prefeitos das cidades que não dispõem de redutos industriais minimamente adequados às necessidades do pós-globalização que se cuidem. “Cerca de 60% do total de um milhão de metros quadrados da área da Acibam estão disponíveis para ocupação” — comenta o diretor. Ao todo o Pólo Industrial de Sertãozinho dispõe de 10 milhões de metros quadrados para implantação de indústrias. A área é a maior com zoneamento estritamente industrial em toda Grande São Paulo.


 


O grupo de Sinergia do Pólo Petroquímico de Capuava é referência obrigatória em associativismo no Grande ABC. E não apenas porque é o mais antigo, já que em 1996 — quando os trabalhos compartilhados tiveram início — a região nem sonhava com arranjos produtivos locais, Pólo de Cosméticos, consórcios de exportação e incubadoras de empresas. O que mais conta são os resultados financeiros. A economia proporcionada pela contratação conjunta de serviços atinge R$ 380 mil por mês. “Ao longo dos anos o saldo supera R$ 20 milhões” — destaca Sidney dos Santos, diretor industrial da Polibrasil e coordenador do Grupo de Sinergia.


 


De segurança patrimonial a transporte de pessoal, limpeza e jardinagem, passando por deposição de resíduos e tratamento de água, quase tudo é adquirido em bloco por 10 empresas: Petroquímica União, Cabot, Chevron, Oxicap, Oxiteno, Polibrasil, Polietilenos União, Solvay, Unipar e Recap (Refinaria de Capuava).


 


A exemplo da Acibam, o Grupo de Sinergia é fruto de união de representantes da iniciativa privada, sem maior participação do Poder Público. Se no caso das empresas do Pólo de Sertãozinho o espaço naturalmente condominial segregado pela mata engendrou ações coordenadas, no Grupo de Sinergia a conexão operacional das empresas determinou a união de esforços. Todas são conectadas à PQU por dutos subterrâneos utilizados no abastecimento de matérias-primas.


 


Além disso, a sobrevivência do primeiro pólo petroquímico do País dependia da capacidade de fazer mais com menos. Afinal, as concorrentes Copene, da baiana Camaçari, e Copesul, do Rio Grande do Sul, contam com escala duas vezes maior, condição essencial para negócios baseados em commodities (produtos de baixo valor agregado, vendidos em grandes quantidades e a preços cotados no mercado internacional).


 


Os executivos do Grupo de Sinergia não se dão por satisfeitos com os resultados e estão se articulando para criar a Apolo (Associação das Empresas do Pólo Petroquímico do Grande ABC), em fase de formalização legal. “A associação juridicamente constituída proporcionará mais representatividade junto à comunidade, aos fornecedores e ao Poder Público” — explica Sidney dos Santos.     


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