A cultura do emprego manufatureiro fez do Grande ABC imenso paradoxo que ajuda a compreender o grau de fragilidade gerencial dos pequenos negócios. Com larga escala da PEA (População Economicamente Ativa) entregue a atividades fabris, a industrialização acelerada possibilitou em períodos contínuos fluxo desigual entre abundância de oferta e escassez de procura por empregos, equação que se inverteu tempos depois, notadamente após a abertura dos portos, com demanda excedente e oferta fluvial. O resultado desse descompasso histórico se vê na proliferação de negócios comerciais e de serviços sem que boa parte dos proprietários consiga reunir o que poderia ser chamado de cultura empreendedora.
Pode parecer estranho que uma região vocacionada à livre iniciativa e onde a participação do capital estatal sempre ficou discretamente à sombra apresente embocadura para negócios vulnerável demais ao desaparecimento. O suposto contra-senso tem lógica impiedosa.
Milhares de ex-trabalhadores de chão de fábrica ou de áreas administrativas lançados às feras do mercado na fase de reestruturação industrial que ainda não terminou jamais foram preparados para empreender. Viveram o tempo todo em fábricas protegidas por regimes alfandegários que impermeabilizavam o ingresso da concorrência internacional. Estavam muito mais prontos a obedecer ordens e a realizar tarefas repetitivas do sistema taylorista do que a lances de livre arbítrio e de criatividade.
Também os padrões de qualidade e eficiência eram naturalmente modestos porque, bem ou mal, o mercado interno absorvia a produção. Mais especificamente, dada a predominância do setor automotivo na região, o mercado consumia as carroças produzidas nas montadoras locais, abastecidas por fornecedores igualmente distantes do que se passava em matéria de produtividade em outras áreas do planeta cujas políticas macroeconômicas premonitoriamente já ignoravam fronteiras.
O nível de mortalidade empresarial no Grande ABC não conta com estatística mais confiável. Quase nada se produziu para detectar até que ponto a descentralização econômica em direção ao comércio e aos serviços atingiu a leva de ex-trabalhadores industriais. De qualquer modo, os poucos indicadores disponíveis, caso do Sindicato do Comércio Varejista, revelam que carnificina não é termo que possa ser desprezado para identificar o quadro.
Ainda mais que, somando-se ao despreparo para os negócios, pequenos empreendedores foram atingidos em cheio pelo furacão de investimentos de grandes redes que descobriram que, apesar do provincianismo próprio de quem está na periferia da Capital, uma massa de consumo de 2,3 milhões de habitantes num território físico reduzido não é nada desprezível.
Desnorteados pelo enxotamento das indústrias, que até então pareciam oferecer emprego do berço ao túmulo, legado que nem os japoneses sustentam, e espremidos pela competitividade das grandes cadeias de comércio e serviços, os pequenos empreendedores da região engrossam as estatísticas da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados e Estatísticas) que detectaram um terço da PEA entregue à marginalidade econômica incorretamente chamada de mercado informal.
Na verdade, os pequenos negócios de até cinco funcionários envolvem quase 300 mil pessoas entre os pouco mais de 900 mil trabalhadores que integram a População Economicamente Ativa da região. Esse contingente é uma mistura inquietante de mais da metade de autônomos, boa parte de donos de pequenos negócios e seus familiares e o restante formado por funcionários geralmente sem carteira assinada. Enfim, um capitalismo de terceira classe ao qual LivreMercado se referiu recentemente.
Por isso tudo, entre os muitos buracos que caracterizam o descontrole da economia do Grande ABC, a transposição do trabalhador industrial para a função de empreendedor de comércio e serviços se converteu num golpe que a maioria ainda não conseguiu assimilar.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC