Sociedade

Falta Polícia Federal para abalar o
Clube dos Corruptos da Província

DANIEL LIMA - 17/11/2014

Deu nas páginas de jornais da semana passada que a Polícia Federal está investigando mais de 200 casos de corrupção no País. Pelas probabilidades demográficas, ao contar com um pouco mais de um a cada 100 habitantes do País, possivelmente teríamos três casos de corrupção na Província.


 


Como somos uma região com expertise especial em maracutaias, utilizando-se largamente da geografia suburbana de obscuridades a salvo da grande mídia e também de elevado agregado econômico, a PF poderia ter pelo menos meia dúzia de casos a desvendar na região. É pouco ainda.


 


Pelas minhas contas, são potencialmente uns 15 núcleos que não resistiriam a investigações sérias, com desdobramentos igualmente sérios. Os bandidos engravatados, principalmente, estão leves, livres e soltos. E ditam regras próprias inclusive para ludibriar o Judiciário.


 


Petrobrás em sete partes


 


Somos uma Petrobrás dividida em sete partes, os sete municípios locais, com potencial de dominar o noticiário do Jornal Nacional e manchetes das principais revistas semanais.


 


Não se deve esperar nada ou quase nada das publicações locais, em estado financeiro deplorável. A Imprensa, de maneira geral assim o está. Os bandidos estão soltos na praça, falam em ética, em benemerência, em democracia, em tudo que os incautos adoram ouvir e os potenciais parceiros aplaudem.


 


O roteiro estratégico para enjaular os transgressores públicos e privados da Província do Grande ABC é sopa no mel. Qualquer aprendiz de detetive não precisará de muito tempo para escarafunchar a podridão intocada. Não só intocada, mas protegida. Não só protegida mas espalhada. Os endereços em que estão instalados os frequentadores assíduos do Clube dos Corruptos da Província do Grande ABC são de conhecimento geral. As rubricas que poderiam ser investigadas também. Falta apenas confiança e segurança para que denunciantes emerjam. Quem o faz isoladamente corre sérios riscos. Os bandidos viram mocinhos e os mocinhos viram bandidos.


 


Tudo isso é chover no molhado, é ensinar o Padre Nosso ao vigário. A Polícia Federal é um exemplo de competência nem sempre acompanhado do Ministério Público e do Judiciário por conta de um feixe de senões, entre os quais uma burocracia propositalmente preparada para dar a mão aos denunciados.


 


Semasa é emblemática


 


Um dos exemplos emblemáticos de que a Província do Grande ABC está de braços dados com a impunidade é o escândalo do Semasa, que já completou dois anos e não levou nenhum dos meliantes do Poder Público e do mercado imobiliário ao xilindró. Todos estão festejando a impunidade e zombando dos idiotas que imaginam vê-los trancafiados. E seguem com novas investidas e novos empreendimentos.


 


A falta de transparência do escândalo do Semasa é agressivamente imoral. Joga-se aparentemente tudo sob o tapete de acomodações, até que, torcemos muito, apareça alguém para colocar um ponto final no silêncio dos culpados.


 


Quem acompanha essa revista digital não precisa requerer deste jornalista a repetição agora sistêmica de cidadelas do Clube dos Corruptos que seriam devassadas pela Polícia Federal com consequências extraordinárias para a autoestima de uma região que acompanha tudo em silêncio, quando não amedrontada.


 


A experiência como participante do Defenda Grande ABC, uma associação que pretende ver regulamentada e que tem por premissa apontar os nichos de podridão na Província, é emblemática. Uma grande parcela já se afastou porque não tem estrutura emocional ou independência econômica para os contragolpes. A tendência é de desaparecimento do Defenda antes que se estruture.


 


Clube controlador


 


A Província do Grande ABC está toda dominada pelo Clube dos Corruptos. Eles têm poder político e econômico para suportar eventuais pressões locais. Geralmente controlam instâncias que poderiam lhes aplicar corretivos assemelhados ao que estamos acompanhando no caso da Petrobrás. Por isso mesmo só agentes federais sem qualquer ligação regional poderiam colocar ordem na casa, ou pelo menos reduzir drasticamente o grau de delinquência engravatada na Província.


 


Enquanto isso não ocorre, a prática do jornalismo independente na região está seriamente ameaçada porque há um conluio entre alguns desses frequentadores assíduos do Clube dos Corruptos que se uniram informalmente para retirar de cena a qualquer custo quem lhes desnuda a marginalidade em que estão metidos.


 


Fosse a Província do Grande ABC algo que resvalasse algum sentimento de cidadania, um grupo de meia dúzia de inconformados já teria produzido manifesto contra o Clube dos Corruptos. O texto poderia apelar para a intervenção da Polícia Federal na região, tal qual no caso da Petrobrás. Imaginar que isso seja possível é sonhar. Não haveria essa meia dúzia disposta a dar a cara e tampouco os veículos de comunicação da região abririam espaços à publicação da mensagem. Esperar apoios de distintas áreas, então, nem pensar.


 


Cidadania e empobrecimento


 


O empobrecimento econômico da região afetou fortemente os laços já escassos de cidadania que o divisionismo geográfico e o fluxo intenso de migrantes nos tempos de industrialização fértil sedimentaram. A Terra Prometida à produção de classes médias de verdade, não essa classe média de araque dos governos petistas, acentuou o individualismo materialista.


 


Passamos décadas de superprodução demográfica e de extraordinário crescimento econômico. Não tínhamos tempo a perder com associativismo de verdade, não esse associativismo de uma minoria que se locupleta das entidades de classe. Com a crise dos anos 1990, quando a desindustrialização se acentuou, perdemos o rumo. Vivemos os piores momentos da história regional, no qual o empreendedorismo de bandidos sobrepõe-se estupidamente aos espasmos do empreendedorismo dos iludidos.


 


Está demorando demais para a Polícia Federal descobrir uma nova Petrobrás de contraventores, porque a Petrobrás é aqui. Garanto que haverá gente fina em fuga. Gente que se passa de benemerente, gente que se diz empreendedora, gente que canta de galo, mas que não passa mesmo de integrante do Clube dos Corruptos. Se apertar, eles contam até o que não sabem. Mas o que sabem já seria suficiente para se respirar ares menos densos.


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