Duvido que exista na Província do Grande ABC alguma autoridade pública, principalmente secretários de Desenvolvimento Econômico, que acompanhe criteriosamente o noticiário sobre a presença da China na América do Sul. Mais especificamente na Argentina, nosso principal parceiro do Mercosul, responsável por quatro entre cinco veículos exportados.
Veículos são nossa estrutura social e econômica. Sem as montadoras e as autopeças a Província já teria ido à bancarrota, porque não tivemos capacidade de diversificar a pauta de produção. Com as montadoras e as autopeças iremos à bancarrota gradualmente, como estamos indo, também porque não flexibilizamos alternativas de oferecer retaguarda econômica à sociedade.
A Argentina da qual nos tornamos dependentes demais no setor automotivo deveria ser pauta obrigatória do Clube dos Prefeitos do Grande ABC. Também deveria ser agenda compulsória das entidades de classe empresarial e sindical. Deveríamos ter atenção especial com a economia da Argentina assim como temos nas competições sul-americanas de futebol quando a mídia aflora uma rivalidade que chega à estupidez. Deveríamos futebolizar no bom sentido o mercado automotivo argentino para não sermos colhidos no contrapé, como no ano passado, por exemplo.
Não interessa nestas alturas do campeonato se o governo petista cometeu uma das maiores barbeiragens da história em detrimento da economia da Província do Grande ABC ao privilegiar o comércio exterior de veículos e autopeças com a Argentina. Conhecendo-se como se conhece a folha corrida de instabilidade econômica dos parceiros de língua espanhola, o risco embutido na argentinização automotiva do País só poderia dar no que está dando. No ano passado perdemos 46% de volume físico e 45% de volume financeiro de exportação de veículos para a Argentina. De 2013 para 2014 saímos de um superávit de 95 mil veículos para déficit de 47 mil.
Encrenca gigantesca
O jornal Valor Econômico de hoje traz uma reportagem inquietante sobre o futuro automotivo do Brasil no Mercosul. Os chineses estão se aproximando do governo Kirchner entre outros motivos porque pretenderiam inundar aquele país com a exportação de veículos, apertando ainda mais o cinto no Mercosul. Como as montadoras de veículos da Província do Grande ABC são mais vulneráveis no comércio com os argentinos, dá para dimensionar o tamanho da encrenca em que nos metemos.
O acordo automotivo entre brasileiros e argentinos deverá ser renovado até o meio do ano. A medida interessa muito às montadoras sediadas no Brasil. A Argentina, como destaca aquele jornal, continua a ser o destino de mais de 70% das exportações das automotivas. O Brasil, por sua vez, absorve metade da produção do parceiro. “Isso prova que o Mercosul é um acordo entre dois países que não têm competitividade para entrar em outros mercados”, disse um executivo da indústria, não identificado pelo jornal. Ou seja: Brasil versus Argentina é um clássico de incompetências no setor automotivo. E a Província do Grande ABC, com custos elevadíssimos de produção e baixa produtividade, sempre tendo como referências geografias mais comprometidas com resultados, está imersa nessa situação.
Os tempos que virão não serão tempos de tranquilidade para a Província do Grande ABC porque o mundo mudou faz tempo e não nos demos conta disso. Ainda segundo o Valor Econômico, quando o acordo automotivo entre Brasil e Argentina surgiu, em 1994, estabelecendo intercâmbio de veículos e peças livre do Imposto de Importação, as montadoras com fábricas nos dois países passaram a dominar o mercado da região. Nunca imaginaram, no entanto, que duas décadas depois se sentiriam ameaçadas por um país tão distante como a China.
Mercosul somos nós
A reportagem do Valor Econômico não se refere às inquietações locais que deveriam mobilizar desde muito tempo instâncias empresariais, sindicais e políticas da região. A regionalização daquele trabalho jornalístico é minha, porque meu público está nos 840 quilômetros quadrados desse território. Os macrodados do Mercosul precisam ser atentamente observados.
Por exemplo: desde 2010 o Mercosul foi o principal fornecedor externo de bens de capital para a Argentina. No ano passado, segundo o jornal, com uma queda de 34% na exportação desse tipo de bem aos argentinos, na contramão de 2013, o bloco perdeu o lugar para a China. No mesmo período, a exportação chinesa de máquinas e equipamentos aos argentinos cresceu 13%. Traduzindo: os chineses já exportam mais para a Argentina do que os demais membros do Mercosul. Como o Brasil, que responde por 90% da exportação dos integrantes do Mercosul aos argentinos, a profundidade do buraco é imensa.
Os chineses estão em primeiro lugar entre os parceiros comerciais da argentina. Eles deram um jeito de jogar o Brasil para o acostamento das relações comerciais. As vendas de bens de capital cresceram 83% entre os integrantes do Nafta, bloco formado por Estados Unidos, Canadá e México. Apenas os chineses superaram o Nafta, com US$ 3,32 bilhões em vendas no ano passado ante US$ 2,95 bilhões daquele bloco. Também os países da União Europeia estão à frente do Mercosul nas relações com a Argentina em bens de capital, com vendas de US$ 2,93 bilhões. O Mercosul liderava desde 2010 e caiu para a quarta posição com US$ 2,09 bilhões. Sempre que se ler Mercosul, nesses casos, é melhor substituir por Brasil.
Brincando em serviço
Para a maioria dos agentes públicos e privados da Província do Grande ABC provavelmente este artigo não tem a menor importância. Eles vivem em casulos corporativistas completamente alheios ao que se passa mesmo na próxima esquina, quanto mais em macroterritórios sacolejados pela macroeconomia. Seguimos a brincar de desenvolvimento econômico.
O Clube dos Prefeitos é a prova cabal de que nos mantemos numa bolha protecionista que, paradoxalmente, nos estiola a alma, o corpo e o futuro. Protegemo-nos de nossa própria incompetência. Não encaramos o mundo. O sindicalismo regional é uma peça do museu de arqueologia de competividade que sustenta mal e porcamente um número cada vez mais seletivo de trabalhadores de primeiro mundo, especialmente nas montadoras de veículos às turras com a produtividade, em prejuízo das demais atividades da indústria de transformação, que fogem da Província.
Conhecendo como conheço os atuais secretários de Desenvolvimento Econômico da região, não cometerei crime algum se afirmar que apenas e tão somente o titular da pasta de São Bernardo, Jefferson da Conceição, professor universitário e assessor sindical durante muitas jornadas, reúne cabedal para decifrar o jogo macroeconômico que nos ameaça, quando não já nos esfola. Entretanto, Jefferson José da Conceição sofre com enormes limitações de movimentos. Os sindicatos o aprisionam a uma agenda superada, a Administração Luiz Marinho não lhe oferece raio de ação mais abrangente de um lado e mais específico de outro. E a equipe de colaboradores de que desfruta é excessivamente voltada ao varejismo de programas que pretendem dar volume de realizações sem, entretanto, alterar a caminhada rumo ao desfiladeiro da economia local.
Ainda há muito a escrever sobre a economia da Província do Grande ABC nestes tempos de recessão, inflação, roubalheiras, produtividade e competitividade. A esperança de dias melhores é uma bandeira que não desfraldo porque não sou hipócrita. Infelizmente o cenário sugere piora. Eles fazem tudo nesse sentido. Eles são as autoridades públicas, as lideranças empresariais e as lideranças sindicais.
Os chineses estão chegando como nação ao setor automotivo do Mercosul depois de o alcançarem, tanto quanto outros asiáticos, como corporações empresariais. Somos um trem descarrilado que não encontra uma estação sequer para repensar o trajeto que tomamos lá atrás, na metade do século passado, quando nos deram de presente a indústria automobilística. Imaginamos que teríamos uma galinha dos ovos de ouro para todo o sempre.
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