Sociedade

Quando um julgamento profana
a realidade contextual dos fatos

DANIEL LIMA - 17/06/2015

Infelizes daqueles que profanam o direito de decidir, principalmente quando o direito de decidir é o direito de abusar da própria capacidade de dissimular a arte de fingir que se está praticando o jogo da justiça com equilíbrio. Pobres daqueles que supõem que uma suposta imparcialidade entrou em campo para medir o tamanho do que é certo e do que é errado sem que deixasse escapar em detalhes sórdidos que o jogo jogado era um jogo viciado desde o princípio.


 


Quem julga sem se preocupar com a forma de conduzir um prélio para o qual é especialista e do qual o acusado é um noviciado, um aprendiz e, portanto, sem a maliciosidade dos pecadores em busca de uma vitória a qualquer custo, quem julga nessas circunstâncias não o faz com sensibilidade e equilíbrio.


 


Quem julga sem considerar o contexto do julgamento e se fia na consolidação da mentira e no sofisma da parte contrária como palavra de ordem é um falsificador de sentenças.


 


Sentença préfabricada


 


Pobres daqueles que deixam escapar nas entrelinhas de frases encomendadas e entre os vãos dos dedos da impetuosidade estudada fragmentos de uma sentença que só será formalizada por questão de ordem legal, porque o veredito já lhe escapou na incontinência da verbalização açodada porque masculada por interesses outros.


 


Mesmo os aprendizes no ofício de avaliar sentenças limitadoras da liberdade a qualquer custo não encontram barreiras para distinguir o justo do injusto, porque há sempre uma frase fugidia a revelar o que existe de supostamente recôndito na arte de parecer-se magnânimo. 


 


Quando o rato do interesseiro se junta ao queijo do manipulador não há dúvidas de que o enredo já foi previamente traçado. O gato da independência do julgador foi castrado, quando não atirado telhado abaixo.


 


Quando se pretende decidir entre o certo e o errado usando artifícios semânticos, quando não de má-vontade com uma das partes, não existe outra saída conclusiva senão a certeza de que um teatro foi minuciosamente preparado para fazer de fantoche alguém que juraria por todos os santos que ainda restaria alguma cidadela de pureza e moralidade a salvo. A teatralização não combina com o ambiente vetusto de uma sala de audiência.


 


Encenação canhestra


 


Pobres daqueles que após tanto zombarem do pressuposto de isenção e compreensão dos fatos sem máculas engatilhadas ao sabor das conveniências imaginam que a encenação passou longe da compreensão de vítimas que se tornam vilões.


 


A verdade não é uma linha reta que se projeta ao sabor do academicismo desprovido de experiência prática. Há artimanhas que atiçam a luta entre o certo e o errado, entre o factual e o  dissimulado, entre o clarificado e opaco. Para que a compreensão da realidade se dê em circunstâncias que não permitam o deboche e a simplificação da narrativa de modo que o acusador a neutralize com sofismas variados a prerrogativa da contextualização é inerente ao direito de defesa.


 


Cercear o direito de avançar nos desvãos para retomar a linha reta que é o objetivo final mas nem por isso draconianamente único é impedir a um sobrevivente na selva alternativas para chegar ao destino desejado.


 


Há inúmeras maneiras de perpetrar amarras inibitórias àqueles que ousarem confrontar forças estabelecidas que se pretendem perpétuas porque ancoradas em similitudes comportamentais danosas.


 


O mal quando travestido de Justiça é um mal muito maior porque é o mal enfeitiçador, mistificador e capciosamente em forma de cilada pronta para atingir o bem violentado numa roupagem de abusivo, quando não de difamador.


 


Como é possível levar a sério e respeitar algo que se traduz numa engenharia de articulações e conexões respaldas pelo objetivo intrínseco de impedir o contraditório, transformando em verdades absolutas incursões que cheiram a podre, que têm formatos desfigurados de bases éticas, que subestimam os valores de cidadania, que sufocam o direito de reagir e de provar que aquela suposta pedra preciosa de honradez e caráter não passa de um pedaço de pedra brita imunda atirada às janelas dos reformistas?


 


Quanto não representa de atraso e descaminho para a sociedade em geral a canonização dos impuros, a sacralização dos vadios, a diplomação dos oportunistas, a intocabilidade dos poderosos, a consagração dos procrastinadores?


 


Que exemplos terão as novas gerações quando delinquentes juramentados arvoram-se de justiceiros a custa da realidade dos fatos subjugada por julgamentos imprecisos, incompletos, prestidigitadoramente abusivos à ética e à moralidade? 


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