Sociedade

Dirigente empresarial que vira
gestor público preserva ética?

DANIEL LIMA - 30/07/2015

Nada tenho em princípio contra dirigente empresarial que pula o muro da representatividade de classe e se torna executivo público. São tantos os casos na região e também fora de nossa geografia que nem vale a pena recorrer a exemplos. Por isso, ao tomar posse hoje na Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo, após longo período como comandante da unidade local do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), Hitoshi Hyodo dá sequência a um enredo manjadíssimos, contra o qual opositores filosóficos precisam sim ser respeitados.


 


De minha parte, não vejo problema de compatibilidade funcional, até porque a modalidade é irrefreável, embora a literatura regional registre que praticamente todas as tentativas deram com os burros nágua.


 


Não pretendo esticar demais este artigo, porque o assunto é complexo e enseja abordagens múltiplas. De cara, na transposição das águas da iniciativa privada para os mares públicos há o desprezo homérico a uma condicionalidade que, destruída, alimentaria o bom senso da aproximação oficial estabelecida: nenhuma organização empresarial deveria permitir a qualquer um de seus representantes legais ingresso nos quadros públicos sem levar em consideração a agenda de demandas da classe com prazo de aplicação.


 


Apartidarismo maroto


 


Notem que estou me referindo a uma agenda de verdade, não contemplada, porque específica, pelo estatuto de cada organização. Estatuto é estatuto. Burocrático, previsível, repetitivo por natureza e geralmente desprezado por safadeza, porque predominantemente impõe com seriedade jamais aplicada o apartidarismo maroto de quem considera que só exista idiota na sociedade. Agenda é compromisso firmado, registrado em cartório, amplamente divulgado.


 


Duvido que o Ciesp de São Bernardo -- de cujas reuniões mensais com associados participei uma vez como palestrante que não poupou críticas à gestão de Luiz Marinho -- não tenha pelo menos 10 pontos reivindicativos a contemplar grande parte dos associados. Duvido mesmo. Ora, se tem -- se não tiver não teria razão alguma de estar em atividade -- é preciso que sejam acoplados ao conhecimento, à liderança e à personalidade do novo secretário de Desenvolvimento Econômico do Município.


 


Por conta de que esse comprometimento com as demandas da classe empresarial jamais ter sido sequer colocado em discussão nas entidades, surgem com toda razão os opositores empedernidos de aproximações que parecem tuteladas pela política partidária e por interesses eleitorais. É o caso do líder de comerciantes de Diadema, Filipe Marques, combativo ex-presidente da Associação Comercial e Empresarial, recentemente em rota de colisão com a atual presidente. 


 


Filipe Marques não tem papas na língua. No programa “Diálogo Aberto”, que apresento na TV de Internet do Diário do Grande ABC, ele expôs aversão à incorporação pelo Poder Público de agentes empresariais. A empresária do setor educacional e dirigente licenciada da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) Oswana Fameli, secretária de Desenvolvimento Econômico e vice-prefeita de Santo André, ocupava o mesmo sofá de Filipe Marques, também como convidada da programação. Foi visível a saia justa. Agi como bombeiro, porque estou ali para isso -- e também, porque sou jornalista, para botar fogo quando o debate entra no terreno do comodismo.


 


A perspectiva de que Hitoshi Hyodo se somaria aos náufragos que veem do passado está completamente na bitola da lógica, entre outras razões porque as secretarias de Desenvolvimento Econômico jamais contaram com estrutura física e de recursos humanos à altura da responsabilidade social de uma região que perde continuamente a pujança produtiva que vem do passado. 


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