Sociedade

MP deveria mirar sentença
de Sérgio Moro no Petrolão

DANIEL LIMA - 10/08/2015

Os ladrões do outro lado do balcão da Máfia do Semasa não teriam folga se o promotor criminal Roberto Wider Filho incorporasse senso de abrangência operacional a todos os delituosos. Na semana passada, na sentença que condenou a cúpula da OAS por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, o juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Operação Lava Jato, rechaçou a tese de defesa de algumas empreiteiras que alegaram ter sido extorquidas pelo esquema de propina instalado na Petrobras. “Quem é extorquido procura a Polícia e não o mundo das sombras”, advertiu o magistrado. Em Santo André, os delinquentes do setor imobiliário que se lambuzaram no Semasa ficaram livres, leves e soltos, apesar de evidências e provas de que integravam uma associação informal com servidores públicos.


 


Em maio último publicamos nesta revista digital a decisão do promotor criminal Roberto Wider Filho de anunciar tão somente a escalação de um time inteiro, vestindo a camisa da Administração Pública de Santo André no período do prefeito Aidan Ravin, como integrantes da Máfia do Semasa. Dezenas de empresários metidos na encrenca foram olimpicamente afastados de qualquer possibilidade de punição. O promotor considerou que eles foram extorquidos, após afirmar à mídia menos de um ano antes que já detinha inclusive o nome de um grande empresário como delinquente comprovado. Ou seja: o promotor Roberto Wider Filho, que indicava ter havido sexo consensual, voltou atrás e garantiu que houve estupro. Uso outra vez essa imagem porque acredito que é perfeita para resumir a situação. 


 


Outra máfia, outro destino


 


O conceito do juiz Sérgio Moro no caso da Lava Jato provavelmente incomodou o promotor criminal de Santo André. “Quem é vítima de extorsão se afasta dos algozes”, outra frase atribuída ao juiz federal do Paraná, é emblemática do enredo envolvendo empresários marginais e servidores públicos igualmente transgressores em Santo André.


 


Não fosse a Operação Lava Jato referência de contraste de tratamento dado à Máfia do Semasa, o caso da Máfia do ISS de São Paulo, desvendado pelo Ministério Público Estadual e pela Controladoria-Geral do Município, é ainda mais preciso, porque também envolve o setor imobiliário. E tem em comum alguns nomes de mandachuvas ou paus mandados que atuaram diretamente em São Paulo e, em período semelhante, fizeram parada em Santo André.


 


Se alguém afirmar que esses personagens ligados a políticos paulistas fizeram na região coisas bem diferentes do que os levaram às complicações na Capital provavelmente terá alguma dose de razão, mas nem por isso deveriam ser cartas fora do baralho das investigações locais entre outros motivos porque modalidades de delitos sofrem variações ditadas pelas circunstâncias.  Já os mercadores imobiliários locais metidos nas lambanças da Máfia do Semasa enfiaram a mão até onde puderam. Eles estabeleceram as regras do jogo em comum acordo em toma-lá-dá-cá pago pelos contribuintes tanto em forma de tributos surrupiados quanto no rebaixamento da qualidade de vida provocada pelas sequelas de mobilidade urbana.


 


Hipocrisia nas ruas


 


Não quero me estender sobre a Máfia do Semasa entre outras razões porque sou uma andorinha que sozinha não faz verão em muitas situações semelhantes. A mídia regional em geral se cala sobre tudo que tenha algum parentesco com belicosidade. Além disso, que sociedade é essa em que vivemos se seus principais agentes, metidos em instituições que não honram as calças da responsabilidade que vestem, preferem o silêncio? Está aí a OAB do candidato a candidato a alguma coisa que lhe renda vantagem individual, Fábio Picarelli, a amoitar-se escandalosamente e ainda exibe a cara de pau de liderar grupos em redes sociais para ir às ruas contra o governo Dilma Rousseff?


 


A Máfia do Semasa foi minuciosamente descrita pelo denunciante Calixto Antônio Júnior, advogado que, segundo as investigações, atuava em nome do então prefeito Aidan Ravin na linha de produção de malfeitos. Calixto Antônio foi enfático ao dizer que as ramificações das irregularidades nos procedimentos à liberação das chamadas licenças ambientais eram gigantescas. Disse que os empreendimentos imobiliários de maiores dimensões liberados em Santo André nos três anos anteriores eram um convite a maracutaias. Esperava-se que, ao ouvi-lo, o Ministério Público arrebanhasse dezenas de engravatados, como tem ocorrido na Capital.


 


A conclusão do inquérito do MP gerou uma combinação de decepção e indignação. A baixa transparência do MP contradiz o modus operandi da Operação Lava Jato, compartilhada por força tarefa que conta com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Sem qualquer pressão da sociedade, sub-representada por gente com o rabo preso, o promotor criminal fez pouco caso inclusive deste jornalista, ao se negar a responder a uma Entrevista Indesejada que lhe preparamos.


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