Já imaginaram um ranking no formato de Bolsa de Valores dos Municípios Brasileiros, cujas ações (pontuações) flutuariam ao sabor do tripé formado pelo conceito de Capital Social, composto por Mercado, Sociedade e Governo? Falemos francamente, sem nada de politicamente correto: você apostaria na Província do Grande ABC? Se respondeu que apostaria, trate de rever seus conceitos. Eu não apostaria um tostão furado. Nadinha de nada. Há motivos de sobra para tanto – como temos exposto principalmente nesta revista digital desde janeiro de 2009, e antes, menos descrentes, na revista LivreMercado, que criamos em 1990.
Alguma universidade brasileira poderia capturar a ideia deste texto e organizar um grupo de estudiosos para preparar a versão sugerida da Bolsa de Valores dos Municípios Brasileiros. Não é nada extraordinariamente inviável. Muito pelo contrário. Aliás, para a carga ficar mais leve e produtiva, mais de uma instituição de ensino poderia adotar a ideia. Indicadores mensuráveis e subjetivos poderiam passar por minuciosas avaliações.
No final dos anos 1990 criei o IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos) com a cara e a coragem. Trabalhamos apenas com dados mensuráveis e optamos por algumas dezenas dos principais municípios paulistas. Eram 15 indicadores sociais, criminais, econômicos e fiscais. Foi um sucesso que não prosseguiu porque exigia ações para valer de representantes da sociedade regional. Alguns aderiram. Outros fingiram aderir. Mão na massa mesmo colocamos eu e o pesquisador Marcos Pazzini, da hoje Consultoria IPC. Um profissional da melhor qualidade.
Desencontro geral
Mas, voltemos à Bolsa de Valores dos Municípios Brasileiros. A Província do Grande ABC não deveria chamar a atenção de quem tivesse cuidado com critérios que balizariam os indicadores das ações, os quais poderiam servir de instrumentos à consecução de investimentos concretos de organizações privadas, principalmente. A Província do Grande ABC não conta com equilíbrio entre Mercado, Sociedade e Governo. Marchamos como baratas tontas não se sabe para onde.
Embora debilitadíssimo, por conta de esfoladas econômicas, o Governo (no caso os prefeitos dos sete municípios) ainda exerce o domínio do jogo institucional. Eles deitam e rolam em detrimento do verdadeiro sentido de Capital Social. O Poder Público Municipal, apenas coadjuvante nos tempos em que a indústria representava até 70% do PIB regional, determina os rumos dos acontecimentos. Como o Poder Público, em regra, não segue rumo coerente, movido a demagogias, incapacidades e sonolências, além de vocação terrível à freguesia de Lava Jatos, entregar-lhe o comando das iniciativas é flertar com o caos.
A Sociedade que jamais foi lá essas coisas de organização coletiva com objetividade fixada no futuro, está à deriva. Submete-se aos caprichos do Poder Público Municipal como marionete. Mais que isso: abdica integralmente de qualquer iniciativa que implique vigilância orçamentária e ética.
E o Mercado, sempre a reboque das grandes companhias, mergulhou numa crise sem precedentes, depois de certo alívio enganador durante alguns dos anos de ouro do governo Lula da Silva, seguidos da catástrofe patrocinada pelo descuido regional de Fernando Henrique Cardoso.
Sociedade precária
O mais grave a retirar qualquer brilho do potencial de investimentos nas ações (pontuações) da Província do Grande ABC na Bolsa (Ranking) de Valores dos Municípios Brasileiros é a degringolada geral e irrestrita da Sociedade.
Vive-se já faz bastante tempo situação de penúria institucional que espalha incompetências e espertezas por todos os cantos. As entidades de classe da região – com raríssimas exceções – viraram correias de transmissão dos Podres Poderes de Plantão.
Traduzindo a equação da debacle regional: a realidade é que não temos mesmo nenhum resquício de Capital Social que se salve, exceto este CapitalSocial, é claro.
A derrocada econômica e social é latente. Quem teria coragem de apostar prestígio ou dinheiro numa região listada em Bolsa de Valores que elencaria tantos municípios e regiões brasileiros que fazem da competitividade econômica questão visceral?
Fundo do poço
Nossos passivos sociais, econômicos e institucionais são tão calamitosos que só existe mesmo algo: só perdemos em matéria de degringolada para a incapacidade igualmente geral e irrestrita de nos darmos conta de que estamos ferrados e mal pagos faz tanto tempo, mas tanto tempo, que soaria anedótica tal afirmação não fosse o surrealismo de que ainda há resistência em se admitir o fundo do poço.
Vou traduzir de forma mais didática o enunciado anterior: ficamos tão inebriados ao longo dos tempos com a arrogância implícita e explicita de “Grande ABC” das montadoras de veículos -- e de outras cadeias de produção que se foram gradualmente rumo ao Interior -- que a ficha do esfacelamento regional ainda não caiu. Pelo menos não caiu para os mandachuvas e mandachuvinhas que se esforçam ao máximo para vender aos incautos a imagem de que ainda somos poderosos. Uma estratégia perfeita para se locupletarem com os resquícios das riquezas que vieram do passado.
Organizar a Bolsa de Valores dos Municípios Brasileiros com o sentido de parametrizar os endereços nacionais mais desenvolvidos ao longo dos tempos e também capturar as novas fronteiras municipais e regionais seria um excelente exercício sobretudo aos estudantes do Ensino Superior e aos acadêmicos em geral -- porque os colocariam em contato com a realidade além-salas de aula.
Que faria a UFABC?
Já imaginaram os leitores que vergonha passariam os professores, os estudantes e a direção da Universidade Federal do Grande ABC se, como desdobramento dessa ideia, aquela instituição fosse convidada a participar da empreitada, formando uma rede de escolas decididas a incrementar o desenvolvimento econômico nacional a partir de uma combinação de indicadores colocados em disputa entre os municípios?
Que faria a UFABC para não passar o vexame de se descobrir apenas uma barriga de aluguel educacional na Província do Grande ABC -- como bem definiu tempos atrás o educador Valmor Bolan? O que os petistas, que jamais se preocuparam com o envolvimento da UFABC nos destinos econômicos e sociais da região, teriam a oferecer como resposta à sociedade?
Embora seja também uma provocação, a ideia de constituir uma Bolsa de Valores dos Municípios Brasileiros bem que poderia mesmo sair destas páginas digitais e ganhar corpo e alma em alguma organização com sensibilidade para tentar decifrar as quantas andam as localidades nacionais em termos de conjunção desenvolvimentista entre Governo, Sociedade e Mercado.
Quem acha que a ideia é absurda – sempre há quem a ache, invariavelmente porque se pratica o jogo da preguiça contínua que leva ao ceticismo apático – não sabe o quanto o ranking que organizamos com base nos números do Instituto de Estudos Metropolitanos proporcionou de luminosidade.
A propósito, reproduzimos abaixo, em link, o texto da primeira edição daquela iniciativa. O que sugerimos para a Bolsa de Valores dos Municípios Brasileiros é algo ainda mais intenso, acrescentando-se o conjunto do ambiente governamental, de mercado e da sociedade como elemento essencial à interpretação dos indicadores das localidades selecionadas. É principalmente sob esse ponto de vista, de ambiente dos negócios, do governo e da sociedade, que apanhamos de goleada.
Leiam, portanto:
São Caetano líder, mas somos 11º
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL