Regionalidade

Agenda de transformações
segue frustrante na região

DANIEL LIMA - 17/06/2016

A Província do Grande ABC é fortíssima candidata ao título nacional de frustração profissional para jornalista que não se limita ao papel de simples repassador de informações de terceiros. Ou seja: jornalista de verdade, não relações publicas. Possivelmente apenas o Brasil é capaz de, pela importância, dimensão e outros quesitos -- como a Operação Lava Jato que ainda está a faltar nesta Província --, tornar-se mais desanimador como território símbolo de infertilidade social.

Há 12,6 anos, na edição de dezembro de 2003 da revista LivreMercado, produzi com minha equipe de redação uma das mais importantes “Reportagem de Capa” daquela publicação que escrutinou a história regional durante duas décadas. “Uma agenda para iluminar a região” foi o mote para expor uma proposta de 30 bandeiras ao final do primeiro ano do primeiro mandato de Lula da Silva.

Nunca imaginávamos queda tão acentuada na tabela de realidades e expectativas. E ainda há bandoleiros na praça -- os bandidos sociais e seus apaniguados vagabundos sociais -- que querem saber as razões que supostamente me tornaram mais amargo com relação à Província do Grande ABC. A resposta é simples: tenho memória. Quando memória se junta a outros requisitos básicos que ouso praticar como profissional de informação, só poderia mesmo dar no que está dando -- o silêncio público de uma maioria que sabe o que todos passamos, e o alarde seletivo dos aproveitadores de sempre.

É mesmo muito decepcionante chegar à conclusão, quase 13 anos depois, que aquela agenda pretensiosamente iluminadora do modelo de regionalidade que poderíamos dispor, converteu-se em retumbante fracasso.

Fracasso não porque tenha havido excesso nas projeções. Nada disso. O que impera como cromossomos dessa conclusão é a decepção com a ditadura da vagabundagem geral e irrestrita dos agentes públicos, privados e sociais supostamente de ponta, ou seja, que estão no comando da maioria das entidades da região.

Apenas dois entre 30

Com muita generosidade podemos listar apenas dois pontos entre aqueles 30 que tiveram respostas positivas. O primeiro trata da luta pela melhoria dos índices de criminalidade na região. Houve avanços fantásticos, comprovados nas estatísticas.

Também houve melhoria nos diagnósticos e ações para combater carências de infraestrutura material que criam obstáculos ao desenvolvimento econômico da região. Nesse ponto, o que era doce, acabou-se com a crise fiscal do governo federal, grande repassador de recursos, principalmente por influência do petista Luiz Martins – destinatário do projeto de embalar o sonho de o PT chegar ao governo do Estado.

Repasso aos leitores, sem os condimentos interpretativos do texto original daquela “Reportagem de Capa” de LivreMercado de dezembro de 2003 (o texto original está no link abaixo), todos os enunciados formulados como desafios a uma regionalidade que frustra a todos pela indolência dos agentes públicos, pela fragmentação das lideranças empresariais, pela imprevidência das chefias sindicais e pela fragilidade dos representantes de entidades sociais.

O que os leitores vão encontrar na sequência é possivelmente a prova mais contundente de que o tom reservado por esta revista digital ao conjunto das supostas lideranças da Província do Grande ABC carrega o pecado capital de ser ainda muito, mas muito generoso e contemporizador. Bandidos sociais e assemelhados são identificações singelas para um bando de inúteis.

Agenda frustrada 

 Exigir de entidades sociais mobilizações além dos interesses corporativos de seus associados. 

 Estimular permanentemente a integração regional nos aspectos econômico, social, cultural e político por meio de várias instâncias de representações. 

 Desqualificar políticas públicas voltadas à disseminação de medidas microeconômicas que comprometam o todo regional. 

 Incentivar a utilização de recursos provenientes de impostos, taxas e contribuições municipais para o aparelhamento técnico-operacional da economia regional. 

 Estabelecer referências de efetividade e produtividade regionais aos deputados estaduais e federais eleitos predominantemente ou significativamente com votos no Grande ABC. 

 Incentivar medidas restritivas de gastos com o funcionalismo público com base em dados disponíveis em instituições independentes de avaliação dos custos do poder público. 

 Exigir dos agentes públicos, privados e sociais permanente pressão por medidas preventivas de profundo alcance para desestimular a transformação do Grande ABC em endereço preferencial da incidência criminal. 

 Cobrar das autoridades públicas diagnóstico e ações para combater as carências de infraestrutura material que atravancam o desenvolvimento econômico regional. 

 Exigir das autoridades públicas a qualificação de estudos técnicos para dar sustentação às necessidades da infraestrutura social. 

 Combater informações de agentes públicos, sociais e empresariais que, à falta de compromisso com a regionalidade, optarem pelo espetaculoso sem fundamentação. 

 Exigir transparência de dados orçamentários das instituições públicas, inclusive com transposição das informações para o campo virtual, na rede mundial de computadores. 

 Cobrar dos estabelecimentos de ensino mantidos com recursos públicos maior empenho e comprometimento com questões municipais e regionais. 

 Incentivar a inserção de instituições assistenciais entre as preocupações de responsabilidade social de organizações privadas, públicas e não-governamentais. 

 Exigir dos governos estadual e federal participação permanente de interlocutores oficiais. 

 Defender a constituição de um fundo de recursos financeiros oriundos de orçamentos municipais ou de doação de empresas privadas para a contratação de especialistas que atuariam no assessoramento das instituições de cunho regional e dos parlamentares conceituados como representantes do Grande ABC.

 Exigir das instituições regionais calendário permanente de intercâmbio com organizações internacionais vocacionadas ao temário metropolitano.

 Considerar como membros das bancadas de deputados do Grande ABC na Assembleia Legislativa e em Brasília todos os eleitos domiciliados na região, bem como tantos quantos tenham alcançado número de sufrágios decisivos a se instalarem acima da linha de corte.

 Cobrar das autoridades públicas, das entidades de classe empresarial e dos agentes comunitários empenho e determinação que torne mais factível e suportável o financiamento de pequenas e médias empresas.

 Defesa de um fundo metropolitano da Grande São Paulo para aplicação em políticas públicas direcionadas à competitividade econômica e social da região metropolitana.

 Formação de um grupo multidisciplinar de profissionais reconhecidamente especialistas em Grande ABC para atuar informalmente como assessores de programas voltados à valorização da imagem institucional da região.

 Engrossar, com mobilizações permanentes, a corrente de apoio aos representantes municipais e regionais de atividades esportivas e culturais com maior potencial de divulgação doméstica, estadual e nacional, quando não internacional.

Leiam também:

Uma agenda para iluminar a região



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