Economia

CUT e PT organizam festa da
Volks para Morando brilhar

DANIEL LIMA - 22/06/2017

Por essa os petistas e os cutistas, metades da mesma laranja do mais forte esquerdismo político e trabalhista na Província do Grande ABC, jamais esperavam: eles prepararam o salão de festa da Volkswagen do Brasil, na Anchieta, para o desfile de gala do prefeito tucano Orlando Morando. Um desfile de gala oportunista, mas justificável. Afinal, não se deve esperar de alguém que quer alçar voos mais altos algo diferente de pegar carona e em seguida conduzir literalmente o veículo inovador que a montadora prepara para São Bernardo. 

A metáfora do salão de festa preparado com esmero pelos adversários de Orlando Morando talvez seja a melhor imagem que encontraria para resumir a ópera do anúncio oficial de uma nova divisão produtiva na fábrica da multinacional alemã, o modelo Polo, sucesso de público e bilheteria na Europa. 

O Polo deve salvar a fábrica de São Bernardo de preocupante sequência de fracassos ditada principalmente pelo anacronismo nas relações entre capital e trabalho dissuadido a custo de muitos e indispensáveis cortes de trabalhadores. 

Não há mágica na equação econômica: o mundo das montadoras é o mais competitivo do planeta e não existe fórmula mágica à competitividade global senão associar mão de obra e tecnologia, que resulta em produtividade. Qualquer argumentação fora desse padrão é demagogia ou ignorância, quando não as duas coisas.  

Parceria de muitos anos 

Tudo que emerge agora, com a confirmação do investimento, foi organizado há muitos anos em parceria entre o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e dirigentes da Volkswagen. Faltou combinar com as urnas eleitorais para que a festa não contasse com um infiltrado que acabou por roubar a cena. 

Esperar que Orlando Morando desdenhasse dessa possibilidade seria estupidez. Ninguém perderia. O que se lamenta, apenas, é que a Imprensa regional faça vistas grossas à realidade pretérita e alce o tucano à condição de protagonista do espetáculo. Orlando Morando, repito, está pegando o bonde da felicidade de um investimento cuja preparação do terreno custou caro. E vai custar ainda mais. 

Recuperar o noticiário da chamada Imprensa especializada em mercado automotivo é a forma mais apropriada para mostrar a verdade dos fatos nesta Província. Nosso Complexo de Gato Borralheira, sobre o qual escrevi um livro, não é obra do acaso. 

Certamente não faltariam detratores a procurar desclassificar este texto se, além do conhecimento específico do setor automotivo no que se refere à geografia regional, subestimasse fontes mais que confiáveis. O jornal Valor Econômico, por exemplo. Vejam o que o principal veículo de economia do País publicou em outubro de 2015 com assinatura do jornalista Eduardo Laguna. Reproduzo os principais trechos: 

 Em sua primeira declaração após as denúncias de fraudes nos testes de poluentes nos Estados Unidos, o presidente da Volkswagen do Brasil, David Powels, reafirmou ontem plano de investir R$ 10 bilhões no Brasil, embora o grupo esteja revendo investimentos globais após a descoberta da fraude que deve lhe causar prejuízo bilionário em multas, processos e recalls. “Não vamos cortar produtos no Brasil. Vamos continuar com nossos planos”, disse Powels, ao ressaltar que o pente fino nos investimentos planejados pela multinacional alemã não terá “grande impacto” na renovação dos modelos vendidos no Brasil. Lançado no ano passado, o programa prevê investimentos destinados, principalmente, à produção local de carros globais da marca até 2018. O ciclo de inclusão do país na plataforma tecnológica mundial já resultou na nacionalização de três modelos – o subcompacto Up!, a nova geração do Golf e o sedã Jetta. Estão previstos lançamentos nos próximos anos. 

Mais notícia do Valor Econômico 

 Há uma semana, após antecipar que revisaria os planos e cancelaria ou adiaria o que não fosse absolutamente necessário, a Volks anunciou meta de cortar investimentos em 1 bilhão de Euros. (...). Embora a subsidiária do Brasil dependa do caixa da matriz para financiar parte dos empreendimentos, Powels garante que a prioridade em modernizar a gama de produtos – fundamental na ambição da marca, também anunciada ontem, de voltar a liderar o mercado local – fecha espaço para grandes cortes de aportes. Não vamos reduzir (os investimentos). Precisamos investir em uma nova plataforma e introduzir carros no país. Não há possibilidade de cortar muito”, disse o executivo. Entre os projetos, a Volks já fechou acordos trabalhistas para viabilizar investimentos numa nova plataforma de carros globais no parque industrial do ABC Paulista.

Mais notícia do Valor 

A jornalista Marli Olmos, também do Valor Econômico e provavelmente a mais especializada em setor automotivo entre os especializados, retratou na edição de ontem uma situação que a Imprensa regional procura escamotear porque o ambiente de triunfalismo é inesgotável. Nesse caso, não temos o Complexo de Gata Borralheira como principal explicação. É mesmo o Complexo de Avestruz. 

Trata-se do fato de que a Volkswagen de São Bernardo não tem escapatória, assim como em outras unidades fabris da marca no País: ou investe para valer ou vai virar no futuro uma montadora de porte médio. Reproduzo, também levando em conta o aspecto testemunhal, os principais trechos da matéria que Marli Olmos assinou no Valor de ontem sob o título “Em busca de espaço perdido, Volks lança Polo”: 

 Esta semana a Volkswagen deve anunciar detalhes do início da produção do novo Polo no Brasil. Esse carro significa muito mais do que um simples lançamento. Para a empresa, representa uma carta importante para tentar recuperar o terreno perdido para a concorrência. Em dez anos a participação da Volks no mercado brasileiro caiu de 22,97% para 11,50%. Já para os empregados da fábrica de São Bernardo do Campo a notícia consagra uma negociação iniciada há cinco anos, quando surgiram os primeiros sinais de excesso de mão de obra. O Polo é fruto de um acordo para tentar amenizar a ociosidade que ainda persiste. 

Mais Valor Econômico 

 A Volks, líder do mercado até o início dos anos 2000, não é a única, entre as grandes, a renovar a linha para tentar recuperar espaço perdido. Há alguns dias, a Fiat apresentou o Argo, sucessor da linha Palio (...). Entre 2007 e 2016 a participação da Fiat caiu de 25,94% para 15,35%. A líder agora é a General Motors. Mas, apesar de ter se destacado ao desbancar a Fiat no primeiro lugar em 2016, a montadora americana também sofreu com o avanço da concorrência. Tinha 21,19% no mercado brasileiro de carros e comerciais leves há 10 anos e fechou o ano passado com 17,41%, segundo dados da Federação Nacional de Distribuição de Veículos (Fenabrave), que acompanha o licenciamento nacional. 

Mais Valor Econômico 

 A crise mexeu com gigantes. Há uma década GM, Fiat e Volks eram donas de 70% do mercado brasileiro. Em 2016 somaram juntas, 44,2%. Os mais de 25 pontos percentuais perdidos pelas três foram abocanhados principalmente por asiáticas, como a coreana Hyundai e a japonesa Toyota, que, com pouco mais de 9% cada uma das vendas de 2016, passaram à frente da Ford, que permaneceu estagnada. 

Mais Valor Econômico 

 O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, calcula que desde meados de 2016 em torno de 1,5 mil trabalhadores da fábrica de São Bernardo aderiram aos programas de demissão voluntária. Segundo o dirigente, três programas de voluntariado já foram abertos nos últimos meses e o processo tende a continuar. “Se esse carro (o novo Polo) der certo poderemos ter esperança de que a fábrica de São Bernardo continue com o atual número de empregados, que está em torno de 9,2 mil”, afirmou Santana. O acordo para que a fábrica de São Bernardo, a maior da Volkswagen no Brasil, recebesse uma boa parte dos investimentos em novos produtos anunciados, em 2010, começou a ser costurado entre empresa e sindicato em 2012. Ficou definido que a unidade do ABC receberá duas versões do Polo. A versão hatch começará a ser produzida em setembro, segundo informações de fornecedores. Em 2018 a mesma unidade produzirá a versão sedã. Na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, será produzido um modelo utilitário esportivo. Os três veículos serão produzidos sobre a mesma plataforma, chamada de MQB. Trata-se de um produto diferente do Polo que já foi produzido no Brasil. 

Completando o Valor Econômico 

 O presidente do sindicato dos metalúrgicos estima que, com a produção de um novo modelo, operários que estavam afastados da fábrica por excesso de ociosidade poderão voltar ao trabalho. A produção do Polo faz parte do ciclo de investimentos de R$ 10 bilhões, anunciado pela Volks para o período que abrange 2014 e 2018. 



Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 2006 matérias | Página 1

08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS
07/04/2026 QUEM VAI PAGAR OS DANOS DO RODOANEL?
26/03/2026 REDUÇÃO DE IMPOSTOS É MESMO BOA NOTÍCIA?
25/03/2026 É IMPROVÁVEL GILVAN PERDER PARA PAULINHO
18/03/2026 MENOS RICOS E CLASSE MÉDIA NESTE SÉCULO
17/03/2026 PIB INDUSTRIAL: UM DESASTRE NO SÉCULO
12/03/2026 PIB PÓS-LULA DESABA 32% NO GRANDE ABC
11/03/2026 CLUBE SINDICAL ESTÁ PERDIDO NO TEMPO
09/03/2026 CLUBE ECONÔMICO TAMBÉM É FRACASSO
05/03/2026 DEMARCHI E O VEXAME DOS 100 MIL EMPREGOS
19/02/2026 EMPREGO INDUSTRIAL VAI CHEGAR À META?
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC