Dirigentes da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) comentam entre discretos e irritados o descaso das demais entidades do gênero da Província do Grande ABC quando se trata de uma peça-chave à manutenção de esforços em busca de alguma coisa que lembre regionalidade. Do Clube dos Comerciantes da região, como poderia sintetizar a reunião das associações comerciais, apenas a Acisa está em dia com as mensalidades na Agência de Desenvolvimento Econômico, primo pobre do Clube dos Prefeitos. A dívida conjunta, segundo fonte da Acisa, chega próxima a R$ 500 mil. Ou seja: a inadimplência é recorrente ao longo dos anos.
Não bastasse o manifesto desinteresse em conjugar forças para levar adiante uma instituição por si só já fragilizada desde que o Clube dos Prefeitos decidiu retirar-se de campo em janeiro último, quando da chegada do prefeito Orlando Morando, os representantes das associações comerciais devedoras querem anistia. Uma passada de borracha geral e irrestrita. Uma limpeza da ficha suja financeira.
O modelo de financiamento das entidades privadas que compõem a Agência de Desenvolvimento Econômico tem-se comprovado deficiente. As associações comerciais (exceto a Acisa) não correspondem às expectativas de fortalecimento do conceito de regionalidade. Não é surpresa, porque são organizações municipalistas por excelência. Como a própria Acisa. A diferença é que a Acisa tem à frente um profissional que, antecedido de familiar que participou da fundação do Diário do Grande ABC, não cometerei a estupidez de relegar a própria concepção daquele jornal. Evenson Dotto deveria servir de exemplo aos demais presidentes das associações comerciais, independentemente da árvore genealógica. Afinal, todos os demais igualmente moram e vivem na região.
Gaveta do esquecimento
Fosse a Província do Grande ABC digna da marca criada pelo Diário do Grande ABC de bravos e jovens empreendedores, o caso revelado neste texto de inadimplência quase que generalizada teria desdobramento diferente do que se apresenta, ou seja, a gaveta do esquecimento no dia seguinte.
Sem a oxigenação das associações comerciais voltada aos novos tempos institucionais que já alcançam entidades de classe no País, continuaremos nesse ramerrame que avalizará por inércia o baixíssimo grau de harmonia entre organizações de diferentes ramificações na região.
Pode até parecer que este jornalista conta com a mesma ideia de sempre quando se refere às associações comerciais, mas é um erro imaginar que eu seja aquele sujeito que, ao chegar a uma casa de baixa tolerância de beira de estrada, botava moedas seguidas na geringonça eletrônica rudimentar que atendia ao seu fetiche musical. O comensal irritava os demais frequentadores porque sempre escolhia a mesma música, do mesmo cantor, da mesma gravadora. Como se sabe, não há quem resista a repetição sistemática de qualquer coisa, mesmo do gol de levou seu time ao título do campeonato mais importante da história. Ele o fazia por birra, por impertinência. Por vocação à contrariedade.
Bem diferente deste jornalista, garanto. Procuro inovar quando se trata de analisar as associações comerciais, mas o enredo é sempre muito parecido porque sou eu e as circunstâncias que me rodeiam. Se os fatos se repetem indefinidamente, como vou alterar a verdade?
Circunstâncias repetitivas
Mas, pensando bem, acho que um texto sobre calote das associações comerciais na Agência de Desenvolvimento Econômico é novidade. Ou melhor: quase novidade, porque é um derivativo do desdém com que os dirigentes tratam aquela instituição, embora não lhes faltem interesse pessoal e político de assumirem a presidência.
Por mais que uma organização coletiva como a Agência tenha desempenho discretíssimo, até porque brilhar em situações tão adversas seria milagre, não falta espaço a um destaque no currículo de quem ocupe a direção geral. É assim que as coisas funcionam no Brasil corporativo de sempre. Poucos se dão ao trabalho de mensurar e de expor publicamente o legado de organizações criadas para mudar o rumo das coisas. Daí, ser presidente de qualquer coisa coletiva é sempre positivo aos olhos de terceiros geralmente mal-informados.
Seria injusto este jornalista ignorar bons quadros que passaram e mesmo que estão nas entidades de classe empresarial da região (nesse caso incluo os Ciesps) mas, como tenho reiterado ao longo dos anos, as individualidades são dizimadas ante estorvos estruturais que resistem teimosamente.
Acervo riquíssimo
Coleciono tantos artigos nesta revista digital e também dos tempos de LivreMercado sobre entidades empresariais da região que tenho dificuldades em selecioná-los a uma exumação editorial que simbolize a inquietação com esse andar da carruagem. Aleatoriamente, encontro no acervo desta publicação um artigo de maio de 2003 (portanto há 14 anos) sob o título “É hora das entidades de classe irem ao trabalho”. Acho que vale a pena reproduzir alguns trechos:
Seria muito produtivo se, na esteira do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), que será lançado oficialmente em 25 de junho próximo, as entidades de classe empresarial do Grande ABC saíssem da toca em que sempre se meteram e decidissem, em conjunto, organizar-se para dar adensamento ao capital social tão sonhado. Sim, porque se vamos ter uma entidade cerebral, como é o caso do IEME, nada mais interessante que as entidades empresariais -- Associações Comerciais, Ciesps, sindicatos diversos como o SinComércio e o Sehal, entre outros -- também se mobilizem para dar formato a alguma coisa sensata do ponto de vista institucional, já que em pleno século XXI continuam se comportando como a partir de meados da década passada, quando foram criadas. Isto é: absolutamente voltadas a seus próprios umbigos corporativos municipais. A importância que tiveram no passado é proporcional à inutilidade de uns tempos para cá, quando o mundo passou a ser os limites territoriais.
Mais texto de 2003
(...) É claro que estou instigando as entidades de classe econômica a se juntarem estrategicamente para provocar reação dessa turma que há muito está em dívida com seus associados, em particular, e com a sociedade como um todo. Ao praticamente se limitarem a burocraticamente dar conta do recado e, com isso, arrecadar recursos que garantem receitas generosas, as entidades empresariais perderam o rumo dos acontecimentos. Seus dirigentes do passado e do presente pensam que influenciam nas decisões. Exceto em questões pontuais, muitas das quais recheadas de interesses corporativos e mesmo pessoais, as entidades econômicas longe estão de cumprir o papel de transformadoras da sociedade regional. Querem um exemplo claro e cristalino da falência institucional dessas entidades? Onde estavam seus dirigentes diante do maior massacre econômico que o Grande ABC já sofreu, durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso?
Mais texto de 2003
(...) Outro exemplo? Quem das associações comerciais, Ciesps, sindicatos, se manifestou contra falcatruas estatísticas que embalavam o sonho-pesadelo de um Grande ABC maravilhoso em pleno vendaval da desindustrialização? Mais um? Quando as grandes corporações comerciais e de serviços desembarcaram sem limites de atuação e massacraram os pequenos negócios, onde estavam as supostas lideranças empresariais? (...) A verdade é essa mesmo: nossas entidades econômicas, sob o ponto de vista institucional, de influenciar as tomadas de decisão, são sofríveis.
Entidade das entidades
Continuamente preocupado com a institucionalidade regional, em 2012 escrevi outro artigo, entre tantos, agora sob o título “Falta uma entidade das entidades para Província começar a mudar”. Vale a pena acompanhar alguns dos trechos:
Falta uma entidade das entidades na Província do Grande ABC para se alcançar um mínimo de organicidade institucional com forte agregado de comprometimento social. Com isso, quem sabe, seria possível abrandar esse estigma de subalternidade cultural no qual patinamos há muito tempo. Falta uma espécie de Rede Nossa São Paulo, que reúne mais de 100 entidades da sociedade civil paulistana. Falta uma réplica bem melhorada do Fórum da Cidadania do Grande ABC de meados dos anos 1990. Falta um Fórum da Cidadania sem a influência diretiva e marquetológica do Diário do Grande ABC, como no passado, ou de qualquer veículo de comunicação. A tutela comunitária de qualquer veículo de comunicação é uma mistura de oportunismo negocial e comodismo social. Não dá liga. O casamento termina em tragédia. (...) Volto ao tema entidade das entidades que não é novo no portfólio de regionalidade, gênese desta revista digital, porque não pode passar em branco o que a Rede Nossa São Paulo vem realizando na Capital, para contrariedade de muita gente, principalmente de autoridades públicas negligentes e de uma classe política que manipula os cordéis da mídia com a mesma competência, frequência e letalidade com que o volante Marcos Assunção bate faltas no Palmeiras.
Mais artigo de 2012
(...) Uma entidade das entidades numa Província do Grande ABC fragilizada ao longo dos tempos por divisionismos territoriais e as implicações culturais que isso representa é apenas um sonho de quem possivelmente tem espasmos de regionalidade como nutriente à manutenção da própria atividade jornalística. Ou quem sabe não apareceria alguém decididamente maluco para iniciar uma guinada histórica e cujo compromisso seja realmente com a sociedade, não com votos? Tomara que, levada adiante essa sugestão, o resultado operacional não seja mais uma impostura de grupos articulados para vender ilusões e interesses escusos. Lamentavelmente, duvido que as muitas individualidades de que dispõe a Província do Grande ABC se reúnam em torno de algo que ultrapasse o terreno minado das manjadas cartas de um baralho mais que controlado por jogadores sem a menor responsabilidade coletiva. Até porque, sabem as individualidades imersas nesses campos minados, que a melhor maneira de permanecerem socialmente vivas é continuarem a frequentar redutos improdutivos. Um círculo vicioso cujo preço salgadíssimo será pago pelas próximas gerações. Aliás, já está sendo pago pela atual geração de jovens e também dos deserdados industriais. Chegamos ao fundo do poço na sociedade regional, num jogo de hipocrisia coletiva que se sobrepõe às qualificações individuais.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL