Economia

Que tal São Caetano virar
Capital da Melhor Idade?

DANIEL LIMA - 25/07/2017

Acho que posso melhorar o que o Diário do Grande ABC de domingo mostrou aos leitores sobre o plano de São Caetano fortalecer a economia com o ramo de saúde. A matéria contém vácuos e interrogações. O enunciado de 12 novas empresas decididas a investir não se confirma. Tampouco, possivelmente por conta das fontes de informação, não se vai a fundo naquilo que chamaria de um grande filão a ser explorado. No caso o grande filão é a indústria da saúde da Melhor Idade, voltada a quem tem 50 anos ou mais de idade. Um mercado que não para de crescer. 

Pois é disso que vou tratar. Resumidamente, São Caetano tem uma vereda na área de qualidade de vida dos cinquentões em diante que precisa ser explorada com o que antigamente se chamava cluster -- e que foi tropicalizado como Arranjo Produtivo Local – APL. Basta se programar para isso. 

Para que os leitores dimensionem o que foi publicado e o que vou adicionar em forma de cooperação, reproduzo a matéria do Diário do Grande ABC. A reportagem foi manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) da edição de domingo: 

 A Prefeitura de São Caetano busca diversificar a economia da cidade com atração de empresas ligadas à área da Saúde. O governo de José Auricchio Júnior (PSDB) fala até em criar APL (Arranjo Produtivo Local), ambiente vocacionado a uma determinada vertente de produção. Desde o começo do ano, segundo projeção do prefeito, 12 grandes empresas do ramo da Saúde se instalaram ou encaminharam interesse em se alocar em São Caetano, apostando em cadeia econômica favorável. A expectativa é de geração de 2.430 empregos com a chegada do Hospital São Luiz, Laboratório Fleury, Euroimmun, LBS Laborosa, DL Distribuidora, entre outras empresas. Auricchio destacou alguns pontos adotados pelo Palácio da Cerâmica para atrair companhias. Uma das principais é a modernização da Vigilância Sanitária, em projeto capitaneado por Danilo Sigolo, chefe da área farmacêutica do setor em São Caetano. “Isso começou no nosso outro mandato (entre 2005 e 2012), quando trouxemos a Rede D’Or. Isso mostra que valeu e tem trazido esse conceito da Vigilância Sanitária modernizada e dinâmica. Junto a isso há sistema de licenciamento otimizado na Secretaria de Planejamento, ambiente na cidade de desenvolvimento, escolas de Saúde ofertando mão de obra permanente (em especial a Universidade Municipal de São Caetano, que oferece Medicina no currículo)”, discorreu Auricchio. 

Mais reportagem do Diário 

 “O município precisa ter crescimento em pequenos espaços e buscar empresas que têm alto valor agregado, verticalizadas e limpas. Estimulando esse ambiente, queremos trazer o Sebrae, criar um APL de Saúde. Seria inédito na região.” O prefeito garantiu que não há intenção em mudar a vocação industrial de São Caetano – até porque os impostos gerados pela presença da GM (General Motors) no município continuam sendo a principal fonte de receita da Prefeitura. Mas que, no período de crise, se faz necessário pensar em alternativas para geração de empregos e riqueza na cidade. Sobre o conceito de Vigilância Sanitária modernizada, Auricchio destacou que o objetivo é o poder público acompanhar o processo de instalação de uma empresa no município e não apontar falhas e reparos quando essa companhia já investiu em estrutura para abrir suas portas em São Caetano.

Mais reportagem do Diário 

 “Vamos criar um site com informações imobiliárias, juntamente com o Sebrae. O empresário que quiser vir (para São Caetano), verá onde está o galpão, o bairro, o aluguel. Vamos mostrar antes de o empresário começar a gastar, indicando tudo o que precisa para a área, para evitar desperdício de tempo e dinheiro. Estamos reativando sistema de licenciamento eletronicamente. Por isso chegamos à conclusão de que o APL pode atrair novas empresas e organiza essa ideia”, comentou o tucano. 

Agora meus comentários

Como não foi o secretário de Desenvolvimento Econômico, Silvio Minciotti, o responsável pelas informações repassadas ao Diário do Grande ABC, pergunto se o assunto não estaria ligado diretamente a ele. Se não estiver, seria um desperdício.  

O ponto-chave que fugiu do controle estratégico da informação e que acho indispensável é que São Caetano pode vocacionar um cluster de saúde a ponto de tornar-se referência nacional. Basta que os investidores verifiquem com atenção não apenas a especificidade do Município, que contempla uma das maiores populações de idosos do País, mas também a curva de envelhecimento nacional. 

Traduzindo: São Caetano pode ter um senhor Arranjo Produtivo Local de Saúde, com prioridade aos cinquentões em diante, principalmente da Região Metropolitana de São Paulo, área com mais de 20 milhões de habitantes, o dobro do Estado do Rio Grande do Sul. 

Nada menos que 37,10% da população de São Caetano tem 50 anos de idade ou mais, 31% acima da média da região, que é de 25,33%, enquanto o Brasil como um todo conta com 23,31% de idosos. Vinte e dois anos atrás, em 1995, os números eram mais discretos: 13,73% no Brasil, 12,96% nesta Província e 22,14% em São Caetano. 

A especialização de São Caetano na área de saúde, portanto, com filtro especialíssimo na população de 50 anos ou mais, é uma grande vereda a ser preenchida, porque caminharia para um gigantismo asseguradíssimo pela longevidade crescente da população brasileira. 

Se já temos São Bernardo como “Capital Automotiva do Brasil”, por que não São Caetano como “Capital da Melhor Idade do Brasil”?  Não vou desfilar aqui série de iniciativas de ordem marquetológica para assegurar que São Caetano estaria garantida no ramo. Não é preciso ser mais que suficientemente inteligente para entender o recado. 

São Caetano precisa buscar novos símbolos que acrescentem riqueza a sua economia, porque há perspectivas nada alvissareiras a assombrar o futuro. Querem ver como está o horizonte de São Caetano nas atividades que mais representam receitas para o Poder Público Municipal?

Setor automotivo

A General Motors tem investido na modernização da fábrica, mas o mundo automotivo é cruel e há contínuo processo de descentralização da produção. A ordem geral é contar com fábricas enxutas, produtivas e pouco sujeitas a grandes balanços sindicais. A General Motores reduz quadro de colaboradores há muito tempo e o processo deverá ter continuidade. A equação é essa no mundo todo onde os custos em geral, inclusive trabalhistas, estão acima da média suportável. 

Setor de serviços

São Caetano goza de arrecadação elevadíssima no setor de serviços empresariais por conta da inserção na guerra fiscal durante a Administração de Luiz Tortorello, em meados da última década do século passado. Há empresas documentalmente em São Caetano, mas que não atuam com a grandeza física imaginada. Principalmente nas áreas financeira e de construção civil. O recolhimento de ISS (Imposto Sobre Serviço) favorece bastante São Caetano, mas há aperto geral dos tribunais para não circunscrever as receitas das empresas à localização administrativa, ampliando-se o raio de arrecadação aos municípios tomadores dos serviços. 

Setor químico/petroquímico

Há pressões contra as receitas fiscais de São Caetano como distribuidora de produtos do Polo Petroquímico de Capuava. Mauá não cansa de chorar as pitangas em busca de um naco desse dinheiro. É verdade que a ameaça não ultrapassa o campo político-partidário, mas convém não se descuidar.

Setor varejista

A rede Casas Bahia segue assegurando muita arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), por estar sediada em São Caetano. Não se sabe até quando o remelexo acionário da empresa hoje parte de um grande conglomerado do setor abalaria essa estrutura de receitas. 

É claro que não passei da superficialidade na abordagem dos obstáculos que poderiam atravancar as receitas públicas de São Caetano, mas nada que não seja indicativo de que existe sim uma enorme pedra no meio do caminho. 

A exiguidade física do território de São Caetano, de 15 quilômetros quadrados, foi um transtorno num passado não muito distante quando o conceito de grandiosidade espacial parecia inquestionável à atração de investimentos. Como as grandes fábricas estão cada vez mais no passado e o entorno demográfico ganha cada vez mais relevância em determinados nichos de mercado, São Caetano tem tudo para beneficiar-se de um Arranjo Produtivo Local que atrairia cinquentões em diante em busca de uma saúde melhor tanto quanto Las Vegas seduz quem busca mais que a sorte.  

A arquitetura desse projeto, portanto, vai muito além do que foi apresentado domingo no Diário do Grande ABC. Os grandes players do mercado de saúde para os cinquentões poderiam participar dessa empreitada. São Caetano tem vocação natural à velhice saudável. 

Não custa nada São Caetano maximizar os resultados. Afinal, se existe uma certeza neste País é a de que todos vamos morrer um dia, mas antes de morrer quem tem mais dinheiro consegue dar um nó no obituário e estica um pouquinho mais a vida. 



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