Economia

Ford investe com
o suporte de Dib

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/11/2005

Dois meses após se lançar ao desafio inédito de fortalecer o complexo automotivo, o prefeito de São Bernardo e presidente do Consórcio Intermunicipal, William Dib, tem motivo de sobra para comemorar: a produção de novo automóvel compacto na fábrica da Ford em São Bernardo é a melhor notícia dos últimos tempos para um Grande ABC atingido em cheio pela mistura de globalização e guerra fiscal. 

E a comemoração tem sabor especial porque William Dib não se restringiu ao papel de mero espectador. Pelo contrário: foi um dos atores responsáveis pela definição locacional favorável ao Grande ABC. “Antes de divulgar a decisão oficialmente à Imprensa, Rogelio Golfarb me telefonou para agradecer a parceria” — confidencia Dib, referindo-se ao diretor de Assuntos Corporativos da Ford e presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Qual foi a participação de Dib para viabilizar a atração do produto que pode representar a salvação de mais de três mil empregos? Ele mesmo conta. “Fomos procurados há pouco mais de um ano, pela direção sul-americana da Ford, interessada em vantagens que pudessem pesar na balança em favor da região. O veículo poderia ser destinado à unidade de Camaçari, na Bahia, ao Grande ABC ou mesmo a outro país, dependendo das condições de competitividade. Reavaliamos o IPTU (Imposto Predial, Territorial e Urbano) e fizemos a ponte com o governo do Estado para viabilizar a construção de piscinão em terreno próximo, doado pela própria empresa” — conta o prefeito. 

Redução compensada 

William Dib explica que a reavaliação do IPTU representou redução de 26% no valor do tributo. E faz questão de ressaltar que a decisão está integralmente embasada em parâmetros legais. “A redução resulta de revisão técnica do valor venal da propriedade” — esclarece. Explica ainda que o abatimento de 26% não leva em conta a área que a Ford cedeu para as obras do piscinão. Se a economia sobre o terreno que deixou de pertencer à montadora fosse contabilizada, o desconto chegaria a 32%. 

Quem conhece a afeição de William Dib por assuntos econômicos não se surpreende com a capacidade de desemperrar engrenagens públicas para atrair ou fortalecer a instalação de empresas que geram impostos e empregos no Município — “e que são a base dos programas sociais”, como faz questão de sublinhar. 

Além da redução do custo fixo com IPTU, o piscinão em construção pelo governo estadual embute importância estratégica na medida em que eliminará obstáculos logísticos à eficiência operacional. “Em visita à DaimlerChrysler, fabricante de caminhões Mercedes-Benz, um executivo me perguntou quanto tempo durava o estoque de peças. Chutei um mês. Ele disse que eram apenas três horas. Isso significa que a indústria automotiva trabalha com janelas estreitas de fornecimento, em just-in-time. Qualquer imprevisto logístico que interrompa o abastecimento pode comprometer a rentabilidade” — destaca. 

Cadê o Rodoanel?

É justamente por conhecer a importância do fator logístico especialmente em mercados altamente competitivos que o prefeito de São Bernardo fica exaltado ao falar sobre a falta de senso de prioridade na raiz do atraso do trecho Sul do Rodoanel. “O governo federal afirma não ter R$ 750 milhões para investir no Rodoanel em quatro anos, mas liberou R$ 1 bilhão em emendas em apenas uma semana para eleger Aldo Rebelo presidente da Câmara” — desabafa.

Enquanto o Rodoanel não chega, William Dib utiliza as armas disponíveis na batalha pelo fortalecimento da indústria automobilística do Grande ABC. O abatimento de um quarto no valor do IPTU será infinitamente compensado por receitas adicionais de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) a bordo do veículo popular com alta escala de produção. E a influência positiva junto ao governo do Estado só custa disposição para colocar o peso político a serviço de uma das cidades economicamente mais importantes do País. 

Tão importante quanto medidas concretas pontuais, entretanto, talvez seja a configuração de ambiente propício a investimentos, deflagrada por dirigente público deliberadamente entusiasta dos preceitos do desenvolvimento econômico sustentado. Investidores são aves sensíveis sempre em busca de habitats amigáveis. Quando não encontram, batem asas e voam em direção a outras paisagens. É justamente esse ambiente propício que o prefeito e presidente do Consórcio Intermunicipal resolveu formatar e propagar na contramão do clima selvagem e hostil que caracterizou o Grande ABC desde a industrialização.

Confidencialidade prevalece 

Se o prefeito de São Bernardo negociava com a Ford há mais de um ano sem que as informações rompessem os muros da confidencialidade, é natural imaginar que, neste momento, outras negociações possam estar em processo semelhante. O prefeito sorri e, depois de certa insistência, revela que há outra montadora interessada em ampliar presença na região, inclusive com possível transferência de linha de montagem. “Estamos estudando medidas de incentivo” — comenta, sem antecipar detalhes.

A disposição com que se lança ao desafio de lubrificar a principal engrenagem econômica de São Bernardo e do Grande ABC não deixa dúvida de que William Dib transformou em ponto de honra a incorporação do conceito desenvolvimentista consagrado por Juscelino Kubitschek. Como desenvolvimento se faz com conhecimento, busca parceiros para realizar seminário sobre o futuro da indústria automobilística especificamente no Grande ABC. “Tenho conversado com Rogelio Golfarb, da Ford e da Anfavea, sobre a data do evento. Será provavelmente no primeiro semestre do ano que vem” — afirma.  

A constatação de que a decisão da Ford representa a melhor notícia automotiva para o Grande ABC nos últimos tempos é cristalina para quem conhece os rumos da indústria mais competitiva do planeta e os maus bocados que o berço automotivo passou nos anos de chumbo da globalização assimétrica. Como já foi apontado por LivreMercado, o Grande ABC se especializou em veículos mais complexos e de maior valor agregado. Essa é a forma de assimilar custos mais elevados na comparação com regiões de industrialização mais recente. 

Resistindo à descentralização 

Por isso viu a participação relativa na produção nacional desabar no ritmo da desindustrialização. Ao contradizer essa regra com projeto de produção de carro popular em São Bernardo a partir de 2008, a Ford transmite a lição de que o Grande ABC não é carta necessariamente fora do baralho no jogo dos automóveis mais simples e baratos. Sobre a região pesam custos mais elevados, mas não se deve fechar a porta para a possibilidade de abrandar ou eliminar desvantagens que justifiquem investimentos. 

Além de William Dib, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC deu valiosa contribuição para o fortalecimento da Ford na região. Detalhes das negociações não foram revelados. Sabe-se, entretanto, que a representação dos trabalhadores aceitou condição que soaria como blasfêmia nos tempos de enclausuramento econômico e repasse automático de custos aos veículos: espaços ociosos da fábrica serão ocupados por fabricantes de autopeças cujos funcionários seguirão contratos trabalhistas diferentes dos que regem a indústria automobilística. 

Se o sindicato não aceitasse o novo desenho industrial, a Ford teria dificuldade de atrair fornecedores a fim de viabilizar figurino mais econômico e eficiente de condomínio industrial. 

Além da contribuição de William Dib e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC pesou também a conversão de créditos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) relativos a exportações em investimento na nova linha de montagem com isso, chega-se à fórmula que fez com que a Ford invertesse a rota de centralização de produzir automóveis na baiana Camaçari. 

Contra a tendência 

A decisão do investimento em São Bernardo contrariou os passos mais recentes da própria Ford e também do setor automotivo como um todo. Afinal, Volks, GM e Fiat, para citar apenas as três maiores, produzem automóveis de entrada bem longe do berço automotivo onde o fardo trabalhista é comprovadamente mais pesado. O Fox da Volks é montado na fábrica paranaense de São José dos Pinhais, o Celta sai das linhas de produção da GM em Gravataí, no Rio Grande do Sul, e o Mille, da companhia italiana, é produzido na mineira Betim. 

Seria ótimo se o precedente aberto pela Ford encorajasse outras montadoras a seguir o exemplo que representa antítese da pulverização geográfica estimulada pelo festival de incentivos fiscais e creditícios de governos estaduais e federal nos anos 90. 

O automóvel popular que deverá ser produzido em São Bernardo a partir de 2008 é peça fundamental no plano de recuperação da Ford. A montadora tem cerca de 12% do mercado interno, mas espera que o modelo acrescente 10 pontos percentuais na participação relativa e ajude a encostar na liderança. Se a estratégia for bem-sucedida, a produção na fábrica de São Bernardo pode atingir 200 mil unidades por ano — o quádruplo do volume atual somado dos modelos Ka, Courier e Fiesta antigo. 

Os trabalhadores torcem para que a estratégia seja bem-sucedida: o novo automóvel pode representar a salvação da lavoura de mais de três mil postos de trabalho, já que o acordo de estabilidade de empregos expira em março do ano que vem.  

Volkswagen nebulosa

O futuro da Volkswagen é mais nebuloso. O acordo de estabilidade de empregos firmado entre a montadora alemã e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC expira em novembro do ano que vem, mas o presidente Hans Christian Maergner já descartou a renovação. Como a representação dos trabalhadores não medirá esforços pela manutenção do acordo, o impasse será inevitável. A paralisação da fábrica Anchieta por 25 dias no mês passado antes que o TRT (Tribunal Regional do Trabalho) entrasse em cena pode representar apenas o ensaio de embates muito mais duros. 

Apesar da lipoaspiração que reduziu o quadro da fábrica Anchieta de 45 mil funcionários há quatro décadas para os atuais 12,4 mil, executivos graduados argumentam que a planta de São Bernardo ainda está inchada na comparação com fábricas mais novas e produtivas. Essa interpretação ficou evidente com o lançamento do projeto Autovisão de recolocação profissional, voltado às unidades de São Bernardo e Taubaté, com a decisão de não ampliar o quadro da fábrica do Grande ABC para produzir o Fox destinado à Europa e, num passado não muito distante, com a declaração bombástica do então presidente Herbert Demel, que comandou a subsidiária até outubro de 2002. 

O que disse o austríaco Herbert Demel? Que a linha de produção do Pólo em São Bernardo necessita de apenas seis mil empregados, metade do efetivo da planta que também monta Kombi, Saveiro e Santana, além de parte do Gol e do Fox para exportação. 

O sindicato está em alerta máximo por julgar que a Volks não honrou a palavra no caso do Fox europa. A montadora teria se comprometido a centralizar o modelo para exportação na fábrica de São Bernardo, mas deslocou a maior parte da produção para a região metropolitana de Curitiba — e sem gerar empregos adicionais na fábrica da região. 

Por isso, discordâncias sobre PLR (Participação nos Lucros e Resultados) podem ter sido apenas pretexto para a greve deflagrada em São Bernardo, e que contaminou as fábricas de Taubaté, São Carlos e São José dos Pinhais, no Paraná. A verdadeira intenção do sindicato seria demonstrar força e poder de mobilização para amolecer a direção da Volks com vista à negociação da manutenção do acordo de estabilidade. Cerca de 16 mil automóveis deixaram de ser produzidos num episódio que reedita o Grande ABC do passado — e que contrasta com o desejado Grande ABC do futuro indicado pela Ford.



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